Neil Gaiman dos livros fantásticos às BD e aos filmes

Por Vera Dantas
24 de agosto de 2022
Neil Gaiman tem sido um dos principais escritores de novelas gráficas e banda desenhada, contos e romances para leitores de todas as idades. É reconhecido como um dos dez melhores escritores pós-modernos vivos e é um prolífico criador de obras de prosa, poesia, cinema, BD, letras de músicas e até teatro. Se o nome lhe é familiar, é normal. Se acha que não o conhece, surpreenda-se ao descobrir que, muito provavelmente, as histórias e personagens deste escritor já fazem parte do seu imaginário. The Sandman, uma das suas sagas mais marcantes, estreou-se como série da Netflix este mês. E não é a única adaptação de uma obra de Gaiman aos ecrãs. Mas tudo começou nos livros. Agarre-se aos que lhe sugerimos e entre já no mundo fantástico de Neil Gaiman.

 
Bons Augúrios
Para escrever Bons Augúrios, originalmente publicada em 1990, Neil Gaiman, uniu o seu talento ao do amigo escritor Terry Pratchett, considerado o precursor da literatura do «fantástico». Ambos mestre e ambos bestsellers neste género, Gaiman, e Pratchett muniram-se de todo o seu humor para criar esta obra sobre o julgamento final da humanidade, em modo trágico-cómico. Trata-se de «uma narrativa de determinados eventos que ocorrem nos últimos anos da história humana, em total acordo com As Subtis e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa, de 1655.
O Armagedão está no ar e o mundo acabará «próximo sábado». Os exércitos do Bem e do Mal estão a preparar-se, os Quatro Cavaleiros do Apocalipse estão a fazer-se à estrada, e os dois últimos caçadores de bruxas do mundo estão a preparar-se para combater à séria, armados com instruções estranhamente antiquadas. A Atlântida está a subir, os ânimos fervem e, no fundo, tudo parece estar a correr de acordo com o Plano Divino. Mas um anjo um pouco agitado e um demónio que viveram muitos milénios entre os mortais da Terra e se afeiçoaram ao seu estilo de vida, não estão agradados pelo que se avizinha. Para impedir o apocalipse, têm de encontrar e matar o Anticristo (o que é uma pena, pois ele é um rapaz muito simpático), mas alguém parece tê-lo colocado no lugar errado.
Antes de Terry Pratchett morrer, Gaiman, prometeu-lhe que tornaria realidade a ideia de fazer uma versão em filme desta obra a quatro mãos. E cumpriu a promessa. A série estreou-se na Amazon em 2019 e, como o livro, é um triunfo criativo de divertimento.
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Sandman - Mestre dos Sonhos N.º 2 – Casa de Bonecas
Entre 1988 e 1996, em 75 volumes mensais, Neil Gaiman, elaborou um conto intrincado, engraçado e profundo sobre… contos! No imaginário do folclore europeu, Sandman é a personagem mítica que adormece as crianças e lhes inspira sonhos bons. Uma curiosidade? Todos os títulos das histórias de Gaiman, são versões de contos clássicos. Esta é uma história sobre por que existem histórias, em que a figura central, Morfeu – o Sandman, Mestre dos Sonhos – não é um deus, mas a causa de todos os deuses. Esquelético, pálido, vestido de negro, Sonho é uma projeção antropomórfica da nossa sede de mitologia e da nossa capacidade de imaginar significados. Depois de criar o protagonista, o escritor criou toda a família dele, os Eternos: são sete gémeos, cada um correspondente a diferentes estados da consciência humana.
Em Sandman - Mestre dos Sonhos N.º 2 – Casa de Bonecas, conhecemos o primeiro amor de Orfeu, que este condenou ao inferno para a eternidade, e Desejo e Desespero, outros dois elementos dos Eternos. Mas agora tudo gira à volta de Rose Walker, uma personagem que foi viver para a Casa das Bonecas, com habitantes como… sim, Barbie e Kent! Só por existir, Rose é uma ameça para o equilíbrio entre o Domínio do Sonho e o Mundo Desperto, em que vivemos. É assim que Gaiman, dá continuidade ao primeiro volume, em que Morfeu, aprisionado, procurava a liberdade e respostas sobre o poder e a realidade.
Esta fenomenal saga em BD, originalmente criada por Gaiman para a DC, tem 11 volumes editados em Portugal e a sua adaptação para série televisiva acaba de estrear na Netflix. Está a ser um êxito de audiências até porque, além do enredo, contou com a produção executiva do próprio Gaiman.
