Doce Japão

Por Vera Dantas
26 de agosto de 2022
No Japão das cerejeiras em flor e da gigante Tóquio nascem histórias doces, subtis e profundas. Eis algumas das mais bonitas.
 
Antes que o Café Arrefeça – De Regresso a Tóquio
«Se pudesse voltar ao passado, quem gostaria de encontrar?». É esta a frase que recebe os autores de Antes que o Café Arrefeça – De Regresso a Tóquio ao abrirem o livro. Segue-se um «Mapa das relações entre as personagens» e, depois, o primeiro capítulo, «Os Melhores Amigos». Percebe-se assim que este é, antes de mais, um livro sobre relações, sobre pessoas, continuando assim no registo do primeiro livro desta série, o sucessso de vendas Antes que o Café Arrefeça.
Funiculi Funicula, o centenário café situado num pequeno beco em Tóquio que nos foi apresentado no primeiro livro, e que oferece aos seus clientes a oportunidade de viajarem no tempo, recebe agora quatro novos visitantes, entre as quais um homem que quer rever o melhor amigo, falecido há 22 anos e um filho que não pôde ir ao funeral da mãe. As regras não mudaram, especialmente as duas mais urgentes: o buscador temporal deve esperar que a mulher de branco (um fantasma) desocupe o seu lugar, e, uma vez servido o café fresco, os clientes viajantes devem regressar antes que o café arrefeça. Embora o tempo possa ser brevemente desafiado, o presente não pode ser alterado.
Toshikazu Kawaguchi escreveu esta obra originalmente como peça de teatro, o que se nota no cenário e nas personagens, que parecem estar num palco. O sucesso do primeiro livro foi tal que, entretanto, já deu origem a um filme de cinema no Japão. Este segundo volume chega-nos igualmente comovente e envolvente. Afinal, não gostaríamos todos de ter uma segunda oportunidade com quem já perdemos?
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O que Procuras Está na Biblioteca
Que as bibliotecas guardam um mundo de possibilidades nos seus livros, ninguém contesta. Mas e se houvesse uma bibliotecária que nos pusesse nas mãos o livro que nos permitisse mudarmos a nossa vida? Foi essa a ideia que inspirou Michilo Ayoama a escrever O que procuras está na biblioteca. Este livro, fresco como uma janela de esperança, é um fenómeno editorial no Japão e está a ser publicado em todo o mundo.
A história desenrola-se no coração de Tóquio, na pequena biblioteca dirigida por Sayuri Komachi. Quem lá entra, é recebida por ela com a pergunta «O que procura?», uma pergunta que parece trivial, mas não é. É que a senhora Komachi consegue intuir quais são os desejos, remorsos e arrependimentos da pessoa que está à sua frente. Ela sabe como recomendar o livro que pode mudar a sua vida, revelando a cada um o poder da leitura. As personagens deste livro têm em comum o facto de estarem numa encruzilhada das suas vidas. Ryo, por exemplo, tem um sonho, mas está eternamente à espera do momento certo para o realizar. A cada um, a bibliotecária oferece um livro totalmente inesperado, muito diferente daquele que pensavam ter vindo buscar.
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Um Gato em Tóquio
Com Um Gato em Tóquio, Nick Bradley conseguiu o feito de captar a essência de uma cidade tão grande como Tóquio num único livro. Fê-lo tecendo uma teia que interliga as vidas fraturadas das suas personagens. O elo entre elas é um gato que salta da tatuagem das costas de uma rapariga para os bairros da cidade, por onde se movimenta como… bem, como um gato! Abrindo caminho através dos becos, a cada desvio ele cruza-se com as vidas aparentemente díspares dos habitantes da cidade, ligando-os de formas inesperadas.
Neste livro que sestá mais próximo de romance com episódios separados do que de um livro de contos isolados, este gato, entre o misterioso e mágico, livre de constrangimentos de enredo, toca a vida de jovens e velhos, ignorados e amados, num mosaico do humo nas suas várias facetas, da beleza à tragédia. Há lá notas de rodapé, fotografias, histórias contadas na primeira e na terceira pessoa e até uma pequena secção de manga. Um livro que leva o leitor numa comovente narrativa com muito de original.
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Doce Tóquio
Doce Tóquio explora de forma subtil e comovedora a redenção numa sociedade que não perdoa. A história é contada da perspetiva de Sentaro, um homem que sonhava tornar-se escritor mas que, devido a vários infortúnios, trabalha numa loja a fazer e vender dorayaki, panquecas recheadas com pasta de feijão doce. Trabalha para pagar as suas dívidas ao dono da loja, sem mais esperanças ou ambições.
Certa primavera, Tokue, uma mulher idosa, entra na loja oferecendo-se para ensinar a Sentaro o segredo de fazer uma pasta de feijão doce deliciosa. Também ela é uma proscrita – em criança, contraira lepra e foi encarcerada numa comunidade de leprosos toda a vida, apesar estar curada há 40 anos. A vida ensinou-lhe paciência e perspetiva, que tanto faltam a Sentaro.
Durian Sukegawa escreve num ritmo lento que guia suavemente o leitor, dizendo apenas o essencial. A história reflete a cultura japonesa, que acredita que a paz e a felicidade podem ser alcançadas pela disciplina de persistir num objetivo com vista à perfeição. A fragilidade humana, a força apaziguadora da amizade e a beleza das coisas simples são aqui retratadas de forma exemplar.
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