O Café da Lua Cheia – leia aqui a nossa sugestão da semana na RFM!
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E continuamos a fazer a ponte com o WOOK vais ler esta semana, o espaço de sugestões semanais de leitura na RFM.
Ao longo de seis semanas, até 10 de novembro, todas as segundas-feiras, os locutores do programa da Manhã da RFM, em parceria com a WOOK, irão sugerir um livro aos ouvintes e leitores.
Nesta segunda semana, o destaque vai para O Café da Lua Cheia, um romance com o imaginário da terra do Sol nascente.
A história passa-se num charmoso e muito especial café: não tem morada fixa nem horas certas para funcionar, só abre durante em noites de lua cheia e, prepare-se, é gerida por gatos! Esses felinos são, além de falantes, sábios. Cada chávena de café é um portal para o passado, onde os clientes – todos numa encruzilhada das suas vidas – revisitam momentos importantes do seu percurso. Enquanto os clientes se deliciam com sobremesas e bebidas fantásticas, os gatos consultam as estrelas, brindando-os com a sua sabedoria mística e mostrando-lhes onde, algures, perderam o rumo. Os casos são tão comuns como os de uma argumentista cuja carreira profissional já teve melhores dias ou de um web designer que, ao fim de muitos anos, reencontra o primeiro amor. E a “viagem” ao passado só pode durar enquanto o café não arrefece.
O Café da Lua Cheia é um livro que, como um bom café artesanal, nos faz apreciar as pequenas coisas da vida. No final, fica-se com a sensação de que poderiamos passar lá uma eternidade, refletindo, tomando mais um gole, e imaginando o que faria se pudesse revisitar um momento do passado. E quem sabe, pedir mais um café – só que dessa vez bem quente, antes que o tempo acabe.
A autora, Mai Mochizuki, é famosa também pelos seus romances policiais e a sua obra Holmes of Kyoto tem já uma adaptação a anime que vale a pena ver também.
Ao longo de seis semanas, até 10 de novembro, todas as segundas-feiras, os locutores do programa da Manhã da RFM, em parceria com a WOOK, irão sugerir um livro aos ouvintes e leitores.
Nesta segunda semana, o destaque vai para O Café da Lua Cheia, um romance com o imaginário da terra do Sol nascente.
A história passa-se num charmoso e muito especial café: não tem morada fixa nem horas certas para funcionar, só abre durante em noites de lua cheia e, prepare-se, é gerida por gatos! Esses felinos são, além de falantes, sábios. Cada chávena de café é um portal para o passado, onde os clientes – todos numa encruzilhada das suas vidas – revisitam momentos importantes do seu percurso. Enquanto os clientes se deliciam com sobremesas e bebidas fantásticas, os gatos consultam as estrelas, brindando-os com a sua sabedoria mística e mostrando-lhes onde, algures, perderam o rumo. Os casos são tão comuns como os de uma argumentista cuja carreira profissional já teve melhores dias ou de um web designer que, ao fim de muitos anos, reencontra o primeiro amor. E a “viagem” ao passado só pode durar enquanto o café não arrefece.
O Café da Lua Cheia é um livro que, como um bom café artesanal, nos faz apreciar as pequenas coisas da vida. No final, fica-se com a sensação de que poderiamos passar lá uma eternidade, refletindo, tomando mais um gole, e imaginando o que faria se pudesse revisitar um momento do passado. E quem sabe, pedir mais um café – só que dessa vez bem quente, antes que o tempo acabe.
A autora, Mai Mochizuki, é famosa também pelos seus romances policiais e a sua obra Holmes of Kyoto tem já uma adaptação a anime que vale a pena ver também.
Quer ler já este romance? Comece com o prólogo do livro. O resto da história, encontra-a aqui.
PRÓLOGO de O Café da Lua Cheia, de Mai Mochizuki:
«Inícios de abril.
O som melodioso de um piano entrava pela janela completamente aberta, acompanhado de uma brisa suave que trazia as fragrâncias da primavera.
Era a peça Salut d’Amour, de Elgar.
Um gato surgiu no corrimão da varanda, como que atraído pela melodia.
De qualquer modo, o meu prédio permitia a presença de animais.
O gato devia viver no prédio com os donos.
Era um gato malhado como tantos outros, com a pelagem branca, castanha e preta harmoniosamente distribuída.
De pé, na cozinha, parei de cortar alho-francês para o observar.
O gato deslizava ao longo do corrimão da varanda.
A sua elegância enquanto caminhava perigosamente pela superfície instável era tão notável, que foi impossível não me perder de amores por ele.
O céu cristalino, sem uma única nuvem à vista, e as cerejeiras em flor como pano de fundo davam-lhe um ar de quadro.
Por outro lado, eu limitava-me a cozinhar, acabando de cortar o alho-francês que iria juntar à massa instantânea.
Tentava ainda fritar cenouras, rebentos de feijão e espinafres em óleo de sésamo, mas não sabia bem como o fazer. Era um almoço pouco elegante, de nenhum modo digno de figurar num menu.
O gato parou em pleno corrimão, como se escutasse o som do piano, e sorriu com um ar deleitoso. Abanou a longa cauda como um pêndulo.
Eu vivia num estúdio, com um quarto pequeníssimo.
Da cozinha para a varanda era um saltinho.
Quando o gato deu pelo meu olhar, virou-se e bradou miau!.
Não era uma saudação de amor, mas de gato.
Mais descontraída, lavei as mãos e dirigi-me à varanda.
Ainda experimentei abrir a porta de correr, mas o gato já se havia esfumado.
Mesmo olhando em volta, não o vi em lado nenhum.
