A primavera é um lugar sem dono – I: Mrs. Dalloway

Madalena Sá Fernandes
31 de março de 2025
Os livros que escolho nesta altura procuram relacionar-se com a primavera: com o gesto da abertura, o começo, o regresso da luz. E nem sempre a primavera é doce: há nela um sobressalto, uma urgência, uma inquietação que combina bem com certas leituras. Aqui fica o primeiro de quatro livros (os restantes ficam para a segunda parte deste artigo) que atravessam, cada um à sua maneira, esta estação de luz e sombra. São obras que evocam o florescimento, o desejo, o devir, e também a solidão, o tempo e o abismo que se esconde nos gestos mais leves.

Clarissa Dalloway sai para comprar flores. É junho, em Londres, e tudo pulsa com a vitalidade de um dia aparentemente comum. Ao longo de 24 horas, acompanhamos os pensamentos de Clarissa, de Septimus (um veterano traumatizado pela guerra) e de outras figuras que cruzam a cidade e o tempo. A primavera aqui é também interior: está na forma como Clarissa observa o mundo, no modo como o passado se entrelaça com o presente, e no desejo, por vezes doloroso, de se sentir viva. Woolf transforma um dia banal num poema contínuo, onde as sensações, memórias e gestos mais pequenos ganham uma densidade quase cósmica. Clarissa encarna a sensibilidade primaveril: observa as flores, a luz, a cidade, mas também se confronta com a sombra e a finitude. Septimus, por sua vez, representa o trauma, a vertigem do pós-guerra, e a falência da linguagem como forma de se resgatar. Ambos vivem sob o signo da intensificação sensorial, da fragilidade psíquica e daquilo que escapa à superfície do quotidiano.
Mrs. Dalloway é uma das obras mais centrais da literatura modernista do século XX, não apenas pelo seu conteúdo temático, mas sobretudo pelas transformações que propõe no plano da forma narrativa. Esta desenrola-se ao longo de um único dia, 13 de junho de 1923, e acompanha a protagonista Clarissa Dalloway e outras personagens cujas vidas se cruzam, ainda que brevemente, no espaço urbano de Londres. O romance é simultaneamente íntimo e político. Através da alternância entre Clarissa e Septimus, Woolf articula os efeitos da guerra, da classe, da repressão emocional e da passagem do tempo.A Primavera aparece aqui como um pano de fundo simbólico: um tempo de luz e flores, que contrasta com os temas da morte, da memória e da alienação. A estrutura do romance, não-linear, rítmica, quase musical, reflete essa sensibilidade: o tempo interior sobrepõe-se ao tempo cronológico.
A verdadeira matéria do romance é a vida interior: os pensamentos, memórias, perceções e fragmentos de subjetividade que atravessam não apenas Clarissa, mas múltiplas personagens que habitam ou circulam por Londres naquele dia.
A complexidade de Mrs. Dalloway reside na forma como a experiência individual é mediada por recursos como o fluxo de consciência, o discurso indireto livre e o monólogo interior: técnicas que dissolvem as fronteiras entre narrador e personagem, permitindo uma multiplicação dos pontos de vista e uma fluidez psíquica que raramente se detém em descrições lineares. A fragmentação não é ruído: é estrutura. Em muitos momentos, o fragmento de pensamento de uma personagem parece prolongar-se no de outra, criando uma espécie de ponte simbólica entre consciências que, no plano da diegese, não chegam a encontrar-se.
Este encadeamento entre vozes sustenta-se ainda na articulação de diferentes regimes temporais: o tempo histórico (o pós-guerra, a reconstrução nacional, o trauma coletivo), o tempo monumental (ligado às figuras da autoridade e à arquitetura do poder, como o Palácio de Buckingham), o tempo cronológico (marcado de forma insistente pelo badalar dos relógios londrinos) e, sobretudo, o tempo subjetivo — irregular, ondulante, íntimo — que habita cada personagem e se manifesta no modo como cada uma reage ao mundo. A cidade, neste romance, não é apenas cenário: é agente de perturbação sensorial e afetiva. Clarissa caminha por Londres como quem mergulha na corrente de um rio psíquico. Cada ruído, cada rosto, cada flor que vê desperta nela lembranças, perguntas e contradições. A cidade é, ao mesmo tempo, um espaço de modernidade e de desamparo.

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