Eduardo Lourenço (1923-2020), o maior e mais livre pensador do país
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17 de janeiro de 2020
Filósofo e ensaísta morreu aos 97 anos, em Lisboa
Não tenhamos dúvidas sobre isto: morreu o maior ensaísta português do século XX.
Eduardo Lourenço nasceu em 1923 na freguesia beirã de São Pedro de Rio Seco, e foi lá que aprendeu as primeiras letras e se fez gente. O Portugal profundo nunca saíu dele, mesmo quando estudou em Coimbra Ciências Histórico-Filosóficas (num tempo «em que andava à procura da [sua] própria definição») ou estabeleceu residência no estrangeiro.
Começou por Bordéus, em 1949, com bolsa de Estágio da Fundação Fullbright e a convite do Reitor da Faculdade de Letras da Universidade de Bordéus.
Eduardo Lourenço nasceu em 1923 na freguesia beirã de São Pedro de Rio Seco, e foi lá que aprendeu as primeiras letras e se fez gente. O Portugal profundo nunca saíu dele, mesmo quando estudou em Coimbra Ciências Histórico-Filosóficas (num tempo «em que andava à procura da [sua] própria definição») ou estabeleceu residência no estrangeiro.
Começou por Bordéus, em 1949, com bolsa de Estágio da Fundação Fullbright e a convite do Reitor da Faculdade de Letras da Universidade de Bordéus.
1949 é um marco na sua longa história: morre-lhe o pai, conhece a democracia europeia, escreve o primeiro ensaio – Heterodoxia – e casa-se.
«Imagine o entusiasmo e o espanto de chegar a Bordéus e, na rua principal, ver uma grande faixa de propaganda do Partido Comunista Francês. Veja o que é sair do país de Salazar, atravessar o de Franco, que ainda era bem pior, e chegar a um sítio onde aquilo era uma coisa normal. Naquele momento, a França era o país da liberdade», referiu numa entrevista a Luís Miguel Queirós.
Em 1949, conheceu Annie Salomon, estudante da mesma universidade, e o grande amor da sua vida com quem viera a casar em Abril de 1954. Annie nasceu na Bretanha em 1928, e a relação entre ambos não é de somenos importância. Professora universitária e tradutora, Annie teve um papel fundamental na divulgação da obra de Eduardo Lourenço em França.
«Não escrevi nada. Casei-me. Tudo foi mais simples do que o imaginava, tão simples que não tive a sensação de me dar um espectáculo nem a mim mesmo como é costume. Diga-se de passagem que eu assisti ao meu casamento como se estivesse em divino».
Em Agenda de bolso, 22 Donnerstag, 1954
«Imagine o entusiasmo e o espanto de chegar a Bordéus e, na rua principal, ver uma grande faixa de propaganda do Partido Comunista Francês. Veja o que é sair do país de Salazar, atravessar o de Franco, que ainda era bem pior, e chegar a um sítio onde aquilo era uma coisa normal. Naquele momento, a França era o país da liberdade», referiu numa entrevista a Luís Miguel Queirós.
Em 1949, conheceu Annie Salomon, estudante da mesma universidade, e o grande amor da sua vida com quem viera a casar em Abril de 1954. Annie nasceu na Bretanha em 1928, e a relação entre ambos não é de somenos importância. Professora universitária e tradutora, Annie teve um papel fundamental na divulgação da obra de Eduardo Lourenço em França.
«Não escrevi nada. Casei-me. Tudo foi mais simples do que o imaginava, tão simples que não tive a sensação de me dar um espectáculo nem a mim mesmo como é costume. Diga-se de passagem que eu assisti ao meu casamento como se estivesse em divino».
Em Agenda de bolso, 22 Donnerstag, 1954
UMA OBRA SEM PRAZO DE VALIDADE
Entre as estações e desvios de uma carreira ímpar, foram várias as geografias por onde se moveu, pensou e ensinou ora Filosofia, ora Língua e Cultura Portuguesa: Hamburgo (1953), Heidelberg (1953-1954), Montpellier (1954), Brasil (1958).
