Orgia / Pocilga

de Pier Paolo Pasolini
Editor: Cotovia, março de 2006 ‧
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Acompanhando a estreia de "Orgia" no Teatro Viriato em Viseu, os Artistas Unidos lançam um volume com duas das seis peças que Pier Paolo Pasolini escreveu no final dos anos 60: "Orgia" e "Pocilga".
Se os romances de Pasolini foram editados em Portugal durante a ditadura e o cinema começou a ser visto a partir do Evangelho Segundo S. Mateus, já o teatro de Pier Paolo Pasolini só viria a ser revelado em Portugal em 1985 por Mário Feliciano que dirigiu, no Acarte, "Pílades" (numa tradução feita com Luíza Neto Jorge), tendo, em 1986, apresentado no Teatro do Ginásio Calderón (em tradução feita com António Barahona). Cerca de dez anos depois, em 1996, estrearam "Afabulação" com direcção de Luís Miguel Cintra, no Teatro da Cornucópia e "Orgia" no Teatro Politeama com encenação de Celso Cleto. Mais recentemente o Teatro Nacional D. Maria II produziu "Orgia" com encenação de João Grosso.

ORGIA
Um homem já morto vem ao teatro mostrar como foram os momentos finais da sua vida e explicar porque se suicidou. Num quarto, vêmo-lo numa noite de Páscoa com a sua mulher a preparar-se para se entregarem aos prazeres sado-masoquistas que regulam a vida de casados: ao fascínio mórbido que têm para com passado e o presente. De como não os deixam viver a vida em pleno. Por entre evocações líricas do passado que explodem a todo o momento o casal avança na compreensão da hipocrisia esquizofrénica que regula a sua vida: alternando entre aquilo que desejam à noite e aquilo que aceitam de dia. A mulher não aguenta esta compreensão e suicidar-se-á dois meses depois nos primeiros dias de Junho: por um hálito de ar. O homem prosseguirá todo o Verão, inalterado, até ao dia em que leva uma rapariga para casa e tenta cumprir o mesmo tipo de ritual com ela. A sua intenção é violentamente interrompida e ele é fulminado por um súbito e inexplicável ataque que o faz desmaiar. A rapariga foge apavorada. Quando acorda o homem encontra-se sozinho, veste as roupas da rapariga e suicida-se lentamente enquanto num monólogo explica que toda a sua razão que explicava a vida deixou de existir.

POCILGA
Julian é um rapaz de vinte e cinco anos que, segundo o pai, não é nem obediente nem desobediente: é simplesmente ausente. Esta ausência exaspera-o, pois ele, industrial bem sucedido alemão, espera que um dia o filho o substitua na direcção das fábricas. Nem Ida, a sua namorada, consegue saber o que é que Julian fica a fazer em casa quando ela lhe pede que ele vá a uma manifestação. Mãe e pai ignorantes daquilo que se passa com o filho prosseguem na sua vida de porcos, a conviver com industriais que fazem operações plásticas para não serem reconhecidos depois da guerra, preocupados com a estabilidade da sua estéril vida. Entretanto Julian encontra o filósofo Espinosa na pocilga onde vai todos os dias para conviver com aquilo que um dia lhe apareceu em sonho: os porcos. O filósofo vem-lhe dizer que também ele mudou, e que a Razão que lhe serviu para explicar deus foi a mesma que também criou os monstros como o pai de Julian e os seus amigos. E por isso a abjura. Julian está por isso, ele próprio, livre, para morrer com a serenidade de um estóico. A última cena mostra-nos os camponeses que vêm revelar aos amigos do pai a morte do filho na pocilga. Já que nada sobrou do cadáver de Julian, porque os porcos o comeram todo, um dos industriais amigo aconselha-os a não dizerem mais nada sobre o facto.

