Isabel Allende: «Creio que vivi apenas uma vida, mas com muitos capítulos interessantes»

Isabel Allende Llona (Lima, Peru, 1942) é a prova viva de que nunca é tarde para se descobrir uma vocação ou iniciar um ofício. A sua estreia literária acontece apenas aos 40 anos, mas nunca mais parou.

Após A Casa dos Espíritos (1982), o seu primeiro livro que está atualmente traduzido em 40 línguas, seguiram-se vários fenómenos literários: Paula (1994), uma obra de não-ficção sobre a morte prematura da filha, Filha da Fortuna (1998), O Amante Japonês (2015), Para Lá do Inverno (2017).
Isabel Allende
Isabel Allende é uma das autoras mais reconhecidas da América Latina
Filha de um diplomata, refugiada política durante a ditadura de Pinochet no Chile e imigrante na Califórnia, Estados Unidos, onde ainda reside, Isabel Allende assume-se como «uma estrangeira toda a sua vida» e uma mulher «coberta de orgulhosas cicatrizes».

Feminista e ativista, encontra nas palavras as suas armas, através de uma beleza e sensibilidade sublimes.

Aproveitando o mote de ter publicado um novo livro este ano, Longa Pétala de Mar, - verso extraído de um poema de Pablo Neruda - a autora concedeu-nos uma entrevista exclusiva.
«ESCREVER É COMO PRATICAR UM DESPORTO»
Na sua página oficial (isabelallende.com), escreveu que um romance é uma criatura viva com o seu próprio destino e que o seu trabalho é contá-lo. Longa Pétala de Mar é um romance recheado de factos e figuras históricas. Com tanta pesquisa por detrás de cada página, foi difícil escrever este livro?
Não foi difícil escrever este romance porque os factos históricos são relativamente recentes e há muita documentação em Espanha sobre a Guerra Civil e o exílio de republicanos, e no Chile sobre os refugiados de Winnipeg. Eu também tive a ajuda muito preciosa do meu amigo Victor Pey, um dos combatentes da guerra civil que chegou ao Chile em 1939 em Winnipeg.
Conheci o Victor na Venezuela, quando ele estava no seu segundo exílio, e ali contou-me a sua vida. Guardei essa informação na memória por 40 anos até que chegou a hora de escrevê-la.
Durante o ano em que escrevi o romance, o Victor estava vivo no Chile e nós estávamos em contato, para que ele me pudesse ajudar com muitos detalhes que de outra forma seriam impossíveis de conseguir. O meu amigo morreu seis dias antes de eu chegar para lhe enviar o manuscrito de Longa Pétala de Mar, que lhe era dedicado. Ele tinha 103 anos e estava saudável, forte e lúcido.

A questão dos deslocados é um tema recorrente nas suas obras como O Amante Japonês e Para Lá do Inverno.
Uma vez que já viveu a experiência do exílio na Venezuela e também a da imigração, de alguma forma isso fá-la sentir-se mais perto das pessoas que passam por essa realidade? A de perder e encontrar uma pátria? É também por isso que agora conta a história do barco fretado por Pablo Neruda?

Tenho uma fundação que, entre outros projetos, ajuda organizações que trabalham com refugiados, então eu conheço de perto a tragédia das pessoas deslocadas que não encontram para onde ir e que ninguém quer receber. Não foi o meu caso. O meu exílio foi na Venezuela, um país generoso e aberto que, na época, nos anos 70 e 80, vivia uma esplêndida situação económica. Não posso queixar-me, tive muita sorte. No entanto, é sempre doloroso perder tudo o que nos é familiar: casa, família, amigos, trabalho e pátria. O tema dos milhões de refugiados pelo mundo está hoje no ar. Não posso ignorá-lo.

Qual é o momento mais notável durante o processo de escrita deste livro?
As minhas conversas e troca de cartas com Victor Pey foram a melhor parte de todo o processo de escrita.

Tornou-se escritora porque foi abençoada por um bom ouvido para as histórias e através da literatura conseguiu expressar-se. Que conselho daria a um jovem escritor?
Escrever é como praticar um desporto. Um atleta treina diariamente para desenvolver os músculos e a capacidade de competir. Um escritor deve fazer o mesmo: escrever diariamente como treino.
Aconselho a escrever de forma despretensiosa, direta e fácil, cuidando muito dos detalhes realistas que compõem o cenário em que as personagens se movem. Muitas vezes, é na investigação do assunto que se encontram verdadeiras joias.

3 de setembro de 1939, data da chegada de Winnipeg ao Chile, foi também o dia em que a Segunda Guerra Mundial eclodiu na Europa. Portanto, foi um resgate duplo em dois momentos terríveis da História. Acredita que numa vida, muitas vidas se encaixam?
Sem dúvida, os refugiados de Winnipeg viveram duas vidas e alguns conseguiram viver três vidas, porque em 1973 tivemos um golpe militar no Chile e tiveram que sair para um segundo exílio. O meu destino tem sido semelhante. Eu tive que viajar muito, viver exilada e tornar-me imigrante.
Creio que vivi apenas uma vida, mas com muitos capítulos interessantes.

Qual o livro que está a ler neste momento?
Leio muito em inglês, porque vivo nos Estados Unidos. Acabei de terminar The Dutch House, de Ann Patchett, e Quichotte, de Salman Rushdie.

Numa vida tão cheia e, às vezes, tão difícil, qual é a memória mais bonita que tem?
Quando os meus dois filhos nasceram e eu os segurei nos braços pela primeira vez.

Descreva-nos um dia perfeito.
O meu dia perfeito é assim: acordo às 5h30 da manhã entre o meu marido e as minhas duas cadelas, que dormem ao meu lado na cama. Abro a cortina e vejo a primeira luz do amanhecer refletida na lagoa. Bebo a minha primeira chávena de café e, depois de tomar banho e de me vestir, levo as cadelas ao parque.
Quando regresso, o meu marido já foi para o seu escritório e a casa espera-me em silêncio. Está na hora de escrever. Escrevo durante várias horas e, ao entardecer, quando meu marido chega a casa, passeamos juntos as cadelas pela orla do mar. Ao fundo, vê-se a ponte Golden Gate e o perfil de São Francisco.
Há veleiros na água e gansos selvagens cruzam o céu.
De volta à casa, tomamos um copo de vinho em frente à lagoa, preparamos o jantar e depois, se houver tempo, vemos um bom filme na televisão.
Num dia perfeito, há tempo para ler um pouco e ouvir um audiolivro no carro.
Num dia perfeito, há gelados para a sobremesa…

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