Entrevista a Shehan Karunatilaka, o Booker Prize 2022

Por Vera Dantas
30 de novembro de 2023
Com As Sete Luas de Maali Almeida, Shehan Karunatilaka conquistou a maior distinção para obras de ficção em língua inglesa, o Prémio Booker, em 2022. É considerado um dos autores mais importantes do Sri Lanka.
Nascido em Galle, no Sri Lanka, em 1975, Karunatilaka cresceu em Colombo, estudou na Nova Zelândia e viveu e trabalhou em Londres, Amesterdão e Singapura. As suas canções, guiões e histórias foram publicados na Rolling Stone, GQ e National Geographic. Trabalhou como redator publicitário e tocou guitarra numa banda. O autor saltou para a cena literária mundial em 2011, quando ganhou o Prémio do Livro da Commonwealth, entre outros, pelo seu romance de estreia, Chinaman.
Em entrevista ao wookacontece, conta como conseguiu “jogar” com as regras do mundo pós-morte que criou para o livro As Sete Luas de Maali Almeida, do humor com que os cingaleses encaram as situações difíceis – como a sangrenta Guerra Civil que inspira as personagens e a trama do livro – e dos padrões de ouro na escrita que deseja alcançar, na senda de Kurt Vonnegut.



ENTREVISTA

Trabalhou em diferentes áreas criativas. Como é que o seu trabalho como redator publicitário o ajudou a tornar-se escritor e a seguir uma carreira na escrita?
Obrigou-me a ser criativo diariamente. Não se pode esperar que a inspiração apareça, é preciso aparecer todos os dias, fazer os trabalhos de casa e os exercícios criativos, entrar em pânico e, depois, colocar algo na página. Competências úteis para escrever todos os dias, e a única forma de conseguir escrever um romance.
 
 Shehan Karunatilaka
Shehan Karunatilaka
Chinaman foi um marco importante na sua carreira de escritor. Estava à espera que fosse considerado um dos melhores livros sobre críquete alguma vez escritos?
Não, de todo, porque não sou um verdadeiro especialista em críquete. Mas fiz a minha pesquisa para garantir que agradaria aos fanáticos do críquete e que atrairia o interesse daqueles que não sabiam nada sobre o desporto. Era esse o desafio, não pensei muito além disso, na forma como a Wisden [a publicação de referência do críquete] o receberia, mas é claro que foi uma grande honra [ter sido elogiado] pela “Bíblia” do críquete.
 
«Tive várias “falsas partidas” e reescrevi o livro quatro vezes. (…) É melhor editar demasiado do que não editar o suficiente. »
As Sete Luas de Maali Almeida traça um retrato mordaz da história recente do Sri Lanka, de uma forma profunda e complexa. Quais foram, para si, os desafios e as recompensas de escrever ficção especulativa, explorando as fronteiras da realidade e da imaginação?
Encontrar uma vida depois da morte que fizesse sentido e tivesse uma lógica que funcionasse. Recorri a tradições religiosas e filosóficas, bem como a filmes de terror e banda desenhada. Mas também tive de construir regras e de as respeitar. A ideia da vida depois da morte como burocracia trouxe o seu próprio conjunto de desafios, mas uma vez conhecidas as regras, foi fácil jogar com ela.
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A noção de universos paralelos e a capacidade de Maali viajar por diferentes realidades é cativante. Como é que abordou os aspetos de construção destes mundos para criar as diferentes versões da vida de Maali?
A regra principal era que os mortos podiam ir para onde quer que o seu nome fosse pronunciado. Isso permitiu-me apresentar os vários suspeitos que estavam ligados ao desaparecimento de Maali e explorar a sua história. A maior parte desta construção de mundos serve o enredo do mistério. Para o tornar misterioso, mas não demasiado confuso.

Em que mitologias se inspirou para criar o mundo caótico e rico pós-morte?
Na arte budista tibetana, nas divindades hindus, no folclore do Sri Lanka, no Inferno de Dante, no Guia de Hitchikers para a Galáxia, em filmes de fantamas, na banda desenhada Sandman. Houve bastantes fontes nas quais me pude inspirar.


O livro As Sete Luas de Maali Almeida levou 7 anos a ficar concluído. Isso deveu-se à complexidade do livro?
Estava a dividir o meu tempo entre um trabalho diário, uma família e um segundo romance. Acabei por escrever livros infantis e contos. Tive várias “falsas partidas” e reescrevi-o cerca de quatro vezes. Havia muita História e mitologia para apreender e a minha vida era bastante caótica. Demorou o tempo que foi preciso. Espero que o próximo seja mais rápido.

Teve de reescrever o livro várias vezes. Isso frustrou-o, ou lida com os contratempos como uma parte natural da escrita?
Gosto de o ter feito. Fazê-lo é um trabalho árduo, tal como continuar a acreditar na história. Sei que cada edição e reescrita torna a peça melhor, seja ela qual for, por isso continuo a fazê-lo até estar concluída. É melhor editar demasiado do que não editar o suficiente.
 
«Políticos, moderados, jornalistas e ativistas desapareciam ou eram mortos. Normalizámos isto durante uma geração…»
Escolheu um homem morto como protagonista para dar voz aos mortos, situando o enredo nos anos 80, durante os primeiros anos da guerra civil no Sri Lanka, para ganhar alguma distância. Apesar do seu próprio conhecimento sobre esses tempos, a quem/o que recorreu para a sua pesquisa, para criar um cenário autêntico para o seu romance?
Há muita não-ficção, jornalismo e arquivos online que cobrem o período, mas também falei com as pessoas que estiveram na linha da frente do conflito. Ex-soldados, refugiados, exilados, civis que partilharam experiências em primeira mão. Havia material suficiente para trabalhar e todos os fantasmas do livro são baseados em assassínios reais não resolvidos da época.

