Quando a realidade falha
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@confissoesdumlivreiro
12 de março de 2026
A maioria dos romances desenrola-se num mundo estável, onde a realidade obedece a regras previsíveis. Há, porém, escritores que preferem imaginar o que acontece quando essas regras falham. A partir de pequenas fissuras na normalidade, algo que parecia impossível infiltra-se no quotidiano e altera a ordem estabelecida. É dessa anomalia inicial que nasce a história. A partir dela, os autores exploram as suas implicações no desenrolar da ação e, por arrasto, na forma como entendemos o que nos rodeia.
A Polícia da Memória, de Yoko Ogawa
A narradora de A Polícia da Memória é uma jovem escritora que vive numa ilha onde, sem explicação aparente, certas coisas começam a desaparecer. Num dia, deixam de existir chapéus. Noutro desaparecem os pássaros, as rosas ou os perfumes. Sempre que algo se apaga do mundo, os habitantes devem recolher todos os vestígios e destruí-los. Pouco depois, também as memórias associadas a essas coisas acabam por dissolver-se. A maioria das pessoas adapta-se sem resistência. Mas há quem continue a lembrar-se. São essas pessoas que a temida Polícia da Memória procura e persegue. A narradora decide esconder em casa o editor do seu primeiro livro, um dos poucos imunes a esse esquecimento coletivo. Enquanto o protege, assiste ao lento esvaziamento do mundo à sua volta. Aos poucos, não desaparecem apenas objetos, mas também gestos, lugares e fragmentos inteiros da experiência quotidiana. O romance sugere que a realidade se mantém de pé apenas enquanto houver memória para a sustentar. Sempre que nos esquecemos de algo, uma pequena parte do universo desaparece.
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Refúgio no Tempo, de Gueorgui Gospodinov
Refúgio no Tempo parte de uma ideia ao mesmo tempo absurda e plausível. Um psiquiatra cria clínicas especializadas em recriar décadas do passado para tratar doentes com Alzheimer. Cada piso do edifício corresponde a uma década específica, reconstruída com grande rigor. Móveis, músicas, jornais, cheiros e objetos são escolhidos para devolver aos pacientes o ambiente da sua juventude e ajudá-los a recuperar memórias. O projeto começa como uma experiência médica, mas depressa desperta o interesse de pessoas saudáveis. Muitos visitantes descobrem que preferem passar tempo nesses espaços recriados a enfrentar o presente. A nostalgia começa a espalhar-se pela sociedade e, em pouco tempo, o projeto transforma-se num fenómeno político inesperado. Vários países organizam referendos para decidir em que década preferem viver. As populações são convidadas a escolher o passado que querem recuperar. Vencedor do International Booker Prize em 2023, o romance desenvolve esta hipótese para construir uma reflexão irónica e melancólica sobre a memória, a identidade e a dificuldade de lidar com o presente.
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O Livro da Forma e do Vazio, de Ruth Ozeki
Benny Oh começa a ouvir vozes vindas das coisas depois da morte inesperada do pai. Livros, utensílios domésticos, embalagens e todo o tipo de objetos parecem falar com ele, cada um com uma voz e personalidade próprias. Ao mesmo tempo, a sua mãe enche a casa de coisas compradas compulsivamente, numa tentativa de lidar com a perda. Aos poucos, a casa transforma-se num espaço cada vez mais desordenado e afeta a forma como o rapaz se relaciona com os outros. Entre o luto, o isolamento e as vozes que não cessam, Benny encontra refúgio numa biblioteca. Ali, ao contrário do caos da casa, tudo está organizado e em silêncio, como se cada objeto soubesse exatamente o seu lugar. Nesse ambiente, as vozes deixam de ser uma invasão e tornam-se mais fáceis de escutar. Em O Livro da Forma e do Vazio, Ruth Ozeki mistura humor, espiritualidade e reflexão social. Ao dar voz às coisas, o romance questiona a forma como elas entram nas nossas vidas e se tornam extensões da nossa memória. O resultado é uma reflexão sobre o peso que o mundo material exerce sobre nós, moldando aquilo que somos.
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Os Inconsolados, de Kazuo Ishiguro
Se Kazio Ishiguro fosse um animal, seria um camaleão. Ao começarmos um livro seu, nunca sabemos exatamente para onde a história nos vai levar, já que o autor inglês não tem receio de atravessar géneros e desmontar as expectativas do leitor. Os Inconsolados não é exceção. O romance acompanha Ryder, um pianista famoso que chega a uma cidade europeia para participar num evento musical importante. Desde o início, algo parece estranho. Ryder encontra pessoas que o tratam como um velho conhecido e que esperam dele compromissos de que não se lembra. A realidade começa a comportar-se de forma cada vez mais desconcertante. As distâncias dentro da cidade mudam constantemente, encontros inesperados surgem sem explicação e pequenas tarefas transformam-se em longas sequências absurdas que parecem durar semanas. Ryder tenta cumprir as expectativas de todos, mas sente-se cada vez mais perdido. Nada de sobrenatural acontece de forma explícita. Ainda assim, a lógica do mundo parece obedecer a regras imprevisíveis. A realidade passa a assemelhar-se a um sonho longo em que o tempo estica e se comprime sem lógica aparente e as situações mais banais passam a dominar a história. O resultado é uma narrativa que arrasta o leitor para um território cada vez mais estranho. No fundo, um romance muito fiel ao universo de Ishiguro.
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Ubik, de Philip K. Dick
Ubik parte de uma realidade diferente da nossa. No universo criado por Philip K. Dick existem pessoas com capacidades psíquicas e empresas dedicadas a neutralizar esses poderes. É neste contexto que conhecemos Joe Chip, um funcionário de uma dessas organizações, responsável por lidar com indivíduos capazes de prever o futuro ou influenciar a mente dos outros. A história avança sem grandes sobressaltos até que, durante uma missão num complexo lunar, uma explosão obriga Joe Chip e os seus colegas a regressar à Terra. A partir desse momento, algo começa a correr mal. Objetos modernos transformam-se em versões antigas de si mesmos. Tecnologias deixam de funcionar. Enquanto tentam perceber o que aconteceu, começam a surgir mensagens misteriosas de uma entidade chamada Ubik, que aparece nos lugares mais inesperados. A explosão deixa de ser a questão principal. A verdadeira pergunta passa a ser outra: em que tipo de realidade vivem realmente? Com esta ideia vertiginosa, Philip K. Dick constrói um dos romances mais inquietantes da ficção científica, um livro que transforma a existência num enigma.
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