Dois Poemas de António Gancho

11 de agosto de 2022
O Ar da Manhã é o conjunto de poemas que António Gancho confiou ao amigo Herberto Helder para publicação em 1995, que agora é reeditado, quase três décadas depois.
António Gancho nasceu em Évora em 1940 e passou, desde cedo, sucessivas temporadas de internamentos em estabelecimentos psiquiátricos, tendo falecido em 2006. Escritor de uma linguagem inconfundível, fez parte da geração de surrealistas com Mário Cesariny ou Herberto Helder, que o nomeou uma das melhores vozes da poesia portuguesa. Além de poesia, escreveu ainda o romance As Dioptrias de Elisa (1990).
Deixamos-lhe aqui dois poemas que em que o autor traça uma ponte com o imaginário dos escritores britânicos.




HOW RIDICULOUS THEY ARE



Os intelectuais soen muy bem zurrar
na literatura na poesia no café
Ai how ridiculous they are
é verdade ou não, Lord Byron, é ou não é?
nas pastelarias nas igrejas no café
ai sobretudo no café
é verdade ou não é, lord byron, é verdade ou não é?
Ai how ridiculous they are
zurrar o sabem no da fror
tempo em que as burras muito hão-de ganhar
como é de D. Dinis (com modificação) o teor




ULISSES – OLISSIPO



Desenham-se no céu os números da solidão
por onde James Joyce conseguiu escrever o romance
Ulisses há-de sê-lo bem o meu coração
eu, a minha solidão, o meu transe


A chaminé na cidade deita o fumo da minha angústia
o meu desespero projecta a minha intoxicação
Ulissses, cidade de Dublin, eu, Lisboa, minha cidade
eu, Lisboa, a chaminé, o meu coração


O fumo sobe que sobe sobe que sobre e enche o ar
cidade de Dublin, Lisboa
também eu te vou a cantar.


Grande a nostalgia do teu néon luminoso
a sentir-se dentro de mim e a dizer-se que já não posso


Aqui a enorme cidade aqui a tentacular
o meu crime é de estudar o céu que me invade
e onde arranha o arranha-céu.



António Gancho, O Ar da Manhã

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