Pode partilhar alguma experiência específica da sua vida que tenha influenciado a narrativa e as personagens (como Lasantha Wickrematunge) de As Sete Luas de Maali Almeida?
A maior parte dos pormenores são embelezados pela história do Sri Lanka. Posso mencionar alguns dos assassinatos mais famosos, como o de Lasantha, Richard, Rajani, mas era mais uma cultura de políticos, moderados, jornalistas e ativistas que desapareciam ou eram mortos. Normalizámos isto durante uma geração.

Kurt Vonnegut foi o seu "companheiro" constante durante a escrita do livro. O que mais o fascina na obra deste autor, e como é que isso o ajudou neste projeto?
Ele usa a ciência e a magia e o seu coração muito humano para nos contar histórias sombrias sobre como a humanidade se está a destruir a si própria. E explica que isso deve ser feito através de piadas. Vonnegut consegue ser sábio, deprimente e hilariante, e maneja estas características tão habilmente como maneja enredos, personagens e filosofias.

Disse que a capacidade de ver a tragédia através da lente do absurdo e de ser desolador e hilariante no espaço de uma frase é o padrão de ouro a que todos os escritores aspiram. Acha que conseguiu atingir esse objetivo com As Sete Luas de Maali Almeida?
Esforcei-me muito por isso e há algumas frases no livro que funcionam a vários níveis e podem ser acusadas de serem literatura. Mas tenho um longo caminho a percorrer para atingir os padrões de ouro. Se tudo correr bem, haverá muitas mais frases para escrever.
 
 
«Tivemos uma história colorida e traumática, e as piadas são a forma como lidamos com cada situação difícil»
Que tipo de impacto espera que o livro tenha nos leitores do Sri Lanka?
Espero que os leve a lerem mais histórias do Sri Lanka e talvez a escreverem as suas próprias histórias. Na verdade, é só isso. Se fizer com que mais cingaleses leiam e escrevam, já é um resultado.

Como consegue equilibrar humor e temas mais profundos no seu trabalho? O facto de ser cingalês é um fator chave para o conseguir?
Penso que sim. Tivemos uma história colorida e traumática, e as piadas parecem ser a forma como lidamos com cada situação difícil em que nos encontramos.

Disse que se considera um romancista de género - histórias de detetives e policiais. Mas também escreveu livros para crianças. Considera a possibilidade de explorar outros géneros? Se sim, quais?
Acho que por agora é suficiente. Estou embrenhado num terceiro romance, alguns contos e novos livros infantis. Talvez queira dedicar-me a mais guiões, se conseguir arranjar tempo e espaço, mas por agora já tenho o suficiente na minha secretária.

É invulgar um autor do Sri Lanka, a trabalhar em Colombo, ser publicado fora do Sri Lanka. Que outros escritores do Sri Lanka deveriam ser lidos?
Tantos! Romancistas como, Anuk Arudpragasam, VV Ganesananthan, Nayomi Munaweera, Shankari Chandran. Ashok Ferrey. Poetas como Vivamarie Vanderpoorten, Janaka Malwatte, Shobshakthi. Dramaturgos como Ruwanthie de Chickera, S Shakthidaran, Arun Welandawe-Prematileke. E escritores mais jovens como Andrew Fidel Fernando, Yudhanjaya Wijeratne, Amanda Jayatissa, Kanya Almeida. E estas são apenas vozes da escrita inglesa. Há muitos mais em cingalês e em tâmil, embora menos destes escritores sejam publicados fora do Sri Lanka.

A sua carreira de escritor tem-lhe dado mais altos ou baixos?
Não mais do que a maioria das carreiras, suspeito. Tive dificuldades em ser publicado, mas não mais do que a maioria, mas também ganhei alguns prémios maravilhosos e agora viajei pelo mundo com um livro. Por isso, no cômputo geral, acho que tem sido bom.
 
«Tenho cuidado com o que escrevo e como escrevo, por isso talvez seja essa a minha forma de autocensura para evitar ofender os governos e a Internet.»
Na sua escrita, alguma vez se deparou com desafios ou censura relacionados com conteúdos políticos e, em caso afirmativo, como ultrapassou esses desafios?
Sou sensível às sensibilidades dos leitores e não pretendo ofender, por isso não escrevo nada político a não ser que seja bem ponderado. Tenho cuidado com o que escrevo e como escrevo, por isso talvez seja essa a minha forma de autocensura para evitar ofender os governos e a Internet.

Acredita que um dia este livro estará na secção de Fantasia, como desejaria?
Sim, acredito. Pode ser daqui a uma década, uma geração ou um século, mas se o livro ainda existir e as livrarias ainda existirem, penso que olharemos para trás, para a crueldade desta época, com espanto.

Existem influências ou legados duradouros da colonização portuguesa no Sri Lanka moderno, como na língua, na religião ou na arquitetura?
Sim, metade da nossa lista telefónica estava cheia de Pereras, de Silvas, Fernandos, as igrejas e os fortes ainda cá estão, tal como as palavras sapathu, almirah e kamise para sapato, armário e camisa. Também a música baila que se ouve nos jogos de críquete é baseada na kafrinha, de origem luso-africana.

Sente-se realizado na sua carreira e na sua vida?
Tem sido uma grande viagem e é maravilhoso desfrutar de algum sucesso, mas gostaria de continuar a escrever – essa parte ainda é difícil e vale a pena. Por isso, ainda tenho de escrever mais algumas coisas antes de me sentir realizado.

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