Editorial da semana: Conversas inesperadas

Sente-se o frenesim do final do dia que foi chuvoso. O metro vai cheio de pessoas, cada uma com as suas pressas. Não há lugares para sentar. Acomodo-me o melhor possível que a viagem ainda vai ser longa.
23 de maio de 2017
De pé e entre bancos embarquei noutra viagem. Foi num clássico e aos poucos e poucos o barulho de fundo da carruagem deixou de se ouvir. Nas mãos tinha O Retrato de Dorian Gray. A leitura foi interrompida poucas paragens depois.

- Está a ler esse livro por algum motivo em particular?
- Ofereçam-mo no aniversário.
- Por algum motivo em particular?
- Não sei. Talvez estivesse em boa idade para lê-lo…
- Por que começou a lê-lo agora?
- Por nenhum motivo em particular…
O Retrato de Dorian Gray Oscar Wilde
Conversa inesperada
Mais umas quantas perguntas numa conversa inesperada. O homem sentou-se. Não estava a ler. Fez a viagem de olhos cravados na janela. Por momentos, dei por mim a reparar nas outras pessoas. Na verdade, reparava nos livros. Havia páginas dobradas, capas amarrotadas e outras ainda imaculadas. O Kafka ia num colo adormecido e ao lado, entre mãos, estavam o Daniel Silva e a Paula Hawkins. Mais afastado, lê-se Fahrenheit 451 e, pelo meio espreita Só Nós Dois, do Nicholas Sparks.

Cheguei à minha estação. Mas na minha imaginação esta conversa seguiu viagem. E se, de repente, todos os livros começassem uma conversa entre si?


Ana Luísa Rego, gestora de produto

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