A minha casa é no segundo andar. A possibilidade de ter escorregado e caído causou-me enorme preocupação, mas não havia indícios disso.
Mais aliviada, concluí, sorrindo, que «o gato não deve ter caído», e apoiei os braços no corrimão.
Salut d’Amour tinha chegado ao fim.
Agora, toca o Estudo Opus 10, n.º 3, de Chopin, também conhecido como «Tristesse».
Tristesse?, pensei, com um grande suspiro e de cabeça baixa.
Qualquer um responde com tristeza à separação do seu amado.
Ainda mais, uma mulher de 40 anos com ambições de casamento.
Estava com o meu namorado há tanto tempo, que estar com ele se tornara óbvio.
No entanto, não há nada propriamente óbvio.
Quem sabe o gato não tivesse mesmo escorregado.
Com esta ideia em mente, voltei a olhar para baixo, ansiosa. Porém, não vi o gato em lado nenhum. Parecia estar tudo bem com ele.
Eu é que tinha escorregado.
Onde foi que me enganei?
Ao escutar vozes de crianças lá em baixo, virei a cabeça na sua direção. Pareciam ser alunos dos primeiros anos de escola primária a passear nas férias da primavera.
Cheia de nostalgia, a minha expressão suavizou-se.
Questionei-me se os meus antigos alunos estariam bem.
Pensando melhor, não devia mesmo ter deixado de ser professora.
Não: se estivesse a dar aulas neste meu estado, as crianças mais desbocadas iriam perguntar-me coisas à descarada, do género «não se vai casar, professora?», e outras que tais.
Como estou agora, se me fizessem perguntas dessas, era capaz de chorar em plena sala de aula.
– Ainda bem que tomei esta decisão – disse para mim mesma, anuindo.
Fechei a porta de correr e voltei para o quarto.
Sem que tivesse dado por isso, o som do piano tinha cessado.»
PRÓLOGO de O Café da Lua Cheia, de Mai Mochizuki:
«Inícios de abril.
O som melodioso de um piano entrava pela janela completamente aberta, acompanhado de uma brisa suave que trazia as fragrâncias da primavera.
Era a peça Salut d’Amour, de Elgar.
Um gato surgiu no corrimão da varanda, como que atraído pela melodia.
De qualquer modo, o meu prédio permitia a presença de animais.
O gato devia viver no prédio com os donos.
Era um gato malhado como tantos outros, com a pelagem branca, castanha e preta harmoniosamente distribuída.
De pé, na cozinha, parei de cortar alho-francês para o observar.
O gato deslizava ao longo do corrimão da varanda.
A sua elegância enquanto caminhava perigosamente pela superfície instável era tão notável, que foi impossível não me perder de amores por ele.
O céu cristalino, sem uma única nuvem à vista, e as cerejeiras em flor como pano de fundo davam-lhe um ar de quadro.
Por outro lado, eu limitava-me a cozinhar, acabando de cortar o alho-francês que iria juntar à massa instantânea.
Tentava ainda fritar cenouras, rebentos de feijão e espinafres em óleo de sésamo, mas não sabia bem como o fazer. Era um almoço pouco elegante, de nenhum modo digno de figurar num menu.
O gato parou em pleno corrimão, como se escutasse o som do piano, e sorriu com um ar deleitoso. Abanou a longa cauda como um pêndulo.
Eu vivia num estúdio, com um quarto pequeníssimo.
Da cozinha para a varanda era um saltinho.
Quando o gato deu pelo meu olhar, virou-se e bradou miau!.
Não era uma saudação de amor, mas de gato.
Mais descontraída, lavei as mãos e dirigi-me à varanda.
Ainda experimentei abrir a porta de correr, mas o gato já se havia esfumado.
Mesmo olhando em volta, não o vi em lado nenhum.
A minha casa é no segundo andar. A possibilidade de ter escorregado e caído causou-me enorme preocupação, mas não havia indícios disso.
Mais aliviada, concluí, sorrindo, que «o gato não deve ter caído», e apoiei os braços no corrimão.
Salut d’Amour tinha chegado ao fim.
Agora, toca o Estudo Opus 10, n.º 3, de Chopin, também conhecido como «Tristesse».
Tristesse?, pensei, com um grande suspiro e de cabeça baixa.
Qualquer um responde com tristeza à separação do seu amado.
Ainda mais, uma mulher de 40 anos com ambições de casamento.
Estava com o meu namorado há tanto tempo, que estar com ele se tornara óbvio.
No entanto, não há nada propriamente óbvio.
Quem sabe o gato não tivesse mesmo escorregado.
Com esta ideia em mente, voltei a olhar para baixo, ansiosa. Porém, não vi o gato em lado nenhum. Parecia estar tudo bem com ele.
Eu é que tinha escorregado.
Onde foi que me enganei?
Ao escutar vozes de crianças lá em baixo, virei a cabeça na sua direção. Pareciam ser alunos dos primeiros anos de escola primária a passear nas férias da primavera.
Cheia de nostalgia, a minha expressão suavizou-se.
Questionei-me se os meus antigos alunos estariam bem.
Pensando melhor, não devia mesmo ter deixado de ser professora.
Não: se estivesse a dar aulas neste meu estado, as crianças mais desbocadas iriam perguntar-me coisas à descarada, do género «não se vai casar, professora?», e outras que tais.
Como estou agora, se me fizessem perguntas dessas, era capaz de chorar em plena sala de aula.
– Ainda bem que tomei esta decisão – disse para mim mesma, anuindo.
Fechei a porta de correr e voltei para o quarto.
Sem que tivesse dado por isso, o som do piano tinha cessado.»