Patriota, de Alexei Navalny – a autobiografia de um homem inabalável

Por Vera Dantas
22 de outubro de 2024
Não era a primeira vez que era atacado, mas foi a mais rebuscadamente cruel: a 20 de agosto de 2020, uma quinta-feira – dia em que, como todas as semanas, entraria em direto às 08:00 horas para mais um episódio semanal de «A Rússia do Futuro com Alexei Navalny» – o mais convicto e destemido líder da oposição russa sofreu um envenamento quase letal com o agente nervoso novichok. Estava num avião, a caminho de Moscovo, e sentiu que a sua vida tinha chegado ao fim. Mas não foi assim. E nos dias que lhe restaram após ter recuperado, até à sua trágica morte numa colónia penal em fevereiro deste ano, escreveu, em primeira mão, o testemunho dos seus dias. Patriota – Memórias, que chega hoje às bancas em estreia mundial, é o testemunho de Alexei Navalny, um homem que a Rússia e o mundo não irão esquecer, e cuja vida de luta e resistência inspiram, cada dia, a inevitável queda de um regime ditatorial centrado na figura de Vladimir Putin.
No seu livro autobiográfico, que é o destaque da semana WOOK/RFM, Navalny tece um relato perspicaz, incisivo e até humorístico da sua luta contra o regime putinista. Escreveu a primeira parte enquanto recuperava em Freiburg, na Alemanha, após o envenamento. Na segunda, reproduz o seu diário na prisão, após o seu regresso a Moscovo em janeiro de 2021, quando foi preso no aeroporto. Navalny estava consciente de que o seu destino poderia ser a morte na prisão: «Se eles finalmente me vencerem, este livro será a minha memória», escreveu.
Percorrendo o livro, entramos no íntimo desta personalidade ímpar, cuja escrita denota o seu espírito bem-humorado, lutador, e nunca de vítima. Até à última carta que escreveu, a 17 de janeiro deste ano, nunca se deixou derrotar. Navalny morreu a 17 de fevereiro deste ano na colónia penal IK-3, a norte do Círculo Polar Ártico, onde se encontrava detido. Tinha apenas 47 anos.
Aos que se perguntam por que é que o ativista, sabendo dos riscos que corria, e mesmo após o envenenamento quase fatal que sofreu, regressou à Rússia, Navalny responde no livro: «Tenho o meu país e as minhas convicções. Não quero desistir do meu país nem o quero trair. (…) Participei nas eleições e concorri a posições de chefia. (…) Ao regressar à Rússia, cumpri a minha promessa [de não desiludir nem abandonar] aos eleitores. Tem de existir na Rússia alguém que não lhes minta».
Navalny não desistiu. Esta é a sua história, e deixamos-lhe um excerto para que a conheça.
O livro, uma biografia que vai ficar consigo muito tempo, encontra-o aqui.

    «Os verdadeiros escritores são pessoas especiais, como se sabe. Quando me peguntam como é morrer com uma arma química, ocorrem-me duas associações: os Dementors em Harry Potter e os Nazgûl no Senhor dos Anéis, de Tolkien. O beijo de um Dementor não dói: a vítima sente apenas que a vida se esvai. A principal arma dos Nazgûl é a sua aterradora capacidade para nos fazer perder a vontade e a força. Ali em pé, na coxia, sou beijado por um Dementor e há um Nazgûl que está por perto. Sou dominado pela impossibilidade de compreender o que está a acontecer. A vida está a escoar-se e eu não tenho vontade para resistir. Estou feito. Esse pensamento depressa me domina de forma rápida e poderosa a partir do «Não aguento mais».(…)
   Apenas tenho tempo para pensar: «São tudo mentiras, o que eles dizem sobre a morte.» A minha vida toda não desfila diante dos meis olhos. Não me aparecem os rostos daqueles que me são mais queridos. Nem anjos ou uma luz ofuscante. Estou a morrer olhando para uma parede. As vozes tornam-se indistintas, e as últimas palavras que ouço são as da mulher a gritar: «Não, fique acordado, fique acordado.» Depois morri.
    Para ser desmancha-prazeres: na verdade, não morri.»


Excerto de Patriota – Memórias, de Alexei Navalny, pp. 17-18
 

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