Livros de fantasia para o último capítulo do ano
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@confissoesdumlivreiro
12 de dezembro de 2025
Dezembro não é princípio nem fim. É o mês em que revemos o que ficou para trás e começamos a projetar no ano que se aproxima os desejos e anseios do que está por vir. É um tempo suspenso em que o real abranda e a imaginação encontra mais espaço para respirar. Talvez por isso a fantasia combine tão bem com esta altura, ao oferecer universos paralelos que dialogam com o nosso. Ler fantasia em dezembro não é uma fuga, é um convite para visitar outros mundos e regressar à nossa realidade com uma perspetiva diferente. E não faltam livros capazes de fazer essa travessia connosco.
A Casa no Mar Cerúleo, de TJ Klune
Começo por A Casa no Mar Cerúleo, de TJ Klune, que é o equivalente literário a entrar numa sala acolhedora depois de apanhar chuva o dia inteiro. A história acompanha Linus Baker, um funcionário exemplar, enferrujado pela burocracia e responsável por supervisionar crianças com poderes mágicos, que é enviado a um orfanato para vigiar seis jovens considerados uma potencial ameaça para a sociedade, incluindo um que se apresenta como filho de Satanás. Contra todas as expectativas, o que encontra naquela casa desmonta, com suavidade, a rigidez do seu mundo. Naquela pequena comunidade liderada por Arthur Parnassus, Linus descobre uma família improvável, construída com afeto, humor e uma coragem que resiste ao preconceito. Cada personagem mostra que ser diferente pode ser uma força e que até o extraordinário é frágil e precisa de proteção. Se querem um livro de fantasia reconfortante, onde a magia existe para revelar que os verdadeiros poderes são a gentileza e a empatia, não o procurem nos próximos parágrafos deste texto. Leiam A Casa no Mar Cerúleo.
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Piranesi, de Susanna Clarke
Se preferem algo mais enigmático, Piranesi, de Susanna Clarke, oferece um dos mundos paralelos mais singulares da fantasia contemporânea. O protagonista vive numa casa infinita, composta por salas que se sucedem sem lógica aparente, estátuas monumentais e marés que irrompem em lugares onde não deveriam existir. No princípio, a solidão de Piranesi parece pacífica, quase ritualística. A sua rotina assenta em cadernos onde regista com minúcia medições e notas que tentam impor ordem a um espaço que resiste a ser decifrado. Mas, com o passar do tempo, esse espaço começa a revelar fissuras que mostram que aquela casa guarda mais do que beleza ou estranheza, tem segredos. Clarke constrói este universo com uma luz própria, delicada e inquietante ao mesmo tempo. Cada detalhe funciona como pista, cada sala abre uma possibilidade nova e o efeito acumulado é o de um mistério que se aproxima devagar, sem pressas. Esta história pede atenção ao leitor e recompensa-o com uma sensação rara, a de ter caminhado por um lugar que não se parece com nenhum outro e que, ainda assim, deixa marcas nítidas quando regressamos ao mundo real.
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O Caminho dos Reis, de Brandon Sanderson
Para quem quer terminar o ano com uma aventura épica, O Caminho dos Reis, de Brandon Sanderson, é uma escolha segura que, pelo tamanho e pela densidade, tem boas hipóteses de só terminar em 2026. Primeiro volume da saga O Arquivo das Tempestades, impõe-se desde o início com a criação de um universo vasto e coerente, feito de geografias inventadas, ordens lendárias de cavaleiros, sistemas de magia intricados e guerras antigas. As criaturas que o habitam têm escala própria e as personagens carregam conflitos internos que as tornam surpreendentemente próximas, apesar do cenário tão grandioso. Tudo cresce, tudo se desdobra, tudo parece anunciar uma ambição maior. É fantasia em estado puro, da que envolve o leitor por completo e exige entrega. Dezembro presta-se a leituras assim, prolongadas, que pedem tempo, ritmo e disponibilidade para atravessar a porta de um outro mundo.
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Deuses Americanos, de Neil Gaiman
Deuses Americanos, de Neil Gaiman, mostra o que acontece quando o fora do comum se infiltra no quotidiano. Neste relato de estrada, Sombra, um homem acabado de sair da prisão, aceita trabalhar para o misterioso Sr. Quarta-Feira e descobre que a América é habitada por deuses antigos e por divindades nascidas da tecnologia, do consumo e da necessidade constante de atenção. A viagem destes dois homens, que no início parecia sem direção, assume um objetivo muito concreto: Quarta-Feira quer reunir o maior número possível de deuses antigos, garantir alianças e prepará-los para um confronto que se aproxima. Motéis de beira de estrada, cidades quase esquecidas e bares anónimos tornam-se paragens dessa missão. Os diálogos são subtis e muitas situações só revelam o seu verdadeiro peso quando o leitor junta as peças. Neste livro, Gaiman interroga o que veneramos, o que relegamos ao esquecimento e a forma como essas escolhas moldam a vida coletiva. Lembra-nos que cada sociedade se organiza em torno das histórias que decide manter vivas.
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Todos os contos, de Edgar Allan Poe
Ler livros de grande fôlego pode tornar-se cansativo se não tivermos um bom limpa-palato, ou seja, um conjunto de narrativas breves que encaixem na perfeição entre romances longos sem perder intensidade nem quebrar o tom que procuramos. Para esses casos, é difícil falhar com Todos os Contos, de Edgar Allan Poe. Cada história parte de uma situação simples que se desenvolve até um desfecho que surpreende por dar nova forma ao que tomávamos por certo. Contos como Os Crimes da Rua Morgue, que introduz o gosto pelo enigma, O Escaravelho de Ouro, que gira em torno de um mistério engenhoso, e A Queda da Casa de Usher, que retrata uma casa inseparável da condição dos seus habitantes, mostram como um único gesto ou uma perceção deslocada podem alterar por completo a trajetória de um enredo. Nada sobra e nada se arrasta, está tudo na medida certa. Em cada um destes textos, encontram-se as bases de muito do que a fantasia continua a explorar. Poe não escreveu apenas contos sombrios, deixou as fundações de um imaginário que o género ainda reconhece como seu.
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