Entrevista a Luísa Sobral

Vera Dantas
9 de julho de 2025
Luísa Sobral é uma das mais destacadas cantoras e compositoras da nova geração da música portuguesa, tendo levado o seu romantismo aos ouvidos e bocas do mundo com Amar pelos Dois, a canção vencedora do Festival Eurovisão da Canção de 2017. Certo dia, sentiu que uma história que a tocou especialmente, a de Maria Feliz, não cabia na canção que lhe dedicou. Precisava de mais espaço, mais tempo. E assim nasceu Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, o primeiro romance de Luísa Sobral.
Partindo de um caso real e trágico para a ficção, a história alterna entre duas protagonistas, Emmi e M., cujas vidas se entrelaçam nos 50 anos mais dolorosos da história recente da Alemanha. Emmi, nascida nas vésperas da ascensão de Hitler ao poder, perde o pai na guerra e tem uma adolescência difícil, até se apaixonar por Markus, um homem de Berlim Leste. Em pleno auge da Guerra Fria, decide ir viver com ele para a RDA. Mas quando o Muro de Berlim é erguido, a dor da separação da família deixa-a num abismo sem fundo. M., nascida após a divisão do país, adora o pai, mas sofre com o alheamento da sua mãe. Acreditava viver num mundo socialista perfeito, até as suas convicções se estilhaçarem, lançando-a num caminho com destino ao outro lado do Muro.
Mergulhamos, com Luísa Sobral, na sua estreia literária.*
Luísa Sobral, foto ©Jenna Thiam
Luísa Sobral – Foto ©Jenna Thiam
Contas que a história de Maria Feliz não cabia na canção que compuseste. Já tinhas sentido isso antes?
Eu nunca tinha sentido isso com outras histórias. Quando tenho a ideia de uma história e escrevo uma canção, a história fica resolvida naquela canção, até porque esta, para além da letra, tem a harmonia e a melodia que muitas vezes dizem coisas sem palavras. Acho que o que me fez ficar com esta história não foi a história em si, mas a pessoa. Vi várias imagens desta Maria Feliz e havia alguma coisa no olhar dela que me fez querer ir mais fundo, perceber de onde ela veio.

Foi o final trágico daquele casal da vida real, apaixonado, que despertou a tua veia criativa?
O que me inspirou foi o amor entre eles. Gosto muito de situações que têm alguma ironia, e este casal apaixonado ter decidido tirar a vida ao mesmo tempo – sendo que eram conhecidos como “Os Felizes” –, foi algo forte que mexeu comigo. Também encontro alguma beleza no suicídio em casal, ou seja, na ideia de uma pessoa sentir que se este mundo não dá para um, não dá para o outro. Foi esse o meu ponto de partida.
 
«Os poemas dão um prelúdio do que vai acontecer, e sinto que talvez sejam a versão canção do capítulo que vem a seguir».
Foste “limpando” os poemas que tinhas escrito inicialmente para o livro até restarem as frases poéticas que intercalam os capítulos. Foi um processo semelhante ao da escrita das letras das tuas canções?
Quando termino um disco, ou quando terminei este livro, durante o processo não estou a pensar no significado das coisas, elas simplesmente estão a acontecer porque eu as sinto. Quando começo a dar entrevistas sobre a obra, começo a questionar-me, porque aí já a estou a ver de fora, já não estou envolvida no processo. Agora, apercebo-me de que talvez esses excertos sejam a parte do livro que faz a ligação entre a cantautora e a escritora; dão um prelúdio do que vai acontecer, e sinto que talvez sejam a versão canção do capítulo que vem a seguir.

Optaste por não revelar o nome de M como forma de manter a curiosidade até ao final?
Mais ou menos. O facto de não sabermos o nome dela foi intencional porque, como ninguém sabia o nome da Maria Feliz antes de ela ter adotado esse nome, eu achei interessante [o leitor] não saber.

Por que decidiste contar a história sob o ponto de vista das diferentes personagens, na primeira pessoa?
Escrevi cada personagem separada da outra: primeiro, a Maria Feliz; depois, a Emmi; depois, o Micha. De seguida, imprimi os capítulos todos. Tinha tudo no chão, ia com o maço de folhas para todo o lado e andava a tentar jogar com aquilo, a tentar perceber o que ia causar ao leitor, conforme mudasse as coisas. Essa parte já foi quase um processo de escrita também em si mesmo, o que foi muito engraçado.
A escolha das cartas como recurso literário foi uma forma de revelares como as personagens se veem em relação aos outros?
Gosto de livros com cartas, e achei que seria muito interessante conhecermos uma personagem através de cartas, porque a carta não nos mostra tudo. Se eu fosse só um narrador que diz o que está a acontecer àquele homem, seria mais verdadeiro enquanto narrador. Uma carta, não, porque estamos a enviar uma mensagem a alguém. Sabemos o que estamos a escrever, podemos voltar atrás, apagar ou rasgar. É uma coisa muito mais controlada, e eu acho isso interessante nas cartas.

Como é que as tuas viagens enquanto artista influenciaram a tua sensibilidade e compreensão da Alemanha do século XX, incluindo as diferentes e, por vezes, distorcidas visões de cada lado do muro, e os impactos duradouros desse passado?
Já toquei algumas vezes na Alemanha de Leste e já estive noutros países da esfera soviética, e talvez por causa disso consiga sentir um pouco o que era estar ali. É algo muito recente, então ainda há muita coisa daquela época, muitas marcas, sobretudo na arquitetura. Depois de ter acabado de escrever o livro, voltei a Leipzig só para fechar o assunto.
 
«Para quem viveu sempre com liberdade, é muito mais difícil imaginar uma vida sem ela, e é aqui que entra o poder da literatura.»
Quando M. chega a Berlim Ocidental, livre, sente-se como se começasse a ouvir o mundo no seu real volume. A literatura tem o poder de combater o esquecimento da História?
Eu acho que a literatura nos ajuda, mais que tudo, a não esquecermos períodos em que vivemos sem liberdade. No ano passado li A Desobediente, a biografia da Maria Teresa Horta pela Patrícia Reis, e também Revolução, do Hugo Gonçalves. Para pessoas como eu, que não viveram o 25 de Abril, são livros muito importantes para termos a noção do que já se viveu aqui e da liberdade que não se tinha. Não escrevi este livro com essa intenção de ser bandeira, escrevo porque me apetece escrever. No entanto, acho que é muito importante lermos todos os livros que falam sobre períodos de ditadura e de falta de liberdade, para não cairmos nos mesmos erros, porque tendemos a esquecer-nos, muito rapidamente, do que o ser humano é capaz.

No livro escreves que «para quem nunca foi livre é difícil sentir-se livre». Qual é a mensagem que esperas que os leitores absorvam no final da leitura?
Lembro-me que, durante a pandemia, diziam na televisão para ficarmos em casa. As pessoas da geração dos meus pais, que viveram o 25 de Abril, saíam e diziam: «Não vou sair, vou só dar um passeio». E aquilo fazia-me muita confusão, mas depois pensei: «Espera aí, estas pessoas viveram sem liberdade!» e alguém vir e dizer que têm de ficar em casa, toca-lhes num sítio que nós não sentimos, que é tirar-nos a nossa liberdade.
Isso é muito sensível para as pessoas que viveram sem ela, e é por isso que eu escrevi essa frase no livro. Mesmo para aqueles que viveram sem liberdade, a transição para a liberdade é uma coisa que demora um tempo a assentar, porque uma pessoa que vive privado dela quase não tem noção de que há outra forma de viver. Pessoas que são muitas vezes vítimas de violência doméstica ou de situações extremas, acham que aquilo é a normalidade, o que é assustador. Ganhar liberdade é um processo que demora um tempo, porque é nas pequenas grandes coisas que ela se encontra. Para quem viveu sempre com liberdade, é muito mais difícil imaginar uma vida sem ela, e é aqui que entra o poder da literatura.

*Esta entrevista foi originalmente publicada na revista Wookacontede de maio de 2025.

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