Quando o escritor é um enigma

Zé Livreiro
@confissoesdumlivreiro
14 de agosto de 2025
Da reclusão de Emily Dickinson à vida dupla de Romain Gary, passando pelo mistério de Pynchon e pela descoberta da identidade de Carmen Mola, há escritores cujas vidas são tão intrigantes quanto os seus livros.
Uma Vida à Sua Frente, de Romain Gary
A vida de Romain Gary parece saída de um romance. Nasceu na atual Lituânia, outrora sob o domínio do Império Russo, mas foi criado em França. A partir daí, realizou filmes, pilotou aviões de guerra, foi diplomata e escreveu livros, tornando-se, na literatura, o único escritor a ganhar o Prémio Goncourt duas vezes. Pelas regras, um autor só pode receber o prémio uma vez, mas Gary, já laureado em 1956, sentia-se limitado pelo peso e expectativas do próprio nome e, na tentativa de voltar a escrever com liberdade, criou um pseudónimo, Émile Ajar, e escreveu Uma Vida à Sua Frente. O livro acabaria por vencer o Goncourt, em 1975. Para preservar a sua façanha, o escritor pediu a um primo afastado que assumisse publicamente a identidade de Ajar e só em 1980, após a sua morte, se descobriu que o autor de Uma Vida à Sua Frente e Romain Gary eram a mesma pessoa. O romance acompanha Momo, um jovem árabe criado por Madame Rosa, uma mulher judia sobrevivente do Holocausto que vive num bairro pobre de Paris. No meio de limitações e perigos, o romance revela como entre ambos se constrói uma cumplicidade feita de pequenas alegrias, suficiente para tornar a sobrevivência não apenas possível, mas suportável.
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Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon
Se pesquisarmos por “Thomas Pynchon” no Google e clicarmos em “imagens” aparecem duas ou três fotografias do escritor norte-americano, quando era jovem. Sabe-se que nasceu há quase 90 anos em Nova Iorque, serviu na Marinha, trabalhou para a Boeing e casou-se com a sua agente literária. Fora isso, o que temos de Pynchon são migalhas que ele vai deixando aqui e ali. Há um episódio de Os Simpsons em que aparece com um saco de papel a tapar-lhe a cabeça, e a voz do boneco é a sua. Diz-se que alguns anos mais tarde voltou a gravar a própria voz para narrar o trailer do seu romance Vício Intrínseco (o livro foi mais tarde adaptado para o grande ecrã, por Paul Thomas Anderson). Fora casos muito pontuais, vive desligado da vida mediática, evita entrevistas e aparições públicas. Este processo de “apagamento” coincidiu com o início da sua carreira literária e dura há mais de 60 anos. Há quem tente encontrar aspetos biográficos na sua obra, mas, dada a estrutura intrincada dos seus romances, a busca é pouco frutífera e tende a revelar mais enigmas do que respostas. O seu livro mais conhecido, Arco-Íris da Gravidade, é um épico pós-moderno que mistura guerra, ciência, sexo e paranoia numa narrativa fragmentada que desafia o leitor a acompanhar linhas temporais e perspetivas múltiplas. Ambientado na Europa do fim da Segunda Guerra Mundial, tornou-se um dos romances mais influentes e desafiantes do século XX, admirado por uns pelo estilo inovador e por outros pelo modo ousado como mistura géneros e temas.
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Duzentos Poemas, de Emily Dickinson
Enquanto Pynchon procura a reclusão para separar a sua vida da obra literária, Emily Dickinson escolheu o isolamento por ter uma preferência assumida pela vida interior, pela quietude e pelo contacto indireto com o mundo. Quase não saía de casa, raramente recebia visitas e comunicou com amigos e familiares durante anos apenas por correspondência. Nesse recolhimento escreveu quase 1.800 poemas, e só 10 foram publicados durante a sua vida. O isolamento de Dickinson não foi uma recusa do mundo, mas uma escolha deliberada. Do seu espaço limitado (no final da vida tinha dificuldades em sair do próprio quarto), observava com atenção o que a rodeava e transformou essas perceções numa poesia muito diferente da que se produzia no século XIX. Os seus versos curtos exploram com profundidade temas como a morte, a natureza e a imortalidade. Dona de uma voz íntima e subversiva, a poetisa continua, passados tantos anos, a ser um exemplo de inovação.
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A Besta, de Carmen Mola
A Besta é um policial com elementos de thriller passado na cidade de Madrid do século XIX. Uma epidemia de cólera atinge a cidade, mas a peste não é a única ameaça à população, sobretudo às mulheres, que vivem aterrorizadas com a presença da Besta, uma figura misteriosa que mata de forma brutal. É neste contexto que conhecemos Lucía, irmã de uma rapariga desaparecida, que se junta a um polícia e a um jornalista na busca pela verdade. O romance alia a qualidade da escrita à tensão narrativa e foi o grande vencedor do prémio Planeta, em 2021.
Mas havia um mistério ainda maior em torno de Carmen Mola, a suposta autora de A Besta. Pouco se sabia sobre ela: dizia-se que vivia em Madrid e que era professora universitária. Fora isso, a vida de Mola permanecia envolta em segredo, e a escritora chegou a ser apelidada de “Elena Ferrante espanhola”. Tudo mudou na noite da atribuição do prémio Planeta. Muitos duvidavam que Mola comparecesse à cerimónia, mas outros aguardavam ansiosamente a oportunidade de conhecer a mulher que escrevia sucesso atrás de sucesso. Anunciaram o vencedor do prémio e ela apareceu, ou melhor, eles apareceram. Antonio Mercero, Jorge Díaz e Agustín Martínez, três guionistas apaixonados por thrillers, subiram ao palco e revelaram ser os verdadeiros criadores de Carmen Mola. Estava desfeito o mistério que pairou durante anos no mercado editorial espanhol.
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Carpinteiros, Levantai Alto a Cumeeira e Seymour– Uma Introdução , de J. D. Salinger
A vida de Jerome David Salinger foi marcada por uma reclusão radical causada pela fama, que apanhou o escritor desprevenido. Nascido em 1919, em Nova Iorque, serviu na Segunda Guerra Mundial e, pouco depois, publicou À Espera no Centeio, que se tornaria um marco da literatura do século XX e o livro que definiu gerações. O sucesso foi avassalador e levou o escritor a fugir dos holofotes, isolando-se numa pequena propriedade no New Hampshire. Salinger nunca mais escreveu um romance e focou-se na escrita de contos e novelas, grande parte sobre a família Glass, cujos membros atravessam várias obras do autor. Em Carpinteiros, Levantai Alto a Cumeeira e Seymour – Uma Introdução, aprofunda a figura do irmão mais velho da família, Seymour, um homem dotado de uma sensibilidade e introspeção que, mesmo após a sua morte trágica, moldam a vida de quem o rodeia. Narrado pelo irmão Buddy, o retrato de Seymour oscila entre a admiração quase mística e a dor pela perda, revelando uma personagem que encarna tanto a pureza como a impossibilidade de viver num mundo imperfeito.
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