Dia da Mulher, dinheiro próprio e um quarto com fechadura na porta

Dia da Mulher, dinheiro próprio e um quarto com fechadura na porta
Hoje é Dia Internacional da Mulher e é urgente assinalá-lo e celebrá-lo enquanto a realidade for tão desigual
Há muitos outros dias para flores; hoje, elas são dispensáveis.
Não são precisos workshops de maquilhagem, nem tiaras, nem bombons. Não foi por isso que as sufragistas lutaram, que mulheres e homens desbravaram caminho ao longo de séculos na luta pela emancipação.
Sinalizar e estereotipar a efeméride com chocolates em formato de coração manifesta um profundo desconhecimento do contexto histórico e civilizacional. E, no entanto, os chocolates são o menor dos problemas.

Hoje, dia 8 de março, celebram-se as mulheres, todas as mulheres. As que abriram terreno e instruíram, reivindicando direitos e igualdade, para que hoje pudéssemos pensar, escrever e falar - até sobre isto - livremente.
«QUE NADA NOS DEFINA. QUE NADA NOS SUJEITE. QUE A LIBERDADE SEJA A NOSSA PRÓPRIA SUBSTÂNCIA.»
SIMONE DE BEAUVOIR
A realidade do patriarcado é transversal a praticamente todas as áreas, e a literatura não foi - não é - exceção. Até à segunda metade do séc. XVIII, o reconhecimento das mulheres era praticamente nulo, até surgirem nomes como Jane Austen ou as irmãs Brontë – Charlotte, Emily e Anne.

Virginia Woolf indagava-se e ironizava, já na década de 30, em Um Quarto Só para Si, sobre o paradeiro das mulheres na escrita, reiterando a importância da liberdade e independência financeira femininas: uma mulher precisa de 500 libras por ano e um quarto com fechadura na porta para poder escrever.

E prosseguia: «Mas aquilo que acho deplorável, continuei, olhando outra vez para as prateleiras, é que nada se saiba sobre as mulheres anteriores ao século XVIII. Não surge qualquer pista no meu espírito para me voltar para este lado ou para aquele. Eis-me a indagar porque razão as mulheres não escreveram poesia na época isabelina; e não sei como foram educadas: se as ensinavam a escrever; se tinham salas de estar para si; quantos filhos tinham antes dos vinte e um anos; o que, resumindo, faziam das oito da manhã às oito da noite.»

As mulheres continuam a ter salários mais baixos, maior risco de pobreza e são as principais vítimas violência às mãos dos homens (75% dos casos, segundo os mais recentes estudos da FFMS/Pordata). O trabalho doméstico e familiar, não pago, continua fortemente feminizado.
Elas descansam pouco e até acham que são capazes de tudo. Mas, se um dia, as mulheres parassem, o mundo pararia.

Soubemos hoje: em Berlim, o Dia Internacional da Mulher agora é feriado. É a primeira cidade da União Europeia a decretá-lo.

Em Portugal, ainda ouvimos: «Por que é que há um dia da mulher e não um do homem?» ou «És feminista. És contra os homens?». Enquanto estas perguntas forem feitas, este dia não só faz sentido, como é absolutamente indispensável.


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