Isabel Stilwell: «A escrita é o meu talento, o meu contributo para mudar o mundo»

17 de janeiro de 2020
Isabel Stilwell (Lisboa, 1960) é a escritora de romances históricos mais lida em Portugal.
A estreia neste género literário aconteceu em 2007 com o livro Filipa de Lencastre e nunca mais teve fim. Os seus leitores agradecem.

Depois de escrever sobre algumas das rainhas mais emblemáticas portuguesas, ao nono livro, Stilwell conta-nos a história de D. Manuel I (1469-1521), num livro em que aborda os casamentos do rei com as infantas espanholas Isabel e Maria, filhas dos reis católicos Isabel e Fernando.

Foi esse o (bom) pretexto para darmos o pontapé de saída a uma conversa generosa que partilhamos agora consigo.
Isabel Stilwell
Antes de ser jornalista e escritora, Isabel gosta de frisar que é mãe de três filhos e avó de oito netos (número em permanente atualização!).
 
«SOU FEMINISTA E ACHO QUE NÃO HÁ NENHUMA MULHER QUE POSSA NÃO O SER»
A par de uma longa carreira no jornalismo, em 2007 iniciou-se na escrita de romances históricos com o livro Filipa de Lencastre. A História é um fascínio desde sempre?
Nasceu com o meu pai – ou foi o meu pai que o fez nascer. O meu pai estava sempre a contar-nos histórias. Uma pedra nunca era só uma pedra; uma arca nunca era só uma arca; um castelo nunca era só um monte de pedras. No fundo, percebi que a História e as histórias poderiam estar interligadas e, depois, também sempre fui uma ávida leitora de romances históricos.

À exceção do último livro – D. Manuel I – todos os outros têm protagonistas femininas. A propósito disto, gostava de lhe fazer duas perguntas:
1) Se a História nos mostra que as mulheres têm um papel menor, de bastidores, porque decide escrever sobre elas?
2) E, ao nono livro, o que a fez mudar de perspetiva?

A resposta é que é exatamente por isso que elas são tão interessantes. Não se sabe tanto sobre elas, não se escreve tanto sobre elas, elas permanecem desconhecidas embora tenham um papel importante.
No livro D. Manuel I, eu não abandonei as mulheres. Elas estão lá. O «meu» Manuel é um livro visto pelos olhos das mulheres que o rodeavam: a mãe dele, a duquesa de Viseu, uma mulher poderosíssima; a ama dela, uma mulher com uma história de vida muito engraçada e que mantém uma influência determinante; e depois, as duas rainhas. Eu nem sequer conhecia os nomes das mulheres de D. Manuel quando comecei a investigar. E, sobretudo, não sabia que eram filhas da poderosa Isabela Católica, que é uma mulher que arrebata o poder pelas armas e o mantém. E que estas mulheres são irmãs de Catarina de Aragão, mulher de Henrique VIII. Por isso, não é a escolha de um homem sem mulheres, é a escolha de um homem visto por mulheres.

É importante para si tirá-las dos bastidores e dar-lhes palco? Considera-se feminista?
Não tenho nenhuma ideologia desse género, de que vou fazer isto para todos verem quem são estas mulheres, de que por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher. Não. Eu faço-o porque elas me interessam genuinamente, acho que as suas histórias são tão imperdíveis que quero partilhá-las com os meus leitores.
Em relação à segunda pergunta: sou feminista e acho que não há nenhuma mulher que possa não o ser. Quando olhamos para a História recente, nem precisamos de recuar muito. Em 1974, as mulheres tinham de pedir autorização aos maridos para sair do país.
Em 1977 – eu tinha 17 anos nessa altura – foi revogada a lei que permitia que o marido rescindisse o contrato de trabalho de uma mulher. Ninguém pode deixar de ser feminista neste sentido. O que não significa obviamente que eu concorde com todas as reivindicações de todos os movimentos feministas. Mas de base, há ainda um trabalho enorme a fazer, e sobretudo, não nos podemos limitar à nossa realidade onde de facto as mulheres já conquistaram muitos direitos. Há tantos lugares do mundo onde as mulheres andam de burca e onde não têm os mais elementares direitos. A minha perspetiva é sempre a dos direitos humanos, não é a de que as mulheres tenham mais direitos do que os homens. É a da igualdade de direitos.

Qual é o critério de escolha sobre que figura vai escrever? Editorial, comercial, emocional?
Quando foi Filipa de Lencastre, que foi a primeira e abriu caminho para todas as outras, foi uma escolha do meu inconsciente, mas foi uma escolha racional e inteligente. Os meus pais eram ingleses, e a minha mãe era da mesma zona de Filipa de Lencastre, veio para Portugal para casar, teve oito filhos, e sendo a única princesa que foi rainha de Portugal numa família inglesa, obviamente era uma família de que se falava em [nossa] casa.
As outras escolhas têm sido muito por qualquer coisa que me toca num livro ou durante a pesquisa. Filipa de Lencastre só teve uma filha, a Ínclita Geração só tem uma rapariga. O que é que aconteceu a esta rapariga? Segui-a até aos 18 anos, que é a idade que ela tem quando a mãe morre, mas o que foi a vida dela depois disto?

