Corpos que escrevem

Madalena Sá Fernandes
5 de agosto de 2025
Escrever sobre o corpo é entrar num território movediço. O corpo é linguagem antes da linguagem: dor, desejo, vergonha, memória, tudo isto pulsa como uma gramática anterior às palavras. A literatura que se escreve a partir do corpo, e, sobretudo, do corpo que foi violentado, atravessado, transformado, não é apenas uma literatura do testemunho. É literatura que resiste, que reinventa a forma, que desconstrói o olhar. O corpo torna-se texto e testemunho: veículo de denúncia, de desejo e de transformação. Aqui estão quatro livros que pensam o corpo como campo de batalha e reinvenção.
Cada um à sua maneira (entre o fantástico e o autobiográfico, entre o manifesto e o romance intimista) evidencia como a escrita pode dar voz ao corpo e reclamar narrativas para aquilo que antes era calado ou marginalizado.
O Corpo Dela e Outras Partes, de Carmen Maria Machado
Carmen Maria Machado, na coletânea O Corpo Dela e Outras Partes, faz do corpo feminino o eixo de uma prosa que é ao mesmo tempo sombria, erótica e estranhamente luminosa. Ao longo de oito contos, a autora expõe tiranias sobre o corpo da mulher como fio condutor de histórias macabras e metafóricas. Sob uma escrita afiada, Machado mistura elementos de horror, fantasia e cultura pop para dissecar as pressões e violências sofridas pelas mulheres. Não por acaso, os seus cenários vão de vírus apocalípticos a reality shows sobrenaturais, refletindo cenários inusitados onde o fantástico amplia verdades cruas sobre género e poder.
Neste livro de contos, o corpo feminino é centro e enigma. Carmen Maria Machado escreve com um estilo que mistura horror gótico, realismo mágico, crítica social e erotismo, sempre com uma tensão latente entre o visível e o que se quer ocultar. O corpo aparece como arquivo: dos abusos, dos desejos, das expectativas sociais, mas também como máquina de invenção. Há um conto em que uma mulher começa a perder partes do corpo, uma a uma. Há outro em que uma epidemia se espalha pelo toque. A violência é tantas vezes estrutural que se torna quase invisível. Machado devolve-lhe contorno, linguagem, ritmo. Em vez de personagens, temos corpos cortados, desaparecidos, desejantes, mutantes, que nos devolvem uma realidade filtrada pelo absurdo. O corpo, em Machado, é sempre excesso: de linguagem, de medo, de desejo.
Um dos contos mais emblemáticos, O Ponto do Marido, reinventa uma fábula urbana para abordar a autonomia corporal e a violência de género. Nele, a protagonista usa permanentemente uma fita verde atada ao pescoço e adverte: ninguém deve tocá-la, nem mesmo o marido. Essa pequena proibição desencadeia a obsessão e a ira masculinas: «Porque é que queres esconder isso de mim?», confronta o marido, ao que ela responde: «Não estou a esconder nada. Só que não é teu». A fita torna-se símbolo do limite inviolável do eu, um lembrete de que nem mesmo dentro do casamento o corpo deixa de ser território próprio. O desfecho trágico do conto, com a violação desse limite que leva a consequências funestas, evidencia de forma visceral o custo da dominação masculina sobre o corpo feminino.
Esta é uma literatura de contornos góticos e feministas, que transforma dores íntimas em alegorias universais.
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Consentimento, de Vanessa Springora
Num gesto de reposição simbólica, Vanessa Springora escreve contra a narrativa que outros escreveram sobre o seu corpo. Aos 14 anos, foi manipulada e abusada por um escritor consagrado, protegido por uma cultura literária que romantizava a pedofilia sob o pretexto da liberdade artística. Este livro não é apenas um testemunho, é uma reconfiguração da linguagem: de vítima silenciosa a autora da própria história. A escrita de Consentimento é seca, precisa, dolorosamente lúcida. A grande violência, aqui, é também narrativa: quem conta a história controla o corpo do outro. Springora recusa esse controlo. Escreve. Reivindica. Desfaz a gramática do abuso.
Aqui, o corpo é o lugar da violação e da disputa narrativa. O livro de Springora é mais do que uma autobiografia: é um gesto político. Ela recupera, com precisão e contenção, a história da sua relação, ou melhor, do abuso, com um escritor francês influente, quando ainda era menor. A força deste livro está em mostrar como a violência não é apenas física, mas simbólica, linguística, social. O predador escreve antes da vítima, define os termos, conquista a empatia pública. Springora escreve para desfazer essa lógica: devolve o corpo à sua própria história. E com isso, abre espaço para outras vozes silenciadas.