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Deuses Americanos – Sombras
Acabado de ser libertado da prisão, Shadow encontra o seu mundo virado do avesso ao descobrir que a sua mulher morre, nesse mesmo dia, num acidente. Um estranho misterioso, Mr. Wednesday, oferece-lhe emprego. Mas este sabe mais sobre Shadow do que parece possível, avisa-o de que uma tempestade se aproxima, uma batalha pela própria alma da América… e eles estão em rota de colisão com ela. A premissa de Deuses Americanos – Sombras é que os deuses são reais. Todos eles. Eles são alimentados pela crença humana e, quando as pessoas deixam de acreditar neles, desvanecem-se.
Na carta que Gaiman enviou ao seu editor em 1998 sobre o livro que planeava escrever, descreveu-o como sendo sobre «uma América com estranhas profundezas míticas, que pode magoar ou matar», uma história «não [totalmente] de terror nem apenas de fantasia, um livro de perigos e segredos, de romance e magia». Esperava que Os Deuses Americanos viesse a ser um grande livro, «uma espécie de épico picaresco esquisito, que começa relativamente pequeno e se torna maior». O resultado é um romance que é uma obra-prima contemporânea. Nesta edição, é adaptado pela primeira vez como novela gráfica por P. Craig Russel e Scott Hampton, compilando os primeiros nove números da série original de BD, enriquecidos com arte adicional.
Também esta obra de Gaiman foi adaptada aos ecrãs, com a participação direta do autor, em 2017, num sucesso televisivo da Starz. Fiel ao espírito do livro, a série não é apenas sobre a jornada de Shadow e Wednesday através da América, mostra também a origem e a viagem dos velhos deuses para o novo continente. Gaiman criou mesmo uma personagem completamente nova para a série: Vulcan. Deus do fogo na mitologia romana, adaptado aos tempos modernos, tem uma vida confortável graças à obsessão dos americanos por armas.
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Coraline e a Porta Secreta – Tem cuidado com o que desejas
Um dia Coraline decide atravessar a porta de sua casa que está sempre fechada e, para sua surpresa, encontra outra casa estranhamente parecida com a sua, mas melhor. À primeira vista, tudo parece maravilhoso. Mas há lá outra mãe e outro pai, e eles querem que ela fique com eles e torne na sua menina. Eles querem mudá-la, para nunca a mais deixarem partir. Coraline terá que lutar com toda a sua inteligência e coragem para se salvar daquela estranha dimensão, povoada por estranhas coisas e seres, e voltar para a sua vida normal.
Quando Gaiman escreveu Coraline e a Porta Secreta – Tem Cuidado com o que Desejas, em 2002, o horror gótico estava fora de moda e a obra foi inicialmente considerada demasiado assustadora para o público infantil. Mas isso não impediu que a obra tivesse conquistado cada vez mais leitores e conquistado o prémio britânico de ficção científica, o Hugo, entre outras importantes distinções. No mesmo género Gaiman criou outras obras globalmente aclamadas: Odd e os Gigantes de Gelo e Os Lobos nas Paredes – transformado numa ópera pelo Teatro Nacional da Escócia. Quanto a Coraline, é quase certo que já conheça o famoso filme de animação em stop-motion escrito e realizado por Henry Selick. O filme, como o livro, pode ser algo arrepiante mas, talvez por isso mesmo, é também irresistível.
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Como Falar com Raparigas em Festas
Esta história começa algures nos subúrbios de Londres, em 1977, quando o punk está no auge. Vic e Enn estão à procura de uma festa. Ainda não têm 16 anos, frequentam a mesma escola de rapazes, e são um par de amigos improvável. Vic é um rapaz atraente e seguro, do tipo que fica sempre com a rapariga. Enn, por outro lado, é o tipo calado, tímido e introvertido que odeia festas. Quando chegam, encontram um estranho grupo de foliões e raparigas vestidas de látex, incluindo Stella e Zan, com quem ficam a conversar. Até ao momento em que descobrem que aquelas raparigas são mais estranhas do que o normal, talvez até de outro planeta, e tudo se precipita numa narrativa excitante e imprevisível.
Esta edição é a adaptação para novela gráfica do conto de ficção científica Como Falar com Raparigas em Festas de Neil Gaiman, de 2006. Com as suas ilustrações vibrantes, os gémeos ilustradores Gabriel Bá e Fábio Moonderam um novo mundo à narrativa original.
Para a versão com movimento, veja a série televisa realizada pelo John Cameron Mitchell, que explora de forma cativante e divertida esta história à volta do nascimento do punk, da exuberância do primeiro amor e da juventude.
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