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Refúgio no Tempo

de Gueorgui Gospodinov
Editor: Relógio D'Água, novembro de 2023 ‧
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O enigmático Gaustine, que o narrador conheceu num seminário de literatura à beira-mar, inaugura uma clínica para doentes de Alzheimer. De modo deliberado, as diferentes divisões reproduzem as várias décadas do século xx, do mobiliário aos pormenores, o que permite aos pacientes regressarem ao cenário dos seus anos de plenitude. Em breve, um número crescente de cidadãos procura inscrever-se na clínica para escapar ao beco sem saída em que se converteram as suas vidas na actualidade. A ideia espalha-se por toda a União Europeia. E então o passado invade o presente, conferindo à narrativa uma dimensão de premonição e distopia.
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Quando a realidade falha

A maioria dos romances desenrola-se num mundo estável, onde a realidade obedece a regras previsíveis. Há, porém, escritores que preferem imaginar o que acontece quando essas regras falham. A partir de pequenas fissuras na normalidade, algo que parecia impossível infiltra-se no quotidiano e altera a ordem estabelecida. É dessa anomalia inicial que nasce a história. A partir dela, os autores exploram as suas implicações no desenrolar da ação e, por arrasto, na forma como entendemos o que nos rodeia. A Polícia da Memória, de Yoko Ogawa A narradora de A Polícia da Memória é uma jovem escritora que vive numa ilha onde, sem explicação aparente, certas coisas começam a desaparecer. Num dia, deixam de existir chapéus. Noutro desaparecem os pássaros, as rosas ou os perfumes. Sempre que algo se apaga do mundo, os habitantes devem recolher todos os vestígios e destruí-los. Pouco depois, também as memórias associadas a essas coisas acabam por dissolver-se. A maioria das pessoas adapta-se sem resistência. Mas há quem continue a lembrar-se. São essas pessoas que a temida Polícia da Memória procura e persegue. A narradora decide esconder em casa o editor do seu primeiro livro, um dos poucos imunes a esse esquecimento coletivo. Enquanto o protege, assiste ao lento esvaziamento do mundo à sua volta. Aos poucos, não desaparecem apenas objetos, mas também gestos, lugares e fragmentos inteiros da experiência quotidiana. O romance sugere que a realidade se mantém de pé apenas enquanto houver memória para a sustentar. Sempre que nos esquecemos de algo, uma pequena parte do universo desaparece. COMPRO NA WOOK! » Refúgio no Tempo, de Gueorgui Gospodinov Refúgio no Tempo parte de uma ideia ao mesmo tempo absurda e plausível. Um psiquiatra cria clínicas especializadas em recriar décadas do passado para tratar doentes com Alzheimer. Cada piso do edifício corresponde a uma década específica, reconstruída com grande rigor. Móveis, músicas, jornais, cheiros e objetos são escolhidos para devolver aos pacientes o ambiente da sua juventude e ajudá-los a recuperar memórias. O projeto começa como uma experiência médica, mas depressa desperta o interesse de pessoas saudáveis. Muitos visitantes descobrem que preferem passar tempo nesses espaços recriados a enfrentar o presente. A nostalgia começa a espalhar-se pela sociedade e, em pouco tempo, o projeto transforma-se num fenómeno político inesperado. Vários países organizam referendos para decidir em que década preferem viver. As populações são convidadas a escolher o passado que querem recuperar. Vencedor do International Booker Prize em 2023, o romance desenvolve esta hipótese para construir uma reflexão irónica e melancólica sobre a memória, a identidade e a dificuldade de lidar com o presente. COMPRO NA WOOK! » O Livro da Forma e do Vazio, de Ruth Ozeki Benny Oh começa a ouvir vozes vindas das coisas depois da morte inesperada do pai. Livros, utensílios domésticos, embalagens e todo o tipo de objetos parecem falar com ele, cada um com uma voz e personalidade próprias. Ao mesmo tempo, a sua mãe enche a casa de coisas compradas compulsivamente, numa tentativa de lidar com a perda. Aos poucos, a casa transforma-se num espaço cada vez mais desordenado e afeta a forma como o rapaz se relaciona com os outros. Entre o luto, o isolamento e as vozes que não cessam, Benny encontra refúgio numa biblioteca. Ali, ao contrário do caos da casa, tudo está organizado e em silêncio, como se cada objeto soubesse exatamente o seu lugar. Nesse ambiente, as vozes deixam de ser uma invasão e tornam-se mais fáceis de escutar. Em O Livro da Forma e do Vazio, Ruth Ozeki mistura humor, espiritualidade e reflexão social. Ao dar voz às coisas, o romance questiona a forma como elas entram nas nossas vidas e se tornam extensões da nossa memória. O resultado é uma reflexão sobre o peso que o mundo material exerce sobre nós, moldando aquilo que somos. COMPRO NA WOOK! » Os Inconsolados, de Kazuo Ishiguro Se Kazio Ishiguro fosse um animal, seria um camaleão. Ao começarmos um livro seu, nunca sabemos exatamente para onde a história nos vai levar, já que o autor inglês não tem receio de atravessar géneros e desmontar as expectativas do leitor. Os Inconsolados não é exceção. O romance acompanha Ryder, um pianista famoso que chega a uma cidade europeia para participar num evento musical importante. Desde o início, algo parece estranho. Ryder encontra pessoas que o tratam como um velho conhecido e que esperam dele compromissos de que não se lembra. A realidade começa a comportar-se de forma cada vez mais desconcertante. As distâncias dentro da cidade mudam constantemente, encontros inesperados surgem sem explicação e pequenas tarefas transformam-se em longas sequências absurdas que parecem durar semanas. Ryder tenta cumprir as expectativas de todos, mas sente-se cada vez mais perdido. Nada de sobrenatural acontece de forma explícita. Ainda assim, a lógica do mundo parece obedecer a regras imprevisíveis. A realidade passa a assemelhar-se a um sonho longo em que o tempo estica e se comprime sem lógica aparente e as situações mais banais passam a dominar a história. O resultado é uma narrativa que arrasta o leitor para um território cada vez mais estranho. No fundo, um romance muito fiel ao universo de Ishiguro. COMPRO NA WOOK! » Ubik, de Philip K. Dick Ubik parte de uma realidade diferente da nossa. No universo criado por Philip K. Dick existem pessoas com capacidades psíquicas e empresas dedicadas a neutralizar esses poderes. É neste contexto que conhecemos Joe Chip, um funcionário de uma dessas organizações, responsável por lidar com indivíduos capazes de prever o futuro ou influenciar a mente dos outros. A história avança sem grandes sobressaltos até que, durante uma missão num complexo lunar, uma explosão obriga Joe Chip e os seus colegas a regressar à Terra. A partir desse momento, algo começa a correr mal. Objetos modernos transformam-se em versões antigas de si mesmos. Tecnologias deixam de funcionar. Enquanto tentam perceber o que aconteceu, começam a surgir mensagens misteriosas de uma entidade chamada Ubik, que aparece nos lugares mais inesperados. A explosão deixa de ser a questão principal. A verdadeira pergunta passa a ser outra: em que tipo de realidade vivem realmente? Com esta ideia vertiginosa, Philip K. Dick constrói um dos romances mais inquietantes da ficção científica, um livro que transforma a existência num enigma. COMPRO NA WOOK! »

