Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule

de Édouard Louis
Editor: Elsinore, fevereiro de 2022 ‧
Criado no seio de uma família da classe trabalhadora, na Picardia, interior da França, Eddy não é igual às outras crianças. Os seus modos, a sua maneira de falar e a sua delicadeza valeram-lhe humilhações, ameaças e a incompreensão, tanto por parte dos colegas de escola, como do pai, um duro, alcoólico e irascível, e da mãe, uma mulher cansada e alheada.

Eddy cresce assim, preso na contradição de tanto gostar como odiar a pessoa que é, do fascínio e asco pelos seus desejos mais íntimos, de querer a liberdade de uma outra vida, mas nunca conseguindo colocar verdadeiramente de parte o seu amor pelos pais.

Primeiro romance de Edouard Louis, que lhe valeu o imediato aplauso da crítica e a fama internacional, Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule é um livro audacioso, feito de memória pessoal e de ficção, um romance temerário e franco, que procura responder à derradeira pergunta: como pode cada um de nós inventar a sua própria liberdade?

«Um romance de uma força e de uma verdade emocionantes.»
Annie Ernaux

«Uma história impressionante acerca da diferença e da adolescência.»
The New York Times

«O início de uma fulgurante carreira literária.»
The Washington Post

«De uma força emocional devastadora.»
The New Yorker

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Édouard Louis

Édouard Louis I Foto © Heike Huslage-Koch, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons Olhar a violência nos olhos, sem a temer. Desfazendo-a, expondo-a, revirando-lhe as entranhas e atingindo-a no coração. A violência sem subterfúgios, sem embelezamentos burgueses para não ferir as almas sensíveis. A lógica da opressão desmascarada, o grande capital como forma de apagamento, a classe social como território hermético, de onde nunca se sai porque há sempre um gesto, uma fala, uma atitude que denuncia. Um dos mais proeminentes autores contemporâneos que, se não lhe tolherem a voz, marcará, sem dúvida, a literatura deste século. O HOMEM Proveniente de uma pequena cidade operária do Norte de França, Édouard chamava-se Eddy, graças ao fascínio do seu pai por ficção americana. As condições de vida eram miseráveis. Em seu torno, o álcool, a brutalidade, uma cadeia de violência que se iniciava nos patrões da fábrica onde o pai trabalhava e chegava até ele, tendo a sua mãe e irmão de permeio. A miséria que não o era apenas no que se refere ao que dispunham para sobreviver, mas que se notava também nos ausentes hábitos de higiene, nos dentes podres, na promiscuidade sexual e na alimentação.
À leitura de Para Acabar de Vez Com Eddy Bellegueule seguiu-se a visualização da entrevista concedida pelo autor ao programa Roda Vida, aquando da sua deslocação ao Brasil, para participar na Feira Literária Internacional de Paraty. O livro caiu nas minhas leituras como tudo aquilo de que precisava, não apenas enquanto leitor, mas também enquanto escritor. Porém, foi sobretudo pela entrevista a que assisti que passou a ser desmedida esta minha vontade de falar de Édouard Louis. É que parecia que nos estávamos a completar nas frases.
Édouard foi um menino homossexual no meio de toda aquela miséria humana. As agressões na escola, na família, entre os amigos. A necessidade de esconder o seu ínfimo gesto, porque tudo denuncia: as mãos, o pentear o cabelo, o riso, os passos. Nele juntam-se-lhe as marcas de uma classe social desprestigiada, que a burguesia não gosta de pensar como real, para que com ela não tenha de lidar de perto. A OBRA O autor explica que as classes dominantes não gostam de autoficção, havendo inclusive a ideia que é uma “moda” atual, a escrita biográfica. Segundo Louis, isto acontece apenas porque são os marginalizados que a escrevem: as mulheres, os negros, os homossexuais, os pobres. Os burgueses não têm nada de interessante para contar, as suas vidas repetem-se de geração em geração, vazias. A escrita de Louis é, e será, sempre autobiográfica e ele nota com sarcasmo que, aos escritores de ficção, nunca se lhes pergunta se escreverão ficção para sempre.
Na sua opinião, este desdém existe porque a burguesia se apoderou da literatura para que a entretenha, recusando incomodar-se com livros como Quem Matou o Meu Pai, onde o regresso do filho trânsfuga à casa paterna demonstra o fosso colossal que existe na sociedade francesa.
Muito crítico da classe dominante, Louis acusa-a de querer toda a arte para si, apropriando-se do teatro, outrora entretenimento das massas, mas também recusando-se a que outros falem e discutam a própria literatura. Recorda o incómodo com que os grandes literatos reagem ao facto de a crítica, a opinião e o livro terem saltado o muro das academias das capitais e serem hoje falados em redes sociais, sem os constrangimentos que os mantinham um feudo de uma elite que se ia lendo e publicando entre si.

