Ficção que não é só ficção: é ficção científica
Partilhar:
17 de fevereiro de 2023
Que maravilha, alguém olhar para uma folha em branco e poder fazer ali o que quiser. A invenção é uma descoberta e, quando dá para inventar a sério, a liberdade é um terreno sem fim. Como se não bastasse, ainda tem graça que a invenção seja uma hipótese: quem sabe se um dia...
A história de uma serva
Tem sido terreno fértil na ficção científica e já se sabe como é: quando se esticam os limites da Humanidade, quando se pensa até onde o exercício do poder pode ir, dá asneira. Aqui, temos a sociedade marcada por uma revolução teocrática. A mandar, estão fundamentalistas religiosos de extrema-direita: depois de derrubarem o governo norte-americano, queimaram a Constituição e impuseram uma vida torta. A América transformou-se então noutra coisa. Agora chamada Gileade, eis um Estado violento e extremista. Ali, as mulheres férteis tornam-se em escravas da procriação. Conhecidas como Servas, são obrigadas a conceber para a elite estéril. Com isto, o valor de cada serva está na própria fertilidade num mundo onde as mulheres não podem ler e se mistura a memória do passado com a ideia de um abanão que leve a um futuro diferente.
QUERO LER!
Admirável Mundo Novo
É um dos grandes livros de ficção científica, cabeça de todas as listas, quase introdutório ao género: é impossível um amante não meter ali as mãos. A parábola arrepia, tal é a desumanização. O Homem, já se sabe, inventa, e há um dia em que a invenção domina tudo. Tem sido uma sombra em torno da ficção desde que a tecnologia começou a ganhar espaço no mundo, e por isso aqui a temos a dominar a vida: a reprodução está complicada, a manipulação dita o controlo de cabeças. No meio disto, surge Bernard Marx, chateado com a vida em geral (e quem o culpa?). Vive numa espécie de reserva histórica, onde são preservados os costumes «selvagens» do passado. Ali, tem um filho com uma mulher que vem da civilização. Nasce John, que funciona como modelo introdutório da selvajaria à sociedade civilizada. O selvagem traz, afinal, alguma humanidade a uma sociedade maquinal.
QUERO LER!
Duna
Dominou os ecrãs, mas antes disso conquistou leitores. É a obra-prima de Frank Herbert, autor norte-americano que criou Arrakis. Ali, tudo aflige de tão árido: o planeta é um deserto a perder de vista, a areia confunde-se com a secura e a vertigem, parece que só há céu e chão, céu e chão, céu e chão. E o chão é de pequenos grãos, num ambiente que dá a sensação permanente de pó e de pulmões maculados. Ali, temos Paul Atreides, que no cinema foi interpretado pelo novo menino bonito de Hollywood, Thimotée Chalamet, e que é um herdeiro de uma família nobre com a missão de governar um mundo inóspito. Só há deserto, e a única coisa que ali vale é uma especiaria chamada melange: valerá bem a viagem para o nada, já que consegue prolongar a vida. E, para prolongar a vida, é natural que haja quem mate.
QUERO LER!
O feiticeiro e a sombra
Depois de duas Terras estragadas e Arrakis, vamos lá a Terramar, desta vez de mão dada com uma criança, que este é voltado para o público infantil. Aqui temos Gued, o maior dos arquimagos, que vive nesse planeta para onde foguetões não voam. Para ser o CR7 da magia, o caminho foi longo, e o livro conta a história da sua iniciação. Tal como Harry Pottter, meteu-se a estudar numa escola de magia. Mas, ao contrário dele, profanou segredos, armou-se em esperto, lançou um feitiço demasiado à frente e libertou sobre o mundo uma sombra que o tentou matar. Até na ficção científica as asneiras de adolescentes são mais épicas. Ao longo do livro, lá vai ele fugindo e lutando a ver se se safa de um erro de juventude. Ali pelo meio do perigo, também há dragões domados, noutra semelhança com O Rapaz Que Sobreviveu. Mas, ao contrário de Harry Potter, Gued não é um protagonista feito para ser herói, antes uma personagem construída sobre a falha.
QUERO LER!