Mario Vargas Llosa: a literatura como missão

Vera Dantas
17 de abril de 2025
Mario Vargas Llosa (1936–2025) é um dos grandes nomes da literatura mundial, com uma obra vasta e diversificada que abrange os géneros do romance, ensaio, teatro, a par de uma brilhante carreira jornalística. É o único autor peruano distinguido com o Prémio Nobel da Literatura, que lhe foi atribuído em 2010. Morreu a 13 de abril de 2025, aos 89 anos. Dos livros autobiográficos aos romances históricos, passando pela ficção erótica e pelo thriller político, Llosa demonstrou sempre uma impressionante capacidade de reinventar-se, sem nunca abdicar do rigor narrativo e da profundidade psicológica das suas personagens. A sua escrita alia precisão e elegância, e a sua literatura é, em última instância, uma defesa apaixonada da liberdade individual e do poder transformador da ficção.
Nascido no Peru em 1936, Vargas Llosa desenvolveu um interesse pela poesia desde muito jovem, e, apesar da oposição do pai, que o inscreveu numa escola militar, seguiu os seus instintos literários e tornou-se escritor. Com 23 anos, abandonou o seu país, doutorou-se em Madrid e fixou-se em Paris. Viveu com dificuldades, trabalhando como locutor de rádio, jornalista e professor de espanhol. Regressa ao Peru em 1964 e casa-se, no ano seguinte, com a sua prima Patricia Llosa, com quem parte para a Europa em 1967. Vive 7 anos na Grécia, em Paris, Londres e Barcelona. Regressado a Lima, dedica-se inteiramente à literatura e ao jornalismo. Nunca abandona a intervenção política e, em 1990, candidata-se à Presidência da República do Peru, no prenúncio de uma era de liberdade que hoje parece esquecida. Nesse âmbito, em 2002, criou a Fundação Internacional para a Liberdade, que reuniu pensadores liberais para promover soluções práticas para os problemas da região. Nos últimos anos, viveu entre Paris e Madrid, escrevendo romances, ensaios literários, crónicas jornalísticas e percorrendo o mundo como professor visitante em várias universidades. Entre os muitos prémios que recebeu, dos quais se destaca o Nobel. contam-se o Rómulo Gallegos (1967), o Príncipe das Astúrias (1986) e o Cervantes (1994).
Nos seus romances, contos e peças, construiu de forma subtil, audaz e inovadora as suas tramas, com personagens inesquecíveis e com uma prosa precisa, rica e transparente. No ensaio, denunciou regimes totalitários e opressivos e a sociedade que se vai deteriorando pela superficialidade. Como escreveu esta semana o ensaísta e editor Enrique Krauze, no site Project Syndicate, «havia um soldado estoico na sua alma, sempre pronto a responder ao mal com imaginação, ironia, humor, inteligência e uma inesgotável combatividade moral.» Celebramos a sua vida, evocando cinco das suas obras mais marcantes.
Dedico-lhe o Meu Silêncio
O último romance de Mario Vargas Llosa marca um regresso ao tema da utopia, desta vez tendo a música crioula peruana como fio condutor para explorar a união e identidade cultural do país.. O protagonista, Toño Azpilcueta, especialista nesse género musical, redescobre a sua paixão pelas valsas, marineras, polcas e huaynitos ao conhecer Lalo Molfino, talentoso guitarrista já presente em Travessuras da Menina Má.
A história decorre no início dos anos 90, num Peru marcado pela violência do grupo terrorista Sendero Luminoso. A música assume um papel unificador numa sociedade dividida. Toño decide investigar a vida de Lalo, viajando pelo país, explorando as suas origens, relações e segredos, até conceber a ideia de escrever um livro que conte a história da música crioula como símbolo de identidade e resistência cultural.
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García Márquez - História de um Deicídio
História de um Deicídio é a tese de doutoramento de Mario Vargas Llosa, apresentada em Madrid, e constitui uma profunda análise da obra de Gabriel García Márquez, em particular do romance Cem Anos de Solidão. Mais do que um estudo crítico, é também uma vibrante declaração de amor à literatura e um testemunho da admiração do autor peruano pelo génio colombiano.
Neste ensaio ambicioso, Vargas Llosa mergulha nos caminhos da literatura latino-americana e nos processos criativos da escrita, revelando os “demónios” que alimentam o talento literário, experiências marcantes que ferem e inspiram a recriação da realidade através da ficção. Um estudo rigoroso, apaixonado e revelador sobre as origens e o desenvolvimento da prosa mágica de um dos maiores escritores do século XX.
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A Cidade e os Cães
Publicada em 1963, A Cidade e os Cães marcou a estreia literária de Llosa e lançou o autor como uma das vozes mais poderosas do chamado “Boom” da literatura hispano-americana. Inovadora, a narrativa usa múltiplos pontos de vista, fluxos de consciência e saltos temporais, com uma enorme profundidade psicológica.
Passado num colégio militar em Lima, o romance expõe com lucidez o ambiente opressivo, violento e hierárquico de uma sociedade marcada pela repressão, pelo machismo e pela corrupção institucional. A história gira em torno da morte misteriosa de Esclavo, um cadete durante um exercício, o que desencadeia uma espiral de mentiras, encobrimentos e confrontos morais. O rebelde Jaguar, e o sensível Poeta representam diferentes respostas à opressão do sistema. Além, de ter sido o início de uma carreira brilhante, este livro mantém-se relevante pela sua crítica feroz à repressão, pela empatia com os marginalizados e pela sua força literária.
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As Travessuras da Menina Má
Num tom mais leve do que os seus romances políticos ou históricos, Travessuras de uma Menina Má é uma obra surpreendentemente íntima na carreira de Mario Vargas Llosa; uma história de amor obsessivo e persistente que revela uma faceta mais emocional e romântica do autor peruano, combinando realidade e ficção, num admirável diálogo entre o cómico e o trágico.
A narrativa acompanha a vida de Ricardo Somocurcio, um tradutor peruano que sonha viver em Paris, o que acaba por conseguir. Mas a sua vida ganha verdadeira intensidade por causa de uma mulher misteriosa e camaleónica, a “menina má”, que reaparece ciclicamente sob diferentes nomes, rostos e identidades. Cada reencontro entre os dois é um jogo de sedução, poder e entrega, onde Ricardo se vê inevitavelmente subjugado ao fascínio inconstante e irresistível da mulher que ama.
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A Civilização do Espetáculo
Neste ensaio, encontramos uma análise implacável do mundo contemporâneo através do olhar inconformista de Mario Vargas Llosa. O autor denuncia a banalização da arte e da literatura, a ascensão do jornalismo sensacionalista e a superficialidade do discurso político – sintomas de um mal mais profundo: a perigosa elevação do entretenimento a valor supremo da sociedade atual.
Outrora, a cultura funcionava como consciência crítica, desafiando-nos a encarar a realidade. Hoje, encontra-se relegada ao estatuto de espetáculo efémero, moldada por modas, mercados e algoritmos, sendo um mero instrumento de distração. A figura do intelectual, tão central no século XX, praticamente desapareceu do espaço público. Mesmo quando alguns se envolvem em debates ou subscrevem manifestos, a sua influência tornou-se residual. Perante este cenário, diz Llosa, muitos escolheram o silêncio. E todos perdem.
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