É por estas observações que outro dos seus livros publicados em Portugal, História da Violência, desmascara a farsa da liberdade no tempo atual, explicando que só é realmente livre quem domina. A título de exemplo, fala do facto de os seus pais, os seus irmãos, vizinhos, amigos e colegas da cidade de onde provinha, estarem incondicionalmente sujeitos à política. Quando o governo resolveu cortar os apoios sociais, foi o pai de Édouard, inválido devido a um acidente de trabalho, que não sabia se tinha dinheiro para comer naquele dia, e não os políticos que aprovaram esse corte. Esses não são afetados pelas decisões que eles próprios tomam. A FAMA Não é à toa que Édouard Louis não é bem recebido pela elite que tem dominado o mundo cultural francês. Segundo o próprio, aquilo que diz e que escreve fere a direita, porque lhe imputa culpas diretas na miséria dos outros, mas também a esquerda, porque desfaz a ideia romântica do trabalhador estoico, pronto para grandes manifestações. Nos seus livros, Louis retrata uma classe trabalhadora amorfa, seduzida pela extrema-direita, pelo capitalismo desenfreado e incapaz de quebrar um círculo de violência em que cada vez mais se vai deteriorando e onde a opressão se faz sentir de forma cada vez mais grave.
Comparado a Samuel Beckett, pela forma como fala livremente do corpo e da sua imobilidade, e de quem sugiro este Jogo do Fim, o autor explica o seu fascínio por Toni Morrison, em particular pelo seu livro Beloved. Louis teve o privilégio de almoçar com a escritora, que faleceu em 2019. Embora sendo mulher, negra, heterossexual e idosa e ele homem, branco, homossexual e jovem, teve com ela uma conexão imediata, porque ambos se encontraram nesse tal território da violência.
No Brasil, Edouard Louis encheu salas e foi um dos escritores mais vendidos. Por cá, parece-me que ainda agora estamos a descobrir a sua obra, mas vale a pena falar muito sobre ela e pensar neste jovem escritor de trinta e dois anos, que em muito menos tempo já disse, e escreveu, aquilo que muitos não se atreveram a dizer a vida toda. E, claro, essa coragem incomoda.

Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule

de Édouard Louis

Propriedade Descrição
ISBN: 9789895649471
Editor: Elsinore
Data de Lançamento: fevereiro de 2022
Idioma: Português
Dimensões: 154 x 235 x 13 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 188
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789895649471

Muito duro, muito bom

Joana A

É um livro duríssimo, com uma escrita crua e honesta, onde se aborda a violência, a pobreza e a homofobia, temas que marcaram indelével e profundamente a identidade do protagonista. É o retrato de um quotidiano opressor, onde a masculinidade tóxica dita as regras e onde ser diferente equivale a estar condenado ao isolamento e à agressão. Embora Eddy acabe por ter o talento e a inteligência do seu lado, para sair dessa realidade e transformar sua vida, a obra deixa-nos com uma tristeza profunda, refletindo sobre os muitos jovens como ele que cresceram em contextos sociais que não lhes ofereceram qualquer possibilidade de fuga.

Um livro poderoso e inesquecível.

Patrícia Martins

"Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule" de Édouard Louis é um relato cru e intenso sobre identidade, discriminação e a luta para escapar de um ambiente opressivo. A narrativa autobiográfica é impactante e profundamente humana, expondo questões sociais e culturais com honestidade desarmante. Gostei especialmente da forma como o autor transforma a dor em reflexão, criando uma obra que desafia e comove o leitor.

