Histórias de migrantes
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@literacidades
14 de dezembro de 2022
Todos os anos, a 18 de dezembro, a ONU destaca a contribuição dos mais de 272 milhões de migrantes para as economias dos países que os recebem ou dos países de onde são originários, no caso dos 41 milhões de pessoas que vivem desalojados dentro do seu próprio país. O Dia Internacional dos Migrantes celebra-se desde 2000. Por cá, vamos celebrá-lo com livros.
Passagem para o Ocidente
Existem claramente duas partes neste livro: antes e depois das «portas mágicas». Na primeira parte, o autor relata o quotidiano de uma cidade do Médio Oriente que está na iminência de uma guerra. Fá-lo descrevendo rotinas absolutamente normais em qualquer outro ponto do globo. Habituámo-nos a pensar em cidades como Aleppo, Bagdad ou Kabul como zonas de guerra. Mas nunca, no Ocidente, nos debruçamos para pensar que, antes de mais, são cidades com uma rotina idêntica à nossa, onde também há empresas de seguros, professores universitários e cursos pós-laborais.
Neste livro, a guerra chega com uma intensidade avassaladora à cidade, exatamente como na vida real. A maior parte dos cidadãos tem de fugir dali para se manter viva. Aqui, a história ganha contornos fantásticos e surgem nesta cidade «portas mágicas» que levam as pessoas que as atravessam até Mykonos, Londres, Dubai, Califórnia... lugares longe daquela guerra atroz e onde as personagens se sentem constantemente estrangeiras. A facilidade com que aqueles portais para outro mundo são atravessados contrasta propositadamente com a realidade dos migrantes e a dureza das suas travessias de fuga. Mas as «portas mágicas» não são para todos e é aqui que esta fantasia distópica adquire os seus contornos mais interessantes.
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Neste livro, a guerra chega com uma intensidade avassaladora à cidade, exatamente como na vida real. A maior parte dos cidadãos tem de fugir dali para se manter viva. Aqui, a história ganha contornos fantásticos e surgem nesta cidade «portas mágicas» que levam as pessoas que as atravessam até Mykonos, Londres, Dubai, Califórnia... lugares longe daquela guerra atroz e onde as personagens se sentem constantemente estrangeiras. A facilidade com que aqueles portais para outro mundo são atravessados contrasta propositadamente com a realidade dos migrantes e a dureza das suas travessias de fuga. Mas as «portas mágicas» não são para todos e é aqui que esta fantasia distópica adquire os seus contornos mais interessantes.
Os Jardins do Presidente
Um García Marquez no Médio Oriente? Talvez não seja boa ideia comparar alguém ao génio do realismo mágico mas a realidade é que este livro nos leva para aquelas histórias de família tão ao jeito daquele autor. São três amigos que crescem juntos numa aldeia do Iraque contemporâneo e que vão sofrendo as agruras de várias guerras e do regime ditatorial de Saddam Hussein, que nunca é mencionado diretamente mas que é uma personagem essencial na obra. Temos a personagem que fica cega, o filho de vários homens, o colecionador de nomes, a morte inesperada, os horrores da maldade humana (mas também as maravilhas do amor) e a paisagem feita casa, a aldeia feita família. A obrigação da fuga perante a impossibilidade de resistência paira no ar: há que sair rapidamente de um lugar onde o valor da vida e a aleatoriedade da morte combatem com a necessidade de sobreviver e recalcar imagens horrendas. Fica-nos um leque de personagens que passam a ser da nossa família no fim do livro. Este é daquele tipo de histórias tão bem contadas que não lhe queremos perder o rasto e que vale também pelo retrato histórico de um tempo que não tem mais de duas décadas.
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Um Muro no Meio do Caminho
Lemos este livro com o coração apertado a cada página que voltávamos. Não que haja qualquer exploração da tragédia dos refugiados que vêm ter às portas da Europa nos anos recentes. Nem sequer seria preciso qualquer tipo de extrapolação da linguagem. Basta, como fez a autora, fazer o retrato cru e simples das histórias de vida destas pessoas, traçar-lhes os gestos em palavras, perceber-lhes os receios, aquilo a que almejam. Entender que temos postos nos nossos olhos a mesma condição humana. Mas aos que chegam falta-lhes o amparo de uma casa, o conforto de uma certeza de paz e acolhimento. Trazem memórias hediondas, muitas vezes projetadas em pequenos objetos, como cadernos, brincos, fotografias ou peças de roupa que são tudo o que lhes restou após terem atravessado o mar e chegado ao que, acreditam, é um porto seguro. Mas tudo deve ser cruel lá atrás, para se sujeitarem a tremendo abandono e para se porem à mercê do afastamento, da arbitrariedade, do preconceito e da incerteza.
Além de uma história dos refugiados, esta é também uma história sobre a hostilidade com que os olham e da impunidade com que os recebem. Mas é também um retrato da generosidade de alguns, da forma como acorrem para receber em abraços, como entregam as suas vidas à ajuda. Amina e Omid, os fugitivos, Dimitris, o grego cercado pelos seus próprios muros, Ann e Saud, Juan e Eleni. Cada um tem o nome de esperança.
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Além de uma história dos refugiados, esta é também uma história sobre a hostilidade com que os olham e da impunidade com que os recebem. Mas é também um retrato da generosidade de alguns, da forma como acorrem para receber em abraços, como entregam as suas vidas à ajuda. Amina e Omid, os fugitivos, Dimitris, o grego cercado pelos seus próprios muros, Ann e Saud, Juan e Eleni. Cada um tem o nome de esperança.
O Livro do Clima
O que faz um livro sobre o clima numa sugestão de histórias de migrantes? Desculpem-nos, mas é em jeito de premonição. Daqui a poucos anos, seremos também nós a fazer as malas e abalar. Não, provavelmente, por causa de uma guerra ou de um ditador. Mas porque a nossa casa se tornará hostil e despreparada, os nossos campos e o nosso mar, ameaças à sobrevivência, quais soldados prontos a expulsar. O descaso com que as alterações climáticas são tidas em conta numa sociedade pouco importada em fazer sacrifícios em nome do futuro dá que pensar. A indústria da carne, a mais poluente do planeta, a indústria têxtil, que em pouco lhe fica atrás, e a petrolífera, igualmente tóxica, conduzem o mundo para um caos certo.
Neste livro, Greta Thunberg, que em tempos perguntou aos líderes mundiais «como se atrevem?» a deixar às futuras gerações um mundo em ruínas, regressa à carga com uma «bíblia do ambientalismo», que nos diz que ainda é possível salvar o planeta, mas que as ações têm de ser tomadas hoje. Nem que, para isso, tenha de prescindir do bife à refeição, de comprar roupa nos saldos ou daquela viagem de avião «low cost». Um livro de denúncia, onde cada um de nós enfia a carapuça que melhor lhe serve mas onde nunca se perde a esperança numa reversão total dos sintomas de doença do planeta.
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Neste livro, Greta Thunberg, que em tempos perguntou aos líderes mundiais «como se atrevem?» a deixar às futuras gerações um mundo em ruínas, regressa à carga com uma «bíblia do ambientalismo», que nos diz que ainda é possível salvar o planeta, mas que as ações têm de ser tomadas hoje. Nem que, para isso, tenha de prescindir do bife à refeição, de comprar roupa nos saldos ou daquela viagem de avião «low cost». Um livro de denúncia, onde cada um de nós enfia a carapuça que melhor lhe serve mas onde nunca se perde a esperança numa reversão total dos sintomas de doença do planeta.