Regressou a França, a Grenoble, em 1965, integrando o corpo docente da Universidade de Nice, e, em 1974, Eduardo Lourenço e Annie Salomon estabelecem-se, em definitivo, em Vence, na região francesa de Provence-Alpes-Côte d'Azur, a última estação de um exílio que começou aos 30 anos.
«Eduardo Lourenço vive em Vence, no sul da França, numa casa iluminada pelo sol provençal, a 400 metros da capela Matisse. Poderia dizer-se que vive no paraíso europeu, refúgio de génios e artistas à procura do calor e da luz meridional. Um lugar incensado pelo aroma das oliveiras e laranjeiras, protegido pelos ciprestes cortados em cerca, que plantou com as mãos de intelectual. (…) A casa está guardada por um cão electrónico, que ladra… mas não morde. É um alarme original, como tantas coisas na vida deste homem que muito antes de muitos outros já meditava e escrevia sobre a Europa.»
Clara Ferreira Alves, no Expresso, 1993
Foi na casa de Vence que escreveu uma parte muito significativa dos seus textos, dezenas de volumes, centenas de ensaios, milhares de opiniões que o consagravam como um dos mais relevantes intelectuais do mundo e o maior pensador português contemporâneo. Hoje, boa parte da biblioteca que residia na mítica casa encontra-se na Guarda, na Biblioteca municipal a que deram o seu nome.
Apaixonado pela Literatura, é autor de uma extensa obra de prosa mas especialmente de poesia, tendo incidido os seus ensaios nos grandes vultos - Luís de Camões, Miguel Torga, Fernando Pessoa.
Referia-se aos livros como «filhos» e dizia que «estar-se sem livros é já ter morrido».
Entre 2002 e 2012, torna-se administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian, e em 2013, após a morte da mulher, radica-se em Lisboa.
Em 2016, aos 93 anos, integra o Conselho de Estado a convite do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. E dá esta entrevista memorável ao Expresso.
Escrevia como falava e pensava como ninguém.
Recebeu todos os prémios, nacionais e internacionais, distinções e condecorações, dos quais se destacam o Prémio Camões em 1996 e o Prémio Pessoa em 2011.
Alheio à vaidade e à altivez intelectual, era fã de música clássica, dono de um humor fino e leve, e de uma oratória infindável a que o Portugal democrático teve o privilégio de assistir - confirmando a alcunha de «bavard sympathique» (um falador simpático), que Annie eternizou.
Por todo o lado, proliferam obituários e encómios ao génio de um homem que esteve, tal como Homero, sempre fora de tempo. Mas para Lourenço haverá mesmo um fim?
Regressou a França, a Grenoble, em 1965, integrando o corpo docente da Universidade de Nice, e, em 1974, Eduardo Lourenço e Annie Salomon estabelecem-se, em definitivo, em Vence, na região francesa de Provence-Alpes-Côte d'Azur, a última estação de um exílio que começou aos 30 anos.
«Eduardo Lourenço vive em Vence, no sul da França, numa casa iluminada pelo sol provençal, a 400 metros da capela Matisse. Poderia dizer-se que vive no paraíso europeu, refúgio de génios e artistas à procura do calor e da luz meridional. Um lugar incensado pelo aroma das oliveiras e laranjeiras, protegido pelos ciprestes cortados em cerca, que plantou com as mãos de intelectual. (…) A casa está guardada por um cão electrónico, que ladra… mas não morde. É um alarme original, como tantas coisas na vida deste homem que muito antes de muitos outros já meditava e escrevia sobre a Europa.»