Refúgio no Tempo

de Gueorgui Gospodinov

Propriedade Descrição
ISBN: 9789897834059
Editor: Relógio D'Água
Data de Lançamento: novembro de 2023
Idioma: Português
Dimensões: 151 x 235 x 20 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 304
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789897834059

Um livro fascinante

Ler, um prazer adquirido

Não é de todo o meu tipo de leitura mas as críticas são tão boas que cedi à curiosidade. E se andei meio perdida no início, rapidamente me orientei e rendida fiquei ao enredo. É realmente um livro fascinante. Tanto diverte, como inquieta, numa espécie de distopia que, tem um tanto de premonitório. A velhice e a perda de memória que, atinge cada vez pessoas mais novas. E não, não é um livro lúgubre ou amargo porque o refúgio é de memórias felizes. Muitas delas da infância. "... a primeira coisa que desaparece com a perda de memória é a própria noção de futuro. " Experimentem aplicar a um povo e a uma nação que esquece o que viveu no passado. O narrador não deixa de referir que é búlgaro. "Se o produto nacional bruto nacional dependesse do ódio, a prosperidade em alguns países atingiria em pouco tempo as nuvens. " Não é fácil. É como se o alter-ego do autor estivesse a olhar para trás para uma projeção futura num exercício assustadoramente viável. "À medida que diminuí a memória, aumenta o passado. "

SOBRE O AUTOR

Gueorgui Gospodinov

Gueorgui Gospodinov nasceu em Yambol, na Bulgária, a 7 de janeiro de 1968. É autor de obras de ficção, de poesia e de teatro. Traduzido para 25 línguas, é o escritor búlgaro contemporâneo mais lido e premiado.
O reconhecimento internacional surgiu com a publicação de Natural Novel (1999), traduzido para 23 línguas, incluindo o inglês, o alemão, o francês, o italiano e o espanhol. A The New Yorker falou de um "início anárquico e experimental".
O seu segundo romance, Física da Tristeza (2012), tornou-se o livro mais vendido da década na Bulgária. Alberto Manguel disse ser dos poucos romances que surgem ao leitor experimentado como absolutamente novos.
O seu livro Refúgio no Tempo, publicado na Relógio d'Água, obteve o Prémio Strega Europeo 2021 e o International Booker Prize.

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