Pesando a coerência da História, fiel aos factos, e a importância de agarrar o leitor com boa ficção, a sua balança pende mais para que lado?
A minha abordagem é muito jornalística. A primeira parte é ter a certeza dos factos que são possíveis apurar, perceber a história muito bem, ler os contratos, perceber os tratados, ou seja, fazer uma grelha e, depois, aplicar sobre isto, nos hiatos onde não há informação, a plausibilidade.
Eu posso ter uma carta ou um contrato e eu tenho sempre o meu leitor em mente. E tenho sempre, como jornalista, a ideia de que tenho de tornar a informação clara e acessível a quem me está a ler.
Tenho de contar as histórias das pessoas, as personagens a três dimensões. Não podem ser umas figuras apagadas e monótonas que não se revelam e que não atraem. Nesse sentido, posso, por exemplo, transformar uma carta num diálogo ou um tratado numa troca de conversa, mas mantendo o rigor da informação. Claro que mal colocamos diálogo num livro – a não ser que esse diálogo esteja reportado nalgum lado – nós estamos a introduzir ficção e, isso, é a Literatura. É Literatura a forma como conseguimos tecer as personagens, senão era um dicionário. O que um romance que prende faz é criar tensão psicológica, criar história. Aí entram os artifícios da escrita.
 
«CREIO QUE NUNCA COMETI UM ERRO GRANDE – SOU MUITO RIGOROSA E EXIGENTE COMIGO»
O que lhe toma mais tempo: a investigação ou a escrita propriamente dita?
Meio, meio. Há uma primeira fase de leitura, investigação, visitas aos sítios, muito build-up até eu saber bem a história.
Quando escrevi sobre Isabel de Aragão, a rainha santa, no início olhava para os nomes das pessoas e sentia-me a ler a Hola. Quando cheguei ao fim de quase um ano de investigação, eu já fazia como aquelas pessoas que abrem uma revista e dizem «Ah, pois, este é primo deste, filho daquele!». Aquelas pessoas já me eram familiares.
Quando já sei a história, passo-a da forma mais clara possível, limando o que não é importante.

Em livros tão densos e recheados de factos, não há o risco (o medo até) de cometer erros? Já lhe aconteceu nalgum livro?
Já, já aconteceu. Mesmo com cuidado da editora, tem sempre uma revisão histórica. Mesmo durante a feitura do livro de D. Manuel, a Joana Pinheiro de Almeida, que é historiadora, ajudou-me em muitas coisas, mas escapa sempre. Costumo dizer que tenho a humildade e o prazer ao mesmo tempo de ter um intercâmbio com os leitores. Quando os leitores descobrem alguma coisa incongruente ou uma gralha que nos escapou a todos, ainda bem! Na D. Teresa, houve um senhor que me escreveu a dizer «Olhe, está aqui broa de milho, mas não havia milho nesta época». E nós sabemos todos isso – e a verdade é que nos escapou. Na edição seguinte foi broa de centeio. Tenho a grande sorte de os livros venderem muito e podermos fazer novas edições, o que permite que as edições melhorem e os erros sejam corrigidos. Creio que nunca cometi um erro grande – sou muito rigorosa e exigente comigo. Posso ter interpretações conscientes, diferentes do mainstream da história, mas são muito fundamentadas, penso muito nelas. No caso de D. Manuel, tomou a decisão de expulsar os judeus por imposição da sua futura mulher, a rainha D. Isabel. E há agora uma tese diferente, de François Soyer, que diz que não, que ela pediu a expulsão dos hereges, mas D. Manuel é que foi mais papista que o papa e expulsou judeus e mouros. Isto só é relevante porque é uma forma de deitarmos as culpas para uma mulher e para os vizinhos do lado. [risos]

Considera que há algum preconceito por parte dos historiadores em relação ao seu trabalho?
Há historiadores e historiadores; há escritores e escritores. Também pode haver por parte dos escritores um preconceito em relação a um tipo de literatura para outro tipo de literatura. Os preconceitos fazem parte de todos nós. Tenho tido surpresas ótimas com historiadores e, inclusive, professores de História, que me escrevem a dizer a diferença que faz terem lido os meus livros e passarem esse entusiasmo de uma maneira diferente aos seus alunos; e tenho tido outras experiências menos boas, claro, mas faz parte.

