Entrevista com M. G. Ferrey
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17 de janeiro de 2020
M. G. Ferrey é uma jovem autora portuguesa que lançou no ano passado o seu primeiro livro: Aquorea - Inspira. Este romance, uma história cheia de fantasia que nos envolve como água tépida desde a primeira página, despertou comentários tão apaixonados por parte dos nossos leitores (pode lê-los aqui), que tivemos de ir falar com a autora para tentar perceber o fenómeno.
M. G. Ferrey
M. G. Ferrey é um pseudónimo?
M. G. são as iniciais do meu nome, mas não vou revelar qual é porque me parece interessante manter esse mistério. [risos] O Ferrey roubei-o ao meu avô do lado materno, que é Ferreira… Como sou uma autora desconhecida, que nunca tinha publicado nada antes do Aquorea - Inspira, optámos (eu e a editora) por fazer uma espécie de brincadeira. Achámos que esta seria uma forma aliciante de despertar a curiosidade dos leitores.
Isso fez-me logo pensar no caso da J.K. Rowling, que acabou por ser um sucesso estrondoso!
Sim, é verdade, mas não tenho essa ambição. É o sonho de qualquer escritor ser lido pelas massas, por milhões, creio. Mas o meu sonho neste momento já está realizado: consegui publicar o livro! Foi muito difícil e estou muito feliz com isso, é um sonho concretizado, sem dúvida.
E quando surgiu o gosto pela escrita?
Comecei a escrever já há muito tempo, de certa forma sempre escrevi. Sempre li muito, também, influenciada pelos meus pais, que são grandes leitores, sobretudo a minha mãe, que lê muitos policiais e romances, tanto de autores nacionais como estrangeiros. Adoro ler! Tenho um irmão dez anos mais velho que eu, o Paulo, e os nossos pais liam-nos todas as noites uma história antes de adormecer, foi uma rotina que se criou. Ainda hoje às vezes encontro, em cadernos e bilhetinhos, coisas que escrevi quando era pequena, com oito, nove anos.
Entretanto, este livro em específico, o Aquorea - Inspira, comecei a escrevê-lo há cerca de dez anos. Estava a passear na praia com a minha mãe, que tem uma grande imaginação, e a certa altura começámos a divagar acerca do amor que partilhamos ambas pelo mar. Demos por nós a imaginar como seria dar um mergulho e descobrir um novo mundo submerso e a minha mãe desafiou-me a escrever sobre isso logo aí! Comecei nessa altura, mas entretanto foram surgindo outras coisas e interrompi a escrita durante alguns anos. Depois, em 2019, decidi que tinha mesmo de terminar o livro. Fi-lo no espaço de um ano e depois enviei o manuscrito para muitas editoras. Durante seis ou sete meses recebi muitos «nãos», alguns «sins» com condições que não me agradavam, até que cheguei à Penguin!
Já nos disseste que a ideia para a história surgiu quando estavas na praia e que o conceito era logo à partida o de um universo debaixo do mar, fantástico, mas este livro apela também um pouco ao público young adult, porque a protagonista é uma adolescente. Porquê esse género?
Muito honestamente, não sei. Talvez seja estranho admitir isto, mas a verdade é que apesar de ler muito, até escrever este livro não era uma grande leitora de fantasia. Lia imensos romances, policias, biografias, não-ficção, sempre gostei de todos os géneros, mas acho que não fui eu que escolhi a fantasia, foi a fantasia que me escolheu a mim. O facto de o meu livro ser direcionado a um público jovem adulto teve a ver com o rumo que a história foi tomando, com as personagens que comecei a idealizar e o mundo que foi surgindo… Sou muito curiosa, adoro viajar, conhecer outras culturas e descobrir novos mundos, por isso talvez tenha algo a ver com isso.
Aquorea - Inspira é o primeiro livro da autora.
Disseste que gostavas muito de viajar e de outras culturas. Foi por isso que escolheste situar a ação nos Estados Unidos e na Foz de Iguaçu, e não em Portugal?
Sim, também. Não conheço os Estados Unidos, nesse caso teve mais a ver com o facto de ser a cidade de Atlanta, que em termos de sonoridade está próxima de Atlântida. Já a Foz de Iguaçu, conheço bem, já lá estive e apaixonei-me pelas cataratas! Achei que fazia todo o sentido o incidente inicial ocorrer naquele local, também por ter nomes apelativos, como a Garganta do Diabo.
Durante o processo de escrita, quando começaste a conceber as personagens principais, vias alguém em concreto na tua cabeça?
Não, foram-se formando. Ao longo da história há uma evolução e as personagens foram amadurecendo também, não são estáticas. A única coisa que sabia desde o início é que o protagonista masculino, Kai, teria olhos azuis. Tinham de ser uns olhos apelativos por causa dos sonhos que Arabela tem desde o início com ele. E o meu marido tem uns olhos azuis lindos, por isso talvez também tenha sido um pouco por aí. [risos] Em termos de caraterísticas físicas essa foi a única que imaginei em concreto desde o princípio, o resto foi surgindo.