Orgia / Pocilga

de Pier Paolo Pasolini

Propriedade Descrição
ISBN: 9789728972011
Editor: Cotovia
Data de Lançamento: março de 2006
Idioma: Português
Dimensões: 110 x 160 x 10 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 160
Tipo de produto: Livro
Coleção: Livrinhos de Teatro
Classificação Temática: Livros em Português > Arte > Artes de Palco
Livros em Português > Literatura > Teatro (Obra)
EAN: 9789728972011
Idade Mínima Recomendada: Não aplicável

SOBRE O AUTOR

Pier Paolo Pasolini

Pier Paolo Pasolini nasceu a 5 de março de 1922 em Bolonha. Filho de um militar, seguiu o pai nas várias mudanças de terra, mas frequentou o liceu e a faculdade em Bolonha, onde teve foi aluno de Gianfranco Contini e Roberto Longhi. Passava os Verões em Casarsa, na região do Friuli, cidade de origem da mãe. Aí se refugiou, em 1943, para fugir à incorporação no exército. Compôs os primeiros poemas em dialecto friulano, Poesie a Casarsa (1942), publicados mais tarde, com outros textos friulanos, em La Meglio Gioventù (1958). Em 1945, soube que o irmão mais novo, Guido, tinha sido morto pelos titistas num conflito entre dois grupos de partigiani. Em 1947, inscreveu-se no Partido Comunista. Trabalhou como professor, numa aldeia perto de Casarsa, mas seria despedido e expulso do PCI por um obscuro episódio de alegada corrupção de menores. Esse foi o primeiro de uma enorme lista de processos (mais de 30) que deram a Pasolini a consciência da sua diversidade e marcaram o seu destino de marginalizado e rebelde.
Devido ao escândalo, em 1949, teve de deixar Casarsa, com a mãe (a relação com o pai já estava estragada), e mudou-se para Roma, vivendo primeiro na periferia e ganhando a vida com explicações e ensino em escolas particulares. A descoberta do mundo do sub-proletariado romano inspirou-lhe - para além de poemas em As Cinzas de Gramsci (1957) e A Religião do Meu Tempo (1961) ( escritos depois de O Rouxinol da Igreja Católica (1943 - 1949, ou seja, antes de As Cinzas de Gramsci) - sobretudo os romances Vadios (1955) e Uma Vida Violenta (1959), que provocaram grande escândalo, mas lhe asseguraram o primeiro êxito literário. Com os antigos colegas da faculdade Francesco Leonetti e Roberto Roversi dirigiu, entre 1955 e 1959, a revista Officina, onde colaboraram, entre outros nomes importantes da militância crítica, Franco Fortini e Paolo Volponi.
Começou entretanto a sua atividade no mundo cinematográfico: colaborou em alguns guiões (entre as quais As Noites de Cabiria de Federico Fellini e La Notte Brava ou O Belo António de Bolognini), e a partir de 1961, realizou vários filmes entre os quais Accattone (1961), Mamma Roma (1962), La Ricotta (1962), Comizi d'Amore (1964), O Evangelho Segundo Mateus (1964),Passarinhos e Passarões (1966), Édipo Rei (1967), Teorema (1968), Medeia (1969), Pocilga (1969) Decameron (1971), Os Contos de Cantuária (1972) As 1001 Noites (1974) e Salò ou os 120 Dias de Sodoma (1975).
Nos anos 60. publicou Il Sogno di Una Cosa (escrito em 1949), mais poemas (Poesia in Forma di Rosa, 1964, Trasumanar e Organizzar, 1971), e foi muito ativo como crítico em vários diários e revistas (entre outras, dirigiu com Alberto Moravia e Alberto Carocci a Nuovi Argomenti), atividade que, depois da coletânea Passione e Ideologia, esteve na origem de muitas publicações, parcialmente póstumas: Empirismo Herético (1972), Escritos Corsários (1975), Descrizioni di Descrizioni (1979).
Para além de várias peças inacabadas que escreveu na juventude e da tradução de cássicos (Ésquilo, Plauto), a sua produção teatral é composta por seis tragédias, cinco delas escritas em 1966: Calderón, Afabulação, Pílades, Pocilga, Orgia e Besta de Estilo que começou a escrever em 1966 e prosseguiu até 1973, tendo ficado inacabada.
Pier Paolo Pasolini morreu assassinado, em Ostia, em 1975.

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