«Algumas horas outras»

30 de julho de 2025
Nascido em Viseu em 1944, António Franco Alexandre produziu algumas das obras mais significativas da poesia portuguesa contemporânea, entre as quais Poemas. Acabado de reeditar, mais de 40 anos após a sua primeira publicação, Os Objectos Principais é uma porta de entrada na obra do autor. Um livro que marcou a poesia da década de 1970.


ALGUMAS HORAS OUTRAS

algumas horas outras invadiram as sedas, os perfumes
ácidos da louça, não serão recordadas. ou quanto mais
as recordarmos, mais a ignorância deitará
os corpos no tapume de vidros, para que em torno
se conciliem as vontades singulares, as
particularidades de um impetuoso alarme.
ou seja: deixarão as esplanadas baças, os garfos
encolhidos, para que um amplo destino os atravesse.
considerem, por exemplo, o paquete que ao meio-dia
digere as minuciosas palmeiras sobre a
alta insensatez dos aquedutos. ou ainda
a ilusão dos alicates ao lado da água, e o seu reflexo
do outro lado das vidraças: azul, não é?
assim estas algumas outras horas: como esquecê-las?

António Franco Alexandre, Os Objectos Principais, Assírio & Alvim, junho de 2025, p. 22

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