Sou psicóloga e por isso tentei dar a cada personagem caraterísticas comportamentais bem vincadas, de forma a podermos, durante um diálogo, por exemplo, identificar de forma clara quem diz o quê. Queria que cada personagem tivesse uma voz e atitude muito próprias.
O facto de teres criado este mundo subaquático também tem a ver com preocupações ecológicas?
Sim, também. Tenho essa preocupação e acho que no contexto em que vivemos é fundamental. Não é um tema que aborde de forma muito direta no livro, mas está lá, tal como outros assuntos importantes: o bullying e a empatia, por exemplo. Nunca sabemos se um «bom dia» ou um simples sorriso vão fazer a diferença na vida de alguém e, muitas vezes, fazem. Não sabemos quem está do lado de lá, não vivemos nas casas das outras pessoas, por isso abordei deliberadamente essa questão: a importância de nos colocarmos no lugar dos outros e de não criticarmos o próximo quando não sabemos pelo que está a passar.
Aquorea - Inspira é o teu primeiro livro, mas é um romance longo, com uma grande fluidez e que tem um pouco de tudo: amor, mistério, fantasia… Aborda essa questão ecológica de que falávamos, problemas sociais como o bullying, questões de identidade caraterísticas da juventude, a tensão que existe por vezes nas famílias... O que é que te inspirou para criar esta história com tantos ingredientes?
A verdade é que não sou uma escritora muito organizada! [risos] Não estruturo tudo ao pormenor, mas tinha mais ou menos delineado na minha cabeça aquilo que queria que acontecesse. Sabia que a história seria narrada a duas vozes, que haveria dois pontos de vista: o do mundo subaquático e o do que se vai passando à superfície, no «nosso» mundo. É extremamente importante saber o que aquela família está a viver: a depressão, as dependências, o luto, a forma como cada um vive estas situações… À medida que ia escrevendo também iam surgindo ideias e fui encontrando o meu caminho. Houve muita coisa que tinha planeado e que depois acabou por seguir uma via diferente e que resultou melhor dessa forma.
À medida que ias escrevendo, ias pensando em determinadas obras ou autores?
Creio que não. Como te disse, não lia muito fantasia. Na verdade, já só depois de o livro estar terminado é que mergulhei nesse género, foi um processo inverso, completamente ao contrário do que era suposto! [risos] Tenho duas beta readers, como é costume dizer-se, a Mariana e a Catarina, que leram o livro antes de toda a gente. A Mariana devora fantasia e foi ela quem começou a sugerir-me que lesse Sarah J. Maas, por exemplo, que é a autora de uma das sagas de fantasia mais vendidas em todo o mundo. Mas enquanto estava a escrever de facto não tinha nenhuma referência em mente. A verdade é que escrevo como sei, como consigo.
Uma das coisas que mudaria, se escrevesse o livro hoje, seria o tamanho dos capítulos, que são bastante longos. Se pudesse voltar atrás, iria torná-los mais curtos, mas foi uma decisão que tomei juntamente com a editora: optámos por não os quebrar porque há sempre tanta ação, tanta coisa a acontecer, que preferimos pensar que o leitor nem daria conta do número de páginas! [risos]
Disseste que houve esse hiato de dez anos entre a ideia original e a conclusão do livro. Em algum momento achaste que não ias conseguir acabá-lo?
Sempre quis terminá-lo. Aproveitava todos os tempos livres, por mais curtos que fossem, para escrever uma ou duas páginas. Tinha era muito receio de não conseguir publicá-lo depois. Quando comecei a receber muitos «nãos» de editoras, então, sim, pensei em desistir. Aliás esse é um conselho que deixo a todos os escritores que estão a começar e a passar por essa fase: não desistam! É um processo muito duro, temos que ser fortes, resilientes, e encarar esses «nãos» da forma mais positiva possível.
Tinha consciência da dificuldade associada à publicação de um livro de fantasia em Portugal e sabia que o facto de ser uma escritora completamente desconhecida não ajudaria, mas nunca me deixei ir abaixo e felizmente consegui!
Li algures que este livro faz parte de uma duologia. É essa a tua ideia?
Sim, inicialmente o projeto era esse e já estou aliás a escrever o segundo livro da série. Mas entretanto têm surgido ideias para um terceiro volume, por isso vamos ver como tudo corre. As coisas vão fluindo, vão surgindo naturalmente, e vou anotando essas ideias e falando com a editora. Pode ser que haja mais, mas no segundo livro os leitores já perceberão que este é um universo com uma dimensão muito maior do que parece à partida.
