A vida dos ricalhaços

Por Ana Bárbara Pedrosa
29 de abril de 2024
O 1% será parecido com os 99%? Provavelmente, não. Aliás, quase de certeza que não. Quer dizer, de certezinha absoluta que não. Mas não é porque se sabe o fim que não se vai ler a história.

O grande Gatsby
É um livro hipnotizante. Gatsby não nasceu rico, mas quem o vê confortável no meio do seu luxo acha que ter dinheiro e esbanjá-lo só pode ser um talento tido desde a infância, ainda que ninguém saiba mesmo de onde é que vem tanta massa. A ação passa-se durante a Primeira Guerra Mundial, e o dinheiro que passava pelas mãos de Gatsby, fluindo, voando, funciona como crítica ao grande sonho americano. Quem olha para ele, bem vestido, bem-falante, acha que tem tudo. Mas Gatsby tem também aquele ar de menino meio perdido na crise existencial, com uma fragilidade interna que o dinheiro não mata. É que, famoso por dar festas, só as dava porque tinha esperança de que o seu antigo amor lá fosse pôr os pés. É porque ainda ama Daisy que se dá àquele esforço, e de pouco interessará que ela esteja casada. Para ela, também deve interessar pouco, uma vez que o anel no dedo não a impede de corresponder àquele amor. Enfim, parece trágico, e é trágico, e o fim é mais trágico ainda. Há um atropelamento e um tiro e, pasme-se, um funeral ainda mais deprimente do que a morte. O romance, que pouco vendeu nos seus primeiros quinze anos de vida, acabou por popularizar-se por todo o mundo, sendo um bestseller à escala universal, considerado um dos grandes clássicos literários norte-americanos.
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Rainha Carlota
Os ricos têm problemas como nós. No caso destes ricos, têm problemas que não temos. Casar porque convém, com este tipo de conveniência, é coisa que só acontece a quem tem um estatuto que falta a quase toda a gente. Aqui, estamos em plena corte: corre o ano de 1761 e um homem e uma mulher encontram-se pela primeira vez. Horas depois, são casados. E nada de plebe a ter de contar os trocos. Em vez disso, são um rei e uma rainha, contam com jóias, casas, jardins, roupas que ai Jesus, um batalhão de criados. Quando Jorge encontra Carlota, ela está a fugir dele. Afinal, sabe lá o que dali vem, daquele casamento arranjado. Pode ser um ogre, pode ser uma fúria, pode ser qualquer coisa. Trocadas umas frases, encontra um homem dócil. Enfim, é um livro: lá se apaixona. Ao longo da leitura, vamos vendo um casal que tem segredos com muito peso em cima. Desvendados, não abalam só um casal ou uma família: abanam um regime e um país inteiro. Carlota, numa nova vida, tem de aprender a mexer-se naqueles meandros em que qualquer pequeno gesto tem demasiado peso. E, pelo meio, vai vendo o que é a vida de um monarca. Dica: ali ninguém tem de fazer contas à vida. Da parte dela, é irritante já não poder fazer nada sozinha. Não é porque se tem mais dinheiro do que o que se pode contar que passa a ser indigno barrar de manteiga o próprio pão.
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Os ricos
É a autora quem o diz: aqui olha os ricos por dentro e por fora. Ao crescer, alguns dos seus amigos tinham antepassados aristocratas, e a ideia de ostentação parecia coisa de novo-rico. No livro, Maria Filomena Mónica escreve sobre a origem das grandes fortunas nacionais, assim como sobre a mentalidade e os costumes desta classe social. Para além de estudo, houve a memória, que também não é coisa pouca, e o resultado inclui personagens como António Champalimaud, Américo Amorim e Belmiro de Azevedo. Ler o livro é, assim, ler sobre a História de Portugal.
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Mãe coragem
Este não podia faltar. Não há uma tradição de riqueza da família, por isso Dolores Aveiro – dona Dolores para os portugueses – jamais poderia figurar no livro anterior. Ainda assim, hoje, via filho, pode meter mais notas ao bolso do que todos nós juntos e a multiplicar por três. Estou, claro, a assumir que o Cristiano Ronaldo não está a ler este texto. Ora, já toda a gente sabe, CR7 arrasou nos estádios e deu uma vida confortável à mãe. Antes disso, a vida foi outra, e foi bem diferente: Dolores Aveiro cresceu no orfanato, criou a família a custo, lutou contra a pobreza. O dia-a-dia aqui descrito era o da luta para pôr o pão na mesa, do cansaço de quem fazia com que as contas dessem certas. A vida deu-lhe um mortal para a frente quando Cristiano começou a correr para o golo. Agora, já não precisa de fazer conta nenhuma, e ainda bem.
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