Chegou a vez de ouvir os mortos

Por Ana Bárbara Pedrosa
31 de outubro de 2023
Há muita gente viva no mundo – mas há ainda mais gente morta. Se já nos falta tempo para ler quem vive, quanto mais para os milhões de cadáveres que a vida foi deixando. Mas podemos tentar na mesma. Vamos lá ver o que dizem os mortos.
 
Memórias póstumas de Brás Cuba
As memórias têm sempre este problema: por velho que seja quem as escreve, fica sempre a faltar qualquer coisa.
Brás Cuba resolveu isto escrevendo-as em morto. Só isso já abala o leitor: a voz do além-túmulo, em vez de putrefacta, sabe a coisa nova. O livro marcou a literatura brasileira e, já agora, a produção literária em língua portuguesa. Deve haver outras expressões, mas vamos à mais básica: é uma maravilha. Ao destruir as convenções literárias do seu tempo, Machado de Assis faz da literatura o seu brinquedo. O leitor anda ali à toa a ver a vida de um homem que viveu a banalidade: apaixonou-se por uma mulher casada, teve uma carreira falhada, nunca teve filhos. Mas, se no mundo dos vivos não encantou ninguém, enquanto morto arrebanhou leitores.
QUERO LER!









 
Drácula
Mais um que marcou as prateleiras. As gerações passam, o Drácula não. Não pode morrer quem não está vivo. Das mãos de Bram Stoker a adaptações para cinema e desenhos animados foi um tiro. Hoje em dia, não há quem desconheça aquele sinistro conde que se alimenta do sangue dos vivos. Por cada página, há suspense e horror – e alívio por isto ser um livro, uma meta-realidade de onde ninguém nos vem mesmo espetar o dente à carne. Mesmo morto, o Drácula inunda-se de paixão. Não será surpresa para ninguém saber que tanto fogo em sangue gélido não consegue acabar bem. Ao lê-lo, bem o vemos amaldiçoado. E que bênção é ler uma coisa assim.
QUERO LER!


 
Depois
Parece que, qualquer que seja o tema, dá para meter Stephen King. Em vez de uma cabeça, parece que o homem tem um solo fértil. E eis mais uma planta a surgir desse jardim. Em Depois, Jamie Conklin quer uma infância banal. A mãe bem luta contra as dificuldades quotidianas, e ele quer uma vida em que não se registem episódios. O problema é a vida em si: nasceu com uma habilidade sobrenatural, que a mãe quer manter escondida. Muitos davam um dedo, ou mais, para terem o que ele tem: a possibilidade de ver o que mais ninguém vê, de saber o que mais ninguém sabe. E, em criança, é arrastado pela polícia para uma investigação, de forma a evitar o último ataque de um assassino – que, pasme-se, já está morto! Só Jamie, naquela altura, pode falar com ele.
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O fantasma de Canterville
É uma leitura recomendada para o nono ano de escolaridade, o que nos mostra que nunca é demasiado cedo para vermos o que os túmulos têm a dizer. Foi a primeira história de Oscar Wilde, e já aí o autor mostrava a falta de limites que tinha a sua pena. Abrimos o livro e estamos num castelo assombrado, comprado por uma família rica americana. A família não acredita no sobrenatural, e é o desgraçado do fantasma residente que tem de ser criativo para conseguir cumprir o seu papel e assustar aquela gente. Há uma mistura entre terror e comédia, e o leitor ainda fica meio perdido perante aquela família: a princípio, também pode não acreditar no sobrenatural, mas o livro obriga-o a ver os malabarismos do fantasma.
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