H. G. Cancela

Por Álvaro Curia/ Ludgero Cardoso
@literacidades
5 de julho de 2024
Há um desconserto palpável no que escreve Cancela. Ao aceitarmos o pacto com o narrador dos seus romances, despimo-nos como se fosse a primeira vez que o fazemos, sem nunca deixarmos de ser espectadores de um drama. Pois, não obstante a nossa nudez e a nossa disponibilidade, o mundo de Cancela é sempre uma encenação que desafia o equilíbrio entre o que é verosímil e o que não é, entre a fragilidade da superfície da pele e a violência exposta como um martírio. Assistimos ao desenrolar da ação, da qual o narrador é cúmplice, e o que mais nos aflige é a impossibilidade de saltarmos para a boca de cena e impedirmos o curso da tragédia. Mas é mesmo assim que a arte se dá. «Se há alguma coisa que possa ser a função das artes na atualidade é a capacidade de experimentar os valores. Aquilo que não é legítimo no plano político ou no plano social é desejável no plano artístico. Se a arte não é um espaço de experimentação, de encostar o mundo aos seus próprios limites, então não sei para que serve a arte.»* Escritor de vários romances e textos ensaísticos, são Impunidade, As Pessoas do Drama e o recente Nostos que se destacam na sua obra. Três romances independentes que constituem, contudo, um contínuo. Três livros a que aconselhamos que o leitor chegue sem saber nada sobre eles, porque aqui todos os elementos que compõem o objeto que tem nas mãos contam para a narrativa. Tentaremos, assim, expor o menos possível das obras, mas a nossa tarefa, aqui, é a de o convencer a ler Cancela, e com isso entrar na escrita de um dos mais interessantes escritores portugueses.
Impunidade
Quando entramos em cena vemos um homem que chega a um apartamento na periferia abafada de Sevilha e se depara com duas crianças a dormir. É de noite e tudo causa estranheza: o calor, a desarrumação, o abandono, a fragilidade. Desde cedo, neste romance, vamos sendo postos à prova na nossa conformação de espectadores. Nada está contado de forma a poupar-nos do que acontece ao longo do livro. Quem são estas pessoas? Encenando temas como a moral e a culpa, estamos no território do desconforto. Queremos que a quarta parede caia e nos digam que estamos perante uma peça de teatro, que nos devolva o conforto. Tudo o que podemos dizer é que a sensação prevalece e, no fim, talvez Impunidade tenha alterado a forma como nos damos à literatura.
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As Pessoas do Drama
Um homem vê uma mulher num filme e algo se desbloqueia na sua mente. Começam os dias da perseguição, da obsessão. Quem é ela? Onde está? Dos três livros, este é aquele que explora a dimensão cénica de forma mais complexa. A observação de um corpo através de uma tela, que desencadeia depois a vontade física de o encontrar. A certa altura, uma Antígona de olhos vendados, grávida, numa peça de teatro a que a personagem principal assiste vezes sem conta. Interessante, também, é falarmos dos cenários destes livros, pois se o palco é quase sempre uma Andaluzia extensa, de caminhos possíveis mas que martiriza o caminhante, o Alentejo aparece como uma espécie de desterro com cheiro a lar, ainda que um lar pútrido. E, neste Pessoas do Drama, temos a ideia de uma Roma de possibilidades, onde a trama ganha relevo.
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Nostos
Publicado em maio de 2024, o mais recente romance de H.G. Cancela volta a colocar-nos no lugar de espectadores do desenrolar de um enredo que joga de forma muito marcada com esta noção do que é verosímil, sem nunca cair do muro para nos enredar em definitivo no mundo da incredulidade. Um homem acorda num hospital francês sem saber como lá foi parar, apercebendo-se aos poucos de que está numa terra estrangeira, de que sofreu um acidente, de que nada ali lhe é familiar. No seu caminho, encontra uma daquelas que, na nossa opinião, ficará como uma das personagens mais impressionantes da literatura contemporânea portuguesa. Valhamo-nos da ideia de que regressa à cena a Andaluzia, o Alentejo e um protagonista em constante ensaio geral entre o domínio das suas ações e a inação que lhe causa o tempo e, sobretudo, a sua história.
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A noite das barricadas
Além destes três romances, a obra de H.G. Cancela conta com vários livros de ensaios sobre, por exemplo, a violência. É o que encontramos em A Humanidade dos Monstros. Tal como sobre a arte, o teatro, a literatura, como acontece em O Exercício da Violência. O autor tem ainda mais dois romances, cuja leitura andamos a guardar como quem tem de poupar uma bebida rara, para que nunca nos falte Cancela para ler. São A Noite das Barricadas, que se desenrola no cenário da revolução de abril de 1975, e A Terra de Naumãn sobre o qual, quem já o leu, nos diz que saímos do universo dos outros romances e encontramos uma comunidade em harmonia.

*Isabel Lucas, O mundo violento e frágil de H. G. Cancela
in Ípsilon, Público, 29-07-2017.
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