Nuno Nepomuceno apresenta-nos os protagonistas do novo livro

Conto
Um conto de A Última Ceia

O escritor Nuno Nepomuceno tem um novo livro, A Última Ceia, um thriller empolgante que nos transporta para o enigmático mundo da arte.


Requintado, intimista e inspirado em acontecimentos verídicos, este livro junta, nas palavras do próprio autor, um pouco de tudo: «romance, aventura, ladrões, assaltos, mortes e muito mistério.»


Este conto exclusivo é uma adaptação de três capítulos do livro, nomeadamente, o do primeiro encontro entre os dois protagonistas: Sofia e Giancarlo.

O AUTOR
UM CONTO POR NUNO NEPOMUCENO
Praça de Santa Maria delle Grazie, Milão, Itália

O artista afastou e aproximou do edifício do mosteiro o lápis que segurava na mão, reavaliando as proporções. Estava sentado desde o início da manhã sobre a calçada da praça, trabalhando com suavidade no desenho. Passou às aguarelas. Uma silhueta vermelha e creme começou a nascer na folha.

Ao longe, uma jovem mulher de olhos castanhos, com um cartão de identificação pendurado no pescoço, deixou passar o elétrico e atravessou a via. Usava saltos rasos e o cabelo comprido e claro adornava-lhe as costas, enquanto deixava a abside alta da igreja cada vez mais para trás e se aproximava.

O aluno de Belas-Artes observou-a. Não havia nada de extraordinário nela. Era simplesmente a harmonia do conjunto que formava e a pele cor de alabastro, como num quadro imortalizado a óleo sobre uma tela, que faziam de Sofia Conti uma mulher de rara beleza.

Ela acabou de contornar o mosteiro dominicano e localizou o acesso principal. Não deu qualquer atenção ao rapaz que rasgava uma folha e começava rapidamente a esboçar o seu retrato. O pouco tempo de que dispunha iria ser muito bem empregue. Tencionava passá-lo com o seu velho amante, um fresco-secco original de Leonardo. Os italianos chamavam-lhe Il Cenacolo, mas todos davam outro nome a esta obra de arte. Era A Última Ceia.

Não foi amor à primeira vista. Para Sofia, o momento em que os dois se conheceram propiciou outra sensação. Quando saiu do elevador e entrou no antigo refeitório, foi recebida por uma atmosfera simples e serena, onde a luz do dia entrava timidamente pelos vidros das janelas altas. Os bancos de madeira, austeros e velhos, rangeram ao acomodar os turistas. Sentada na penúltima fila, a primeira que encontrou vazia, apreciou maravilhada o drama humano a que assistia.

Pálidas carícias de cor, na sua maioria em tons de pastel, ganharam vida perante si. Depois da entrada triunfal em Jerusalém, Jesus reuniu os apóstolos para uma refeição e previu, entre outras coisas, que um deles iria traí-lo. As grandes figuras dos discípulos agruparam-se à sua volta em conjuntos de retórica. Revoltados, gesticularam e argumentaram com uma emotividade nunca antes representada, escutados aos longe pelas montanhas que os espiavam através das janelas entreabertas.

Sofia sobressaltou-se ao reparar que estava a ser observada. Tratava-se de um homem que se sentara na última fila, alguns anos mais velho do que ela, talvez dez, quem sabe. Vestia um fato azul-forte, tinha o cabelo ligeiramente comprido, o colarinho da camisa branca que vestia contrastava com a pele morena e observava-a demoradamente.

Ela desviou o olhar e concentrou-se na obra de arte. Aprendera com os erros cometidos no passado. Voltou-se novamente para trás. Ele continuava a admirá-la.

Não foi amor à primeira vista. Para Sofia, o momento em que os dois se conheceram propiciou outra sensação. Foi uma oportunidade de viver de novo.

