As despedidas

Por Álvaro Curia
24 de março de 2025
Nem sempre as despedidas são tristes. Muitas vezes são resoluções necessárias para a vida andar para a frente. Mas há sempre muito de melancólico no ato de dizer adeus. Nestes livros, não há só um até já.
As Intermitências da Morte, de José Saramago
No primeiro dia do novo ano, a morte deixa de atuar num país não identificado. O acontecimento, inicialmente celebrado, revela-se uma crise de grandes proporções, desafiando estruturas sociais, políticas e religiosas. Sem falecimentos, os hospitais e os lares sobrelotam-se, enquanto seguradoras e funerárias entram em colapso. O governo enfrenta o dilema de gerir uma sociedade onde a morte se tornou ausente. No entanto, quando a morte regressa, fá-lo com um novo método: envia cartas avisando cada pessoa da sua hora. A narrativa toma um rumo inesperado quando uma dessas cartas não chega ao destinatário, levando a morte a interagir diretamente com o mundo humano. Com ironia e precisão, Saramago conduz uma reflexão sobre a finitude, o medo e a própria essência da existência.
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Antes de Dizer Adeus, de Robert Bryndza
Andamos na mesma à volta do fim do ano. Mas desta vez estamos na véspera de Ano Novo. Um homem é encontrado morto num lago congelado, e a sua esposa, que parecia ter tudo e ser felicíssima, desaparece sem deixar rasto. A investigação conduzida por uma jornalista e um detetive reformado revela segredos enterrados há anos, ligando o caso a uma tragédia antiga. A cada pista descoberta, a verdade torna-se mais obscura, desafiando certezas e expondo relações marcadas por mentiras e manipulação. Bryndza constrói, neste livro, um thriller psicológico onde o silêncio das personagens diz tanto quanto as suas palavras.
Entre reviravoltas e tensões crescentes, o livro conduz o leitor a um desfecho em que o passado e o presente colidem de forma inesperada.
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O Adeus às Armas, de Ernest Hemingway
Durante a Primeira Guerra Mundial, Frederic Henry, um condutor de ambulâncias do Exército italiano, envolve-se com Catherine Barkley, uma enfermeira britânica. O romance, nascido em meio ao caos do conflito, transforma-se numa tentativa de escapar da brutalidade da guerra. Quando Frederic se fere, a relação intensifica-se, mas a realidade impõe-se, forçando-o a tomar decisões que testarão o seu amor e a sua resistência. A narrativa direta e despojada de Hemingway capta a dureza do período e a fragilidade dos sentimentos diante da incerteza. No centro da história, a guerra e o amor confrontam-se, conduzindo a um final marcado pela inevitabilidade da perda.
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Adeus, Princesa, de Clara Pinto Correia
A protagonista de Adeus, Princesa revisita sua infância e juventude, marcadas por um mundo de fantasia que, aos poucos, se desmorona diante da realidade. A passagem para a vida adulta é contada através de recordações, encontros e desencantos, numa narrativa onde a inocência cede espaço à consciência do irreversível. A escrita mescla memórias e reflexões, questionando a construção da identidade e a perda das ilusões. Entre relações familiares complexas e descobertas pessoais, a personagem compreende que crescer é, inevitavelmente, um processo de despedida. Clara Pinto Correia constrói uma história sobre o fim da infância e a aceitação de uma nova realidade. Um clássico português que não se perdeu no tempo.
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