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Obras de Manuel João Gomes – Volume I

Almanaque dos Espelhos | Os Segredos da Jacinta | Brinquedo Electrónico Essencial

de Manuel João Gomes
Editor: Companhia das Ilhas, novembro de 2021 ‧
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«(…) É, pois, muito natural que no caleidoscópico Almanaque dos Espelhos publicado em 1980 - e que inaugura este presente volume - esteja muito presente todo esse lastro anterior, bem como as marcas inconfundíveis de uma erudição esclarecida que convoca a inspiração de autores aparentemente díspares para os colocar em diálogo. Entre si e com o próprio, a pretexto de umas variações narcísicas.

Os Segredos da Jacinta traz-nos tudo isso, e mais alguma coisa: porventura um acentuado tom de paródia. Esta sátira do nosso sátiro é publicada em 1982, o ano em que o Papa veio a Fátima (sem revelar o terceiro segredo) em missão de agradecimento por haver sobrevivido a um atentado cometido no ano anterior, em Roma, por um extremista turco - para sobreviver a novo atentado em solo português, desta vez cometido por um padre extremista espanhol. E também o ano em que o porta-contentores Tollan, naufragado em pleno Tejo em Fevereiro de 1980, continua de quilha voltada para o céu mesmo em frente ao Terreiro do Paço, agora já volvido em inédita atracção turística e em parque de estacionamento para gaivotas. Não admira assim que a Jacinta encontre por ali o Peixomem, como o leitor verá.

(…) Curiosamente foi entre a publicação de um e outro volume, mais exactamente em 10 de Junho de 1981, que ocorreu a tragédia do pequeno Alfredo Rampi. Um caso inolvidável. A RAI esteve em directo durante 18 horas consecutivas, com audiências recorde, o presidente italiano deslocou-se ao local, sucederam-se os voluntários e as tentativas de resgate, mas a cada nova tentativa o pequeno Alfredo apenas caía mais e mais. E aí temos o mote do Brinquedo Electrónico Essencial (abreviatura de um título consideravelmente mais extenso, como se descobrirá na ocasião) que foi publicado em 1985 e remata este tríptico com glosas, e até personagens, dos volumes anteriores, por entre esquiroletas, serpentelos e sapombas.»

Jorge Pereirinha Pires, do Prefácio

«13 de Fev. de 1917

Ele voltou. Tornámos a chupar-lhe o coiso e a tirar-lhe a hóstia da coisa, enquanto ele dizia mais ou menos isto:
— Só o Anti-Cristo é que tem disto. E quem não tiver disto não é Anti-Cristo. Mas nada disto é segredo. O segredo é o que eu vou dizer agora. E disse o segredo. Mas, depois de o dizer, ameaçou-me:
— Tu, Jacinta, não vás já escrever o segredo no teu diário, senão estás fodida.
Perguntei:
— Que é que quer dizer com isso?
— Quero dizer o que disse.
Por isso não te conto nada. Sei que ficas triste, mas tenho de me calar. Nem ao meu querido Diário posso confiar este segredo. Um segredo que para mim é latim e de que não consigo entender quase nada.
Disse que voltava para a semana ou para o mês que vem.»

Obras de Manuel João Gomes – Volume I

Almanaque dos Espelhos | Os Segredos da Jacinta | Brinquedo Electrónico Essencial

de Manuel João Gomes

Propriedade Descrição
ISBN: 9789899007567
Editor: Companhia das Ilhas
Data de Lançamento: novembro de 2021
Idioma: Português
Dimensões: 140 x 222 x 14 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 160
Tipo de produto: Livro
Coleção: Obras de Manuel João Gomes
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Contos
EAN: 9789899007567

SOBRE O AUTOR

Manuel João Gomes

Para a história civil: Manuel João Gomes nasceu em Coimbra, em 1948, morreu a 5 de fevereiro de 2007, perto de Viseu. Causa da morte: broncopneumonia. Sofria de Alzheimer. Por volta dos seus 20 anos, está em Lisboa, vindo de terras beirãs. Ex-seminarista, refratário à guerra colonial, clandestino. Na "grande cidade" conhece Vitor Silva Tavares (VST), com quem viria a trabalhar durante muitos anos, de início no magazine & etc, que VST armadilhava no Jornal do Fundão, e depois na & etc-editora. Escreveu quatro livros e um sem número de prefácios/apresentações (alguns em jeito de "átrio"), posfácios, cronologias, notas (algumas manuscritas, como na sua tradução da Alice, de Carroll, na Afrodite), glossários e tanto mais, em obras que traduziu (muitas vezes com a sua companheira, Luiza Neto Jorge), organizou, foi solidário e cúmplice. Traduziu textos teatrais (para a Cornucópia), prosa e poesia, ensaio, testemunhos, história, filosofia. Pelos jornais, sobretudo pelo Público (aqui durante quase uma década), deixou centenas de textos de crítica teatral, que talvez um dia se agrupem em livro para dar a ver uma das mais informadas (e dedicadas) histórias do espetáculo teatral em Portugal. Em 1969, na coletividade lisboeta Campolide Atlético Clube participou no primeiro espetáculo do seu grupo de teatro, O Avançado-Centro Morreu ao Amanhecer. Neste espetáculo, "de vanguarda" e militante, o Manuel João Gomes foi um sibilino "Apresentador/Vagabundo". A partir desta experiência teatral, o Manuel João nunca mais deixou, de uma forma ou de outra, de estar ligado ao fenómeno teatral vivo.

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