Uma Barragem Contra o Pacífico

de Marguerite Duras
Editor: Difel, novembro de 2008 ‧
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Este romance é mais do que uma viagem guiada pelo território nebuloso da memória. É mais do que uma narrativa construída sob o fascínio das letras de Pierre Loti e sob o efeito da descoberta do seu contagiante exotismo. É já o emergir de uma voz pessoalíssima e de uma concepção romanesca que vive muitas vezes paredes meias com o tempo cinematográfico. Uma Barragem contra o Pacífico poderia ser, também ainda hoje (1988), apenas uma visita guiada aos escombros das propagandas coloniais com que se encheram as paredes da Europa no fim do séc. XIX e na primeira metade do séc. XX para os deserdados e os desiludidos dessa mesma Europa, os que simplesmente procuravam (onde?) o seu quinhão da herança de espaço e mundos novos, ou tão só um lugar seu, onde viver e trabalhar, um canto da planície, entre a floresta e o Pacífico, só com o Sol por cima e hectares de terra fértil a perder de vista, onde apenas haveria que produzir, criar uma família (e, naturalmente, enriquecer) sem problemas nem políticas, sem a sensação de desespero e asfixia das metrópoles; para isso, segundo Marguerite Duras, bastava a embriaguês causada pelas leituras de Pierre Loti. Sim, este romance poderia muito bem ser essa visita guiada... Se antes de mais não fosse a evocação daquelas vidas jovens que, no momento de tomarem posse de si e da terra, já lá na colónia, face à monstruosidade insensível do Pacífico e à transparência mesquinha das suas existências de «brancos pobres» sem horizontes, mais não possuem entre mãos e no corpo do que a raiva surda, que só jovens que batam com a cabeça contra um muro tão duro e tão pouco sólido como o Pacífico podem conhecer, uma raiva que é surda porque não há onde nem a quem reclamar contra a fraude. Precisamente porque «a mãe» morre, a lutar até à insanidade, para dar corpo a uma perfeita loucura — uma barragem que detivesse o Pacífico! —, acreditando em si mais do que no sonho, é verdade, e dessa luta inglória retirando todo um orgulho inútil e toda uma liberdade que é só riso da sua própria situação. Será necessário, então, que alguém conte, que não se esqueça, que mantenha uma factura por prejuízos indefiníveis dentro do prazo de validade. É o que Joseph pede a Suzanne, ele que se considera já contaminado, ganho pelas emanações deletérias da vida da colónia, um destroço à deriva nas ruas da capital colonial que, lucidamente, sabe que a sua raiva só contra si próprio se pode exercer e que nenhuma vingança lhe devolveria o respeito por si próprio e a «mãe maluca» mais as suas absurdas contas e as suas barragens sem pés nem cabeça, roídas por todos os sabotadores (incluindo os caranguejos trazidos pela crueldade das marés do Pacífico) das esperanças dos colonos. Só no cinema (melhor: só numa sala de cinema) Joseph encontrará uma saída para a sua raiva, uma solução de vida, colonial e cinematográfica a mais não poder ser. Mas uma adolescência na Indochina é também um cinema sobre a adolescência, erguido por cima dos escombros das vidas dos adolescentes coloniais. Sequência a sequência, neste seu primeiro grande romance, Marguerite Duras dá-nos — como quem recusa a perda dos sonhos de amor e vida dos seus anos juvenis na Indochina e precisasse de os contar, lembrando-se sempre de mais e mais pormenores, mais factos à medida que o passado se perde, para que no fim haja aquilo a que se chama o presente da memória, o presente do passado —, num fundo tropical de noites, plantações, dinheiro, bailes, álcool, com um gira-discos a tocar a Ramona, enquanto um diamante pode ser ainda um último fôlego, os encontros dos desejos com os corpos, ou tão só a poesia do regresso à ordem natural das coisas...

Uma Barragem Contra o Pacífico

de Marguerite Duras

Propriedade Descrição
ISBN: 9789722900935
Editor: Difel
Data de Lançamento: novembro de 2008
Idioma: Português
Dimensões: 150 x 230 x 17 mm
Páginas: 232
Tipo de produto: Livro
Coleção: Literatura Estrangeira
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789722900935

SOBRE O AUTOR

Marguerite Duras

Escritora, cineasta e dramaturga, Marguerite Duras (Marguerite Donnadieu) nasceu no Vietname em 1914 e morreu em 1996, em França. Foi uma das mais relevantes escritoras francesas da segunda metade do século XX. A sua obra, habitada por personagens em busca de amor até aos limites da loucura ou do crime, foi visceralmente marcada pela juventude passada na Indochina. Entre os seus muitos livros, como A Dor, Uma Barragem contra o Pacífico, Moderato Cantabile, para mencionar apenas alguns, o seu romance autobiográfico O Amante foi adaptado ao cinema. Marguerite Duras também assinou o argumento do filme Hiroshima, Meu Amor, levado à tela por Alain Resnais.

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