«Exercício para uma fábula», de Luís Sepúlveda

Por Vera Dantas
1 de fevereiro de 2023
Luis Sepúlveda atreveu-se, nas suas palavras, «a invadir a casa da Poesia, género maior que todos», perante o qual sentia «um respeito reverencial porque a Poesia e os Poetas são a medula da literatura». O escritor cuja vasta obra literária é globalmente aclamada e acarinhada, usava, com mestria e humor, a fábula para entrar em realidades e personagens que fizeram parte da sua realidade e do seu imaginário.

Quase três anos após a sua morte, a Porto Editora lança um livro que revela a magnífica, e ainda desconhecida, obra poética do autor. O Caçador Descuidado: Poesia Reunida (1967-2016) é uma cuidada edição bilingue, com seleção e edição de Alejandro Céspedes, prefácio de José Luís Peixoto e tradução de João Duarte Rodrigues. Os poemas estão divididos em capítulos e agrupados de acordo com o período da vida do autor em que foram escritos, dos primeiros, em 1967, até aos últimos, em 2016.

Não conseguimos conter um sorriso a esboçar-se nos nossos lábios ao ler este poema que lhe trazemos hoje, que tem tanto de sapiência como de humildade e de humor. É Luis Sepúlveda em estado puro.



EXERCÍCIO PARA UMA FÁBULA


O homem vivia até há pouco
em perfeita harmonia com o piolho.


O bicho em questão não pedia demasiado:
uma gota de sangue por semana,


quotização, além do mais, baixa
segundo o critério de qualquer sindicalista.


Em troca prodigava o seu talento
de infatigável contador de histórias.


Como a longevidade dos piolhos é um mistério
ninguém pode duvidar de tudo o que dizem.


Assim, por detrás de cada homem sempre houve um grande piolho.
Só que o primeiro disfarçou as verdades.


Em Londres, por exemplo, Karl Marx
teve um com especial clareza de ideias.


E rapidamente formulou sem reparos
o ser social como determinante do piolho.


Assunto que ao ser rebatido pelo bicho
provocou o aparecimento da dialética.


Ferido no seu orgulho o pensador
optou por coçar a cabeça


E uma minúscula gota de sangue entre os dedos
marcou o dealbar do realismo socialista.


Mais tarde outros, Lenine, Estaline, Trotsky, Mao, Khrushchov,
elocubraram na ausência do piolho.


Perante isso os bichos tornaram-se escassos, avaros,
egoístas, e abandonaram os templos e as bibliotecas.


Na América, toda, quiseram substituí-los por patos,
ratazanas, porcos, e outros híbridos do cinematógrafo.
Mas o piolho permanece no mistério
Da insónia que acossa o governante.


Em cima de cada pobre há um grande piolho paciente
E os pobres não coçam as ideias.

 

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