Dois poemas de Marta Chaves
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17 de janeiro de 2020
POSTA-RESTANTE
No dia em que a tua carta chegar,
estarei sentada no sofá
provavelmente esquecida
que a espero.
No dia em que a tua carta chegar, ficarei surpreendida
como se algo inesperado
tivesse acontecido.
Algo profundamente diferente
do que agora imagino
acontecerá nesse dia.
Não terei de passar o poema a limpo,
não sentirei a tentação de emendá-lo
pois a carta não chegará e, por isso,
restará apenas o poema como prova.
SER E NÃO SER
Entre mim e os livros na estante,
no espaço ocupado pela luz,
dão-se transformações
a que assisto quieta e calada.
Depois de olhar o ar,
cada palavra reflecte
o lugar invisível de onde veio o poema
ou o silêncio que passou pela casa.
A alma não escolhe a estação
nem prevê o detalhe do infinito.
Reparo com espanto infante
nos vestígios deste ritual,
os livros que não li
sabem de mim
e não dormem nunca.
No dia em que a tua carta chegar,
estarei sentada no sofá
provavelmente esquecida
que a espero.
No dia em que a tua carta chegar, ficarei surpreendida
como se algo inesperado
tivesse acontecido.
Algo profundamente diferente
do que agora imagino
acontecerá nesse dia.
Não terei de passar o poema a limpo,
não sentirei a tentação de emendá-lo
pois a carta não chegará e, por isso,
restará apenas o poema como prova.
SER E NÃO SER
Entre mim e os livros na estante,
no espaço ocupado pela luz,
dão-se transformações
a que assisto quieta e calada.
Depois de olhar o ar,
cada palavra reflecte
o lugar invisível de onde veio o poema
ou o silêncio que passou pela casa.
A alma não escolhe a estação
nem prevê o detalhe do infinito.
Reparo com espanto infante
nos vestígios deste ritual,
os livros que não li
sabem de mim
e não dormem nunca.