«Do tempo o fim escapa-me», um poema de Jacques Prevel

20 de fevereiro de 2025
Jacques Prevel publicou apenas três opúsculos de poesia, entre 1945 e 1950: Poemas Mortais (1945), Poemas para Toda a Memória (1947) e De Cólera e de Ódio (1950). Não tendo encontrado quem lhe editasse a obra, acabou por publicar ele mesmo as suas três coletâneas de poesia.
Próximo de Antonin Artaud, enviou-lhe os seus poemas enquanto este se encontrava no asilo de Rodez, e acolheu-o em Paris após a libertação do poeta em 1946. Essa relação marcou profundamente a sua obra, reunida agora pela Assírio & Alvim em Sou Certamente Um Monstro, que explora o conflito entre sonho e realidade, o desencanto com a sociedade e com os valores do século XX francês.


DO TEMPO O FIM ESCAPA-ME


Do tempo o fim escapa-me
O meu coração isolou-se
E estou sob a armadilha
Que carrego exilado

Não se encontra a rua
Onde estava esse passado
Acre volúpia bebida
Sabor nunca mais bisado

O quarto era insalubre
Os lençóis tinham servido
E eu bastante afligido
E infeliz-extasiado

Entre os meus braços, completamente nua…
E a chuva sem fim
Nas vidraças gota a gota
No dia incerto

Escutávamos as horas
Sem ouvir os passos
Do Tempo que vos aflora
No antegozo do falecimento

E mesmo a tristeza
Desse mal consumado
Aumentava a ternura
A carícia e o olvido


Jacques Prevel, Sou Certamente um Monstro, Assírio & Alvim, fevereiro de 2025, pp. 189-190

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