Brilhante

JM

Romance autobiográfico de um dos melhores novos escritores da literatura francesa. O choque com o conservadorismo e o preconceito da sociedade no interior de França. A violência cruel, sufocante e dura. O racismo e homofobia (Édouard Louis é homossexual). A amargura e preconceito de uma pequena cidade de operários que se contrapõem à sensibilidade do despertar sexual do escritor enquanto adolescente. Um livro maravilhoso, muito bem escrito e que merece muito ser lido e apreciado. Recomendo também "Quem matou o meu pai?" do mesmo autor.

Excelente!

AV

Um pequeno grande livro que li compulsivamente! Apesar da crueza que encerra em si, esta leitura desperta em nós vontade de saber mais (tanto que já comprei o próximo livro do autor), sobretudo por ser uma autobiografia. Quem assim escreve só podia ter mesmo vivenciado todo aquele sofrimento, toda aquela dor, não há outra hipótese! Uma escrita simples, crua e dura, forte, linhas onde são expostas violência física mas sobretudo psicológica que, efectivamente, não nos pode deixar indiferentes! Eu adorei este livro, vai ficar na minha mente e comigo durante muito tempo, certamente, portanto, só posso recomendar esta leitura sem reticência alguma (apenas recomendado com reservas a pessoas sensíveis...) , ainda que tenha terminado abruptamente como se alguém tivesse arrancado as últimas páginas do livro. Mas é, sem dúvida (completamente de acordo com as opiniões que havia lido antes de iniciar esta leitura), um "Grande" livro! Nem apetece pousá-lo sem antes terminá-lo! sim, é cruel, é duro, é feio, cheio de "murros no estômago " e de muitas passagens desumanas, ainda mais sabendo o leitor que aquilo que está a ler aconteceu mesmo na vida de alguém, não é história inventada, nem é argumento de filme (mas poderia ser). E então pensamos... "não é possível!", mas foi...

Poderoso! Forte e emotivo!

João Ferreira

É preciso estar preparado para uma leitura tão poderosa quanto esta! Certamente o leitor não ficará indiferente uma vez que somos levados a conhecer os dramas de uma infância difícil onde está presente a luta contra a homofobia.

Excelente

Ab

Uma escrita crua e transparente. A homossexualidade e a luta contra o mesmo. Muito bom. Recomendo vivamente.

Quase uma obra-prima!

SC

O livro, com algum cariz autobiográfico, relata ´uma´ infância numa aldeia da Picardia, entre os pobres rurais. Achei que este romance fez coisas realmente fascinantes com um livro que poderia facilmente se ter tornado um grande clichê. Temas sobre identidade, auto-aversão, bullying, classe social, circunstâncias socioeconómicas/políticas, pobreza, onde o desemprego, o alcoolismo, o racismo e a homofobia são abundantes, assim como o estereótipo que o resto da França tem do Norte. Isso foi totalmente diferente do que eu esperava. Não é apenas uma maioridade gay, mas também detalha a relação do personagem principal com a pobreza profunda e o querer ser alguém que não é... Édouard Louis tinha apenas 19 anos (!!) quando escreveu esta obra. Comovente, terno e apenas cru. Se o leitor quiser tentar algo que vai puxar as cordas do seu coração, então aqui tem... Gostei muito deste passeio emocional. Ansiosa para ler mais de seu trabalho.

SOBRE O AUTOR

Édouard Louis

Édouard Louis nasceu em Hallencourt, França, em 1992. Estudou História na Universidade de Picardia e Sociologia na Escola Normal Superior de Paris. Obteve o imediato reconhecimento da crítica e do público com o seu polémico livro de estreia, Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule, de 2014, com o qual foi finalista do Prémio Goncourt para Primeiro Romance. Confirmou o seu lugar no panorama literário internacional com as obras de autoficção História da Violência, originalmente publicada em 2016, e Quem Matou o Meu Pai, em 2018, ambas adaptadas ao teatro. Seguiram-se títulos como Changer: méthode ou o mais recente O Colapso. A sua obra está traduzida em mais de trinta países.

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