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De Quatro, de Miranda Jully
No romance De Quatro, Miranda July faz da meia-idade feminina o palco de uma narrativa corajosa sobre desejo, transformação e cuidado. Com graça e ausência de pudor, July insere a menopausa, e a fase turbulenta que a antecede, a perimenopausa, como questão central, mostrando que este período pode ser uma experiência eroticamente rica. A protagonista, uma mulher de 45 anos, vê-se à beira de uma metamorfose identitária: quem é ela, agora que o seu corpo começa a mudar e os papéis de mulher e mãe já não a definem por completo?
Decidida a reivindicar liberdade, ela elabora um plano audacioso de atravessar os Estados Unidos de carro, sozinha: um gesto de independência para provar (a si e ao marido) que ainda conduz a própria vida.
Curiosamente, esta jornada física descarrila logo ao início: a poucos quilómetros de casa, ela estaciona num motel modesto e fica ali durante dias, performando uma fuga simbólica sem realmente se distanciar de casa. Esta escolha inusitada – redecorar luxuosamente um quarto qualquer, tão perto da rotina com que ela tentava romper – já sinaliza que a verdadeira viagem será interior. De Quatro reinventa, desta forma, o velho “romance de formação”: em vez de uma jovem a descobrir o mundo, acompanhamos uma mulher madura a redescobrir em quem ainda se pode tornar. E a reinvenção não segue caminhos óbvios. Pelo contrário, a maternidade permanece uma âncora terna, e o próprio casamento é tratado com nuance (afinal, como ela admite, «o divórcio... é uma ideia tão conservadora quanto o casamento»). Assim, longe de simplificações, July explora a tensão entre desejo individual e laços afetivos, entre a vontade de mudança e o conforto (ou prisão) das estruturas familiares.
O corpo em transição é o grande protagonista do romance. July aborda a perimenopausa com franqueza e humor. A protagonista sente no corpo os solavancos hormonais: ondas de calor, flutuações de humor, a ameaça da libido em declínio. Até que um encontro fortuito adiciona combustível ao seu renascimento: ela conhece um homem mais jovem, um dançarino amador, e uma atração fulminante irrompe entre dois. Curiosamente, por imposição dele (também casado), eles estabelecem limites estritos: nada de beijos ou sexo convencional, apenas abraços e toques. Esta contenção parece intensificar, em vez de diminuir, a chama que nela desperta. A narradora experimenta «o prazer furioso de desejar um corpo real e específico» pela primeira vez em muito tempo. Ela teme, por um lado, que este seja o seu “último suspiro” de volúpia antes que a menopausa chegue de vez e apague o seu fogo. Por outro lado, justamente quando se permite sentir esse desejo (mesmo sem o consumar totalmente), ela tem acesso a uma nova vitalidade. De Quatro trata o estímulo sexual como combustível, capaz de catalisar transformações. O corpo, antes fonte de insegurança e envelhecimento, revela-se também fonte de conhecimento e poder criativo.
As memórias intercaladas do livro ampliam o romance para além da experiência individual: revelam como a sociedade historicamente empurrou mulheres maduras para o silêncio ou desesperança, por incapacidade de imaginá-las desejantes e plenas. De Quatro recusa essa invisibilidade: pelo contrário, faz da menopausa um tema literário incontornável e prova que há vida após os 45. Com linguagem ágil, sarcástica e ternamente estranha (marca registada de July), o romance normaliza os tabus do corpo maduro ao mesmo tempo que desafia o leitor com situações inusitadas.
O livro celebra a liberdade feminina de se reinventar mesmo quando o mundo espera resignação; celebra a sexualidade que persiste (e até floresce) na perimenopausa; e aborda com honestidade o cuidado, de si e dos outros, necessário para atravessar as metamorfoses da meia-idade.
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Eu Sou O Monstro Que Vos Fala, de Paul B. Preciado
Este texto, inicialmente concebido como conferência para o colégio de psicanálise fundado por Lacan, é uma verdadeira performance filosófico-política. Faz sentido, por isso, propor a leitura no formato audiolivro – que pode ouvir em espanhol, na língua original em que o texto foi escrito.
Preciado recusa o lugar de paciente e assume o microfone como “monstro” pós-foucaultiano, trans, queer, dissidente. O corpo, para Preciado, é território de construção política, biotecnológica, farmacológica. Mas também é linguagem que explode as normas, que ridiculariza as autoridades, que inventa novos modos de estar. A escrita aqui é um grito lúcido, entre a filosofia e o manifesto, o testemunho e a ironia. «Sou o vosso futuro», escreve. «E estou a falar convosco».
Assume a voz do “monstro”, aquele que escapa às categorias do saber, para falar da transição de género, da medicalização dos corpos, das tecnologias de poder que moldam a identidade. Ao reivindicar a posição de “monstruoso igual”, Preciado desmonta a autoridade daqueles que rotulam e convida a uma nova epistemologia do corpo: uma em que a transição, a fluidez e o híbrido deixem de ser temidos como anomalia e passem a ser entendidos como parte legítima e luminosa da experiência humana.
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