Há ainda um outro preconceito, que é o de se considerar um bestseller como uma obra menor. Isto é: se vende muito, não pode ter qualidade. Qual é a sua opinião sobre isto?
Passar um atestado de menoridade aos leitores é uma coisa deprimente.
Até acredito que o livro de um autor, uma vez com uma ação de marketing grande possa vender bem, mas se o livro não for bom, o segundo, o terceiro ou o quarto não vão vender de certeza. As pessoas não são burras. Se estão no top livros que algumas pessoas acham que são fúteis ou desinteressantes, eu, posso olhar para um top e perguntar-me porque é que tanta gente se está a interessar por esse fenómeno. Não posso fazer uma leitura paternalista. Os catálogos estão cheios, as pessoas têm muito por onde escolher. Ao fim de nove livros bestsellers, eu não acredito que haja tantos leitores masoquistas que se castiguem com volumes de tantas páginas. [risos]

Apesar do seu percurso e de ser reconhecida como a autora de romances históricos mais lida em Portugal, recentemente afirmou numa entrevista ao Público que não faz Literatura (apenas conta histórias). Se isto não é falsa modéstia, o que é para si Literatura?
Não. Eu retraio-me dessa afirmação. O que eu queria dizer é que eu própria consigo ver dentro da Literatura níveis a que eu ambicionaria, e que há coisas melhores do que aquelas que eu faço. Mas não faz sentido tirar o livro da Literatura. A Literatura é contar histórias.

Quem são as suas grandes referências literárias?
Se eu fechar os olhos e pensar nos primeiros livros que li, os que me trouxeram o amor aos livros, terei de falar sempre do Peter Pan, do Winnie-the-Pooh, que a minha mãe me lia. Depois, dos livros de Nárnia, do C.S. Lewis, do Tolkien. Tive sorte, o meu irmão mais velho leu-me alto os três volumes d’ O Senhor dos Anéis. Eu tinha 18 anos.
Os Cinco, de Enid Blyton. Pode estar proscrita, mas para milhares de crianças portuguesas foi a iniciação à leitura. Adorei todos os livros dela.
Numa fase mais adulta, adorei os livros da Hilary Mantel. Romances históricos que ganharam vários prémios. Tenho lido também Javier Marías, Elena Ferrante, Zimler. Li recentemente um que adorei, Educated, da Tara Westover. Tudo é uma influência.

Além de romances históricos, escreve contos e histórias infantis. São processos concomitantes ou dedica-se a cada um em exclusivo? Como é feita essa gestão?
Esses livros são o recreio dos romances históricos.
Os romances históricos exigem muita concentração, não são coisas que se pegue e que se largue. Ao passo que as histórias infantis, mesmo as histórias das rainhas para crianças, são livros que eu consigo fazer entre outros.
 
«USAR EMOJIS OU TER DE ESTAR CONSTANTEMENTE A FAZER DISCLAMERS DE COISAS QUE SÃO ÓBVIAS EMPOBRECE A ESCRITA»

A Isabel é muitas vezes citada na comunicação social por manifestar a sua opinião (polémica) sobre um determinado assunto. Prefere dizer sempre o que pensa? Ou já não está para se chatear e resguarda-se mais?
Eu queria ser capaz de me resguardar mais, mas depois não resisto.
Sei que isto vai parecer um bocado moralista, mas… A minha mãe e o meu pai educaram-nos com base na ideia de que nós temos de mudar o mundo à nossa dimensão e dentro das nossas possibilidades. A parábola dos talentos: cada um tem de usar o seu talento e é por esse talento que vai responder. Obviamente que não tenho a menor pretensão de ter um papel grande.
Na escola, tive muita dificuldade, mesmo na escrita. Mas era a área em que eu achava que era capaz e, portanto, esse era o meu talento. Nesse sentido, não consigo abdicar dele. É o meu contributo, vale o que vale, mas compete-me fazê-lo mesmo que me dê chatices.
Até dentro do jornalismo, o ataque talibanesco – e eu fui alvo de vários – fazem com que nós exerçamos muita auto-censura. Mesmo a necessidade –  que eu considero empobrecedora – de agora termos de pôr emojis, de ter de escrever «olhe, eu não sou homofóbica, mas…», ou seja, estar constantemente a fazer disclamers de coisas que são absolutamente óbvias... Isso é um empobrecimento civilizacional. E empobrece muito a escrita.

Se o dinheiro (e a pandemia) não fossem uma condicionante, onde gostaria de fazer a pesquisa para o seu próximo livro?
No Brasil. Adorei as vezes que estive no Brasil. A história Portugal-Brasil seria uma escolha.

Wook está na sua mesa de cabeceira? Wook está a ler neste momento?
Acabei Os Enamoramentos, do Javier Marías.
Tenho sempre dois ritmos: tento ter, à noite, no banho de imersão, um livro mais lúdico por contraponto aos livros de trabalho, de pesquisa. Terminei o Javier Marías e vou começar o novo da Elena Ferrante.

Há algum novo livro na calha? Podemos levantar a ponta do véu?
Há um livro na calha, mas não posso levantar a ponta do véu. [risos]
Será um romance histórico. Não posso revelar mais.

Se pudesse jantar com um escritor vivo ou morto quem escolheria?
O Oscar Wilde! [gargalhada]
De certeza absoluta!

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