Se o dinheiro e a pandemia não fossem uma condicionante, irias a algum lado para fazer pesquisa para este universo?
Adoro viajar, tanto em Portugal, porque temos coisas riquíssimas cá dentro, como lá fora. Trago sempre algo novo de todos os países onde vou, porque quando viajo faço questão de conhecer também as pessoas e a cultura. Quero perceber como funciona o dia a dia daquela gente, gosto de interagir, conversar… E também é assim que vão surgindo ideias para a escrita, de facto. Mas não penso em nenhum local específico, gosto tanto de viajar que se pudesse faria uma volta ao mundo. O meu marido deu-me uma sugestão fabulosa: se o livro correr bem, viajar pelo mundo de autocaravana. Achei essa ideia genial!
No teu Instagram, em alguns posts relacionados com o livro, publicas simultaneamente em português e inglês. Fazes isso porque tens muitos seguidores de outras nacionalidades ou porque gostavas que o livro fosse traduzido?
Creio que isso tem mais a ver com o facto de ter estudado em Londres e ter muitos amigos no Reino Unido… Quando comecei a divulgar o livro na minha conta do Instagram tinha bastantes seguidores ingleses e eu própria seguia sobretudo norte-americanos e ingleses, é principalmente por isso que acabo por fazer os posts nas duas línguas.
Por outro lado, até há pouco tempo não fazia ideia de que havia uma comunidade tão grande de bookgrammers em Portugal! É uma comunidade tão forte e tão ativa! É fabuloso. Só mais recentemente é que comecei a interagir com os bookstragammers portugueses e é fantástico. Todas as minhas beta readers são portuguesas e são absolutamente maravilhosas, ajudaram-me muito. Claro que adoraria que o Aquorea - Inspira fosse traduzido, seria ouro sobre azul! Mas também sei que esse passo é muitíssimo difícil, é preciso ser um sucesso de vendas muito grande em Portugal para chegar depois a outros mercados.
Como grande leitora que és, agora que também és escritora, há algum livro de outro autor que gostasses de ter sido tu a escrever?
Há alguns, sim. Mas há um em especial, e quem ler o Aquorea - Inspira facilmente percebe porquê, que é o Viagem ao Centro da Terra. É daqueles livros que leio e releio e que realmente acho maravilhoso, pela forma como está escrito e por tudo o que lá está.
Tens a tua própria empresa, mas, se fosse possível, gostarias de ser escritora a tempo inteiro?
Adorava, era um sonho poder escrever a tempo inteiro! Sei que em Portugal há muito poucos escritores que consigam viver só da escrita, mas gostava muito de o poder fazer, sem dúvida. Entretanto já estou a escrever outro livro que não está relacionado com esta saga, é um livro de ficção, mas não é young adult. Temos de ir devagarinho, agora está tudo na mão dos leitores!
No teu Instragram confessas num dos posts que consegues ler em qualquer lugar. E para escrever, tens que estar num local específico? Como é a tua rotina de escrita?
Adoro escrever e em casa tenho um escritório com uma secretária grande, com mais de dois metros, onde gosto de espalhar tudo. Sou muito desorganizada, ponho tudo aquilo de que preciso à minha volta, as minhas notas, etc. Mas um sítio onde gosto muito de escrever, por incrível que pareça, é num shopping. Com uns headphones, a ouvir uma playlist para aquele momento específico, é o local certo, porque não há distrações. Tenho dois cães, dois golden retriever, e se estiver em casa apetece-me estar com eles, por exemplo, ou alguém me diz que está a dar qualquer coisa na televisão e eu vou ver, etc. Enfim, há muitas distrações. Claro que ainda assim acabo por escrever muito mais em casa, mas quando preciso mesmo de me concentrar vou para um shopping, escrevo durante duas ou três horas seguidas e isso rende muito mais do que passar o mesmo tempo a escrever em casa.
Se pudesses partilhar um jantar com um escritor, vivo ou morto, quem escolhias?
Ai, essa pergunta… Tive recentemente a felicidade de partilhar um jantar com uma escritora portuguesa que admiro imenso, a Helena Magalhães, e acho que não escolhia mais ninguém. É uma escritora portuguesa, uma mulher de garra, que tem lutado tanto pela literatura portuguesa e nesta geração digital tem demonstrado ser uma pessoa tão dinâmica, que não escolhia mais ninguém.
Se tivesses um superpoder, qual seria?
Adorava poder teletransportar-me, seria brutal! E viajar no tempo também, tanto para o passado como para o futuro.
Qual foi o último livro que leste e de que gostaste mesmo muito?
O último livro que li e que amei foi Os Sete Maridos de Evelyn Hugo. Li-o há pouquíssimo tempo e adorei, aconselho-o vivamente a toda a gente, crio que nenhum leitor ficará desiludido.