Tocar como quem escreve

24 de julho de 2025
Jorge Gomes Miranda nasceu em 1965, no Porto, onde continua a viver e a trabalhar. Foi crítico literário do jornal Público e é habitualmente escritor de recensões e ensaios críticos sobre literatura. Com uma obra prolífica, é considerado uma das referências da poesia portuguesa dos anos 90. Em março deste ano, lançou Ferida Secreta, um livro de poemas em que convoca a dança e a escultura como disciplinas para entender o mundo.

A PEDRA, O ROSTO

Não apresses o gesto de tocar
a pedra. Faz como se fosse um corpo:
primeiro aproxima o olhar
na iminência de ficar em chamas
ou num vagar que vai adivinhando
formas e cicatrizes;
depois cativa-o com as palavras
mais doces e incandescentes,
o que se diria a um poema amante,
deambulando pelos lugares
que vai criando à tua passagem.
A pedra é uma deusa que para nós
Caminha desde as alturas
e as profundezas do tempo.
Toca a pedra como se fosse
um corpo. O saber que fica
nas mãos irá impregnar
a manhã a casa e o livro.


ESPAÇO DE UMA COREOGRAFIA AMOROSA

Como escrever sobre o modo como tu danças,
sem o êxtase culpado da música
e a profundeza do foco de luz no escuro
do palco, criando ao teu redor um círculo
que acompanha os movimentos da tristeza
a ir embora.

Escrever como se não houvesse uma fractura
no céu a meio da juventude e
lugres aos quais tememos regressar
por trazerem à boca um travo de vodka e limão
antes da violência do primeiro beijo.

Danças e essa certeza cura
todas as indecisões entre os dezanove
e os vinte e dois anos,
os sonhos de te tornares de súbito
independente dos teus próprios medos
e irromperes como uma chama,
delicado caule na paisagem da noite.

Nos momentos em que o teu corpo
ensaia, procura um texto perfeito
da madrugada, leio-te.


Jorge Gomes Miranda, Ferida Secreta, Ed. Assírio & Alvim, março de 2025, pp. 34 e 100

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