Clara Ferreira Alves, no Expresso, 1993
Foi na casa de Vence que escreveu uma parte muito significativa dos seus textos, dezenas de volumes, centenas de ensaios, milhares de opiniões que o consagravam como um dos mais relevantes intelectuais do mundo e o maior pensador português contemporâneo. Hoje, boa parte da biblioteca que residia na mítica casa encontra-se na Guarda, na Biblioteca municipal a que deram o seu nome.
Apaixonado pela Literatura, é autor de uma extensa obra de prosa mas especialmente de poesia, tendo incidido os seus ensaios nos grandes vultos - Luís de Camões, Miguel Torga, Fernando Pessoa.
Referia-se aos livros como «filhos» e dizia que «estar-se sem livros é já ter morrido».
Labirinto da Saudade, publicado em 1978, amplificou a sua notoriedade nos meios intelectual e político e alargou a sua base de leitores. Nessa altura, Lourenço envolve-se formalmente na política aderindo à União de Esquerda para a Democracia Socialista (UEDS), liderada por António Lopes Cardoso, e apoiando, em 1980, a candidatura presidencial de Ramalho Eanes.
Jubilado em 1989, nos últimos meses do século XX, a sua obra começa a ser reeditada pela Gradiva*, que lançou também vários livros inéditos, incluindo O Lugar do Anjo (2004).Entre 2002 e 2012, torna-se administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian, e em 2013, após a morte da mulher, radica-se em Lisboa.
Em 2016, aos 93 anos, integra o Conselho de Estado a convite do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. E dá esta entrevista memorável ao Expresso.
Escrevia como falava e pensava como ninguém.
Recebeu todos os prémios, nacionais e internacionais, distinções e condecorações, dos quais se destacam o Prémio Camões em 1996 e o Prémio Pessoa em 2011.
Alheio à vaidade e à altivez intelectual, era fã de música clássica, dono de um humor fino e leve, e de uma oratória infindável a que o Portugal democrático teve o privilégio de assistir - confirmando a alcunha de «bavard sympathique» (um falador simpático), que Annie eternizou.
Por todo o lado, proliferam obituários e encómios ao génio de um homem que esteve, tal como Homero, sempre fora de tempo. Mas para Lourenço haverá mesmo um fim?
«NUNCA TERIA PODIDO SER QUEM SOU SE NÃO HOUVESSE PÁSSAROS E LÍRIOS DOS CAMPOS»
«A Natureza teve de esperar a minha chegada para ser Natureza. Ela não o é senão num momento em que nos tornámos homens. E isto não aconteceu num certo dia, mas sempre e nunca, porque ninguém sabe ainda o que isso significa – ser um homem – e por consequência ninguém sabe ainda o que é a Natureza. (…)
Mas nunca teria podido ser quem sou se não houvesse pássaros e lírios dos campos. Eles esperavam-me, eu esperava-os. Juntos tornámo-nos, eu, um homem que associa a sua felicidade à beleza do mundo, dos pássaros e dos lírios dos campos, eles, figuras à espera de um só olhar que os acorde do sono da terra ao qual estão destinados. Ao qual tudo está destinado se eu não morrer por eles para os salvar do nada onde já estavam antes que Deus desenhasse com eles o firmamento do meu coração».
Em Jornal Público, 20/3/2000
[*a editora portuguesa vai republicar todos os livros de Eduardo Lourenço até ao final do ano]
Mas nunca teria podido ser quem sou se não houvesse pássaros e lírios dos campos. Eles esperavam-me, eu esperava-os. Juntos tornámo-nos, eu, um homem que associa a sua felicidade à beleza do mundo, dos pássaros e dos lírios dos campos, eles, figuras à espera de um só olhar que os acorde do sono da terra ao qual estão destinados. Ao qual tudo está destinado se eu não morrer por eles para os salvar do nada onde já estavam antes que Deus desenhasse com eles o firmamento do meu coração».
Em Jornal Público, 20/3/2000
[*a editora portuguesa vai republicar todos os livros de Eduardo Lourenço até ao final do ano]