— Acho que é a obra de arte mais triste do mundo. E incomensuravelmente bela ao mesmo tempo — observou o homem, nas suas costas, com uma voz bem colocada, forte.
— Porque diz isso?
— O quê?
— Que é triste e belo.
— Repare na luz representada no quadro — pediu-lhe ele. — Existe uma, pintada a partir da esquerda, como se viesse das janelas altas deste refeitório, e há a imaginária, vinda das montanhas por trás dos homens, iluminando a figura central de Cristo.
— É quase como um halo — reparou ela.
— Não. Estes homens são todos muito humanos, espontâneos. Expressam serenidade, raiva, ressentimento, ou choque, como todos nós. É por isso que é um trabalho extraordinário.
— E não triste.
— Não.
— Porquê?

Os dois foram interrompidos por um funcionário do museu, que pediu aos visitantes que subissem. Um novo grupo de turistas aguardava pela sua vez. Sofia obedeceu e entrou no elevador. O homem manteve-se ao seu lado, algo que continuou a fazer depois de saírem, embora por pouco tempo. Uma mulher magra de cabelo ondulado e peito generoso apareceu a correr, beijando-o sonoramente nas faces.

— Carissimo!
Sofia estacou, hesitando. Decidiu ir-se embora. Sentia-se claramente a mais.

Um bando de pombos levantou voo sobre a calçada, assustado pelo homem que caminhava apressadamente através da praça. Vestia um fato da cor do céu, ignorado por um jovem pintor que se concentrava no retrato da mulher de cabelo claro que se afastava na direção da lateral do mosteiro de Santa Maria delle Grazie.

Sofia foi alcançada pouco tempo depois. Ele era mais ágil e atlético do que ela. Aliás, tudo em si o favorecia, inclusivamente as explicações que tinha para dar. Aquela mulher era a diretora do museu, uma velha amiga que apenas desejava agradecer-lhe pelas contribuições regulares que fazia para a manutenção do edifício.

— Devo ir — justificou-se ela, procurando retomar a caminhada.
— Não seja infantil. A cena de ciúmes fica-lhe muito mal.
— Não, não compreendeu. Tenho de ir. Vou apanhar o comboio para Roma e a Estação Central é longe.
— Posso levá-la. Tenho o carro estacionado adiante.
— Isso é conveniente, mas desnecessário. Obrigada.

Sofia arrancou mais uma vez. Milão, criativa, inovadora e plena de vida, acompanhou-a. Ele reapareceu segundos depois.
— Essa sua insistência fica-lhe mal — disse-lhe ela.
— Estou a tentar ser prestável. Custa-me deixá-la fazer esta caminhada debaixo do Sol.
— Não está assim tão quente.
— Mas é longe.
— Nem por isso.

O homem parou debaixo de uma árvore e fez um trejeito contrariado aos lábios. Ficava-lhe bem, teve de admitir.
— Para a semana, vou a Roma. Tenho umas reuniões de negócios agendadas. Seria possível vê-la novamente?
— Nem sequer sabe o meu nome.

Ele esboçou um sorriso malicioso, o primeiro dos vários que ela iria conseguir arrancar-lhe nos meses que se seguiram.

— Não preciso. Está escrito no cartão de identificação que traz pendurado no pescoço. Sofia Conti, embaixada portuguesa. Imagino que não devam existir muitas mais por lá.

Ela sentiu-se enrubescer. O homem tinha razão, que infantilidade.
— Chamo-me Giovanni Carlo — apresentou-se ele. — Mas todos me tratam por Giancarlo.

Sofia assentiu. Não queria ser mal-educada. Despediu-se cordialmente e retomou a caminhada rumo à boca do metro.

Giancarlo ficou a vê-la afastar-se até se tornar numa figura distante. Atravessou a estrada e entrou no seu automóvel, arrancando com suavidade. Seguiu na mesma direção que ela, mas apanhou uma transversal, evitando deliberadamente passar por Sofia.

Era perfeita, um peão fundamental na estratégia que esboçara. Dentro de menos de um ano, tornar-se-ia na sua esposa.

Pelo menos, esse era o plano.

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