O Vôo da Gaivota
SINOPSE
Neste livro, Patrícia fala-nos do triste mundo das drogas, do desencanto e da dor; mas, com o optimismo que lhe é peculiar, dá-nos uma bela lição sobre a importância da persistência e do amor.
EXCERTOS
- Meu chefe Natan não gostou da invasão que fizeram nos seus domínios. Sofremos uma violação e exigimos reparação. Sabemos também que essa invasão foi para atender um pedido de sua filha desencarnada, e que ela estava junto. Não sei por que se interessam por imprestáveis, já que foram lá só para pegá-los.
- Por que chama os toxicômanos de imprestáveis? - Meu pai indagou.
- São outra coisa? - Respondeu ele rindo. - Nem raciocinam mais! Só servem para experiências. Drogados são fracos e inúteis. Não é à toa que, quando se quer vingar de alguns encarnados, incentiva-se-lhes o vício e, se eles tiverem tendência, perdem-se nos tóxicos, tornando-se completamente escravos das drogas e presas fáceis de seus vingadores. Viciados são fantoches, farrapos humanos. Natan não achou ruim terem levado de lá os imprestáveis. Irritou-se por terem entrado lá sem permissão.
- Se eu tivesse pedido permissão, ele deixaria? - Indagou meu pai.
- Entrar lá, não! Mas lhe daria os imprestáveis - respondeu ele, rindo cinicamente.
- Daria mesmo? - Insistiu meu pai, que conversava com ele como orientador encarnado da casa.
- Ora - respondeu ele -, não todos ou nem tantos, talvez lhe desse alguns. É nosso costume atormentar mais ainda os que são do interesse dos bons.
Fez uma pausa.
O que esse desencarnado falou, infelizmente, é o que costuma acontecer; porém, nada é regra geral. Mas é o que ocorre normalmente. Notando que alguém que está em seus domínios é do interesse dos socorristas, querem saber o porquê e o torturam. Às vezes, fazem isso achando que, com esse ato maldoso, vingam-se dos interessados. É sempre feita com cautela a demonstração desse interesse. Logo após a pausa, em que ele observou bem o local, continuou a falar calmamente:
- Deixemos de conversas! Natan exige a devolução de todos e desculpas com pompas. Quer a reparação! Você e seus comparsas devem ir ao Umbral em horário marcado e, na frente dos convidados dele, devem se desculpar.
- Volte e diga a Natan que não quisemos afrontá-lo. Mas, por circunstâncias particulares e justas, tivemos que ir lá. Não lhe devolveremos nenhum dos que nos pediram abrigo e, infelizmente, não faremos o que ele quer.
Todos nós, presentes, tanto os encarnados freqüentadores quanto os desencarnados, sabíamos que Natan, por meio de uma ligação com o desencarnado que falava, estava vendo e ouvindo o que ocorria na reunião. Mas, como ele mandou recado, recebeu resposta para que o portador a levasse até ele. O desencarnado irritou-se com o que ouviu; porém, controlou-se e respondeu:
- Quero deixar claro que ninguém estava lá obrigado. Se existiam alguns presos foi por não cumprirem obrigações. Vocês estão arrumando confusão. Vou embora e darei o recado.
Saiu de perto da médium. Esse desencarnado falou a verdade. No Túnel Negro ninguém permanecia nos seus domínios obrigado. Os viciados iam lá à procura da droga. Os toxicômanos submetem-se aos piores vexames e situações humilhantes para obter o objeto de seus vícios.
O outro que viera junto, o que observava tudo enquanto ele falava, chegou perto de um dos trabalhadores e pediu:
- Será que vocês não me abrigariