Está preparado para ouvir o que as árvores têm para lhe dizer?
Partilhar:
27 de março de 2025
António Bagão Félix conta que começou a ser um amador botânico na juventude, altura em que ficou cativado pelo deslumbrante reino vegetal. Lembra-nos que «o tempo das árvores não é o nosso tempo», sem «a erosão do presentismo, a obsessão do atualismo e a amnésia do passado». Doze anos passados da primeira edição, a Porto Editora lança uma edição revista e aumentada do lviro que o autor escrevera, e que agora ganha o título Quarenta Árvores em Discurso Directo. Bagão Félix foi ao encontro das que mais o seduzem, e ainda assim, confessa, sente a dor de ter tido de renunciar a muitas mais. Todas elas são árvores que podemos encontrar no panorama urbano.
O que torna este livro tão especial é que as árvores falam na primeira pessoa, apresentando-se, contando histórias que viveram, lugares a que pertencem ou pertenceram, como se de um diário ou livro de memórias se tratasse. Subtilmente, mas com rigor científico, falam ainda das suas especificidades biológicas, entre pormenores da espécie e diferenças entre as suas variedades. Capa árvores começa por mostrar-se com uma fotografia, e fecha o seu capítulo com uma ilustração botânica belíssima, em que podemos ver as suas sementes, folhas e frutos, em traços subtis e delicados e cores que vão do suave ao vivaz, próprias de cada uma.
De tantas árvores que pode conhecer neste livro, escolhemos contar-lhe algumas coisas sobre uma em especial, a que talvez não prestemos a atenção devida. Sabemos que vai surpreender-se:
O que torna este livro tão especial é que as árvores falam na primeira pessoa, apresentando-se, contando histórias que viveram, lugares a que pertencem ou pertenceram, como se de um diário ou livro de memórias se tratasse. Subtilmente, mas com rigor científico, falam ainda das suas especificidades biológicas, entre pormenores da espécie e diferenças entre as suas variedades. Capa árvores começa por mostrar-se com uma fotografia, e fecha o seu capítulo com uma ilustração botânica belíssima, em que podemos ver as suas sementes, folhas e frutos, em traços subtis e delicados e cores que vão do suave ao vivaz, próprias de cada uma.
De tantas árvores que pode conhecer neste livro, escolhemos contar-lhe algumas coisas sobre uma em especial, a que talvez não prestemos a atenção devida. Sabemos que vai surpreender-se:
«Sem falsa modéstia, é em mim que melhor se harmonizam as dimensões do espaço e do tempo. A própria forma de me apresentar induz uma medida do tempo da minha vida. Atinjo, serena e silenciosamente, alturas considerãveis de 30 a 35 metros. Não me ponho em bicos dos pés, proque não preciso. Sou calmo e compassivo e este estado de espírito começa logo na fonte da vida que são as minhas raízes. (…) Dada a minha configuração, cedo a função de sombra a outras árvores de hábito largo e frondoso. Com um certo atrevimento, há quem me observe como que exibindo uma pose fálica. Não creio, sinceramente. (…) quando me mutilam o tronco, jamais volto a crescer.(…)
Posso viver um milhar de anos, exibindo a mesma frscura como árvore aposentada, que aquela que ostento como jovem espécie.(…).
Vim do Meditettâneo Oriental, onde sempre medei bem. Muito rapidamente me espalhei por todo aquele mar entre as terras, desde Portugal ao Próximo Oriente. (…) desde tempos remotos, são reconhecidos os meus dons medicinais para tratamento de afcções dos vasos sanguíneos e até para debelar a tosse convulsa (…).
Da Antiguidade, transportei para os tempos modernos (…) o estatuto de árvore clássica e a presença habitual em jardins bem recortados e em solares senhoriais e nobres. (…) Na Toscânia italiana (..), alio-me exuberantemente à beleza poética.(…)
Sei quanto é apreciada a minha madeira – de tons cinzentos-amarelados – que, embora não sendo resinosa, é muito aromática. (…)
Embora tenha sido preiteado por artistas renascentistas, devo sobretudo a (…) Vincent Van Gogh a minha imortalização através da pintura.
António Bagão Félix E termino de uma forma cativante pela pena de Miguel Torga que, em Julho de 1944 (Diário III), escreveu assim:
Grito
Vem, poesia, vem como vieste
No virginal começo doutras eras!
Vem amansar as feras.
Alegar o cipreste,
E cobrir de ridentes primaveras
Este cimento que ninguém reveste!»
Quarenta Árvores em Discurso Directo, Porto Editora, fevereiro de 2025, págs. 111 a 116
Posso viver um milhar de anos, exibindo a mesma frscura como árvore aposentada, que aquela que ostento como jovem espécie.(…).
Vim do Meditettâneo Oriental, onde sempre medei bem. Muito rapidamente me espalhei por todo aquele mar entre as terras, desde Portugal ao Próximo Oriente. (…) desde tempos remotos, são reconhecidos os meus dons medicinais para tratamento de afcções dos vasos sanguíneos e até para debelar a tosse convulsa (…).
Da Antiguidade, transportei para os tempos modernos (…) o estatuto de árvore clássica e a presença habitual em jardins bem recortados e em solares senhoriais e nobres. (…) Na Toscânia italiana (..), alio-me exuberantemente à beleza poética.(…)
Sei quanto é apreciada a minha madeira – de tons cinzentos-amarelados – que, embora não sendo resinosa, é muito aromática. (…)
Embora tenha sido preiteado por artistas renascentistas, devo sobretudo a (…) Vincent Van Gogh a minha imortalização através da pintura.
António Bagão Félix E termino de uma forma cativante pela pena de Miguel Torga que, em Julho de 1944 (Diário III), escreveu assim:
Grito
Vem, poesia, vem como vieste
No virginal começo doutras eras!
Vem amansar as feras.
Alegar o cipreste,
E cobrir de ridentes primaveras
Este cimento que ninguém reveste!»
Quarenta Árvores em Discurso Directo, Porto Editora, fevereiro de 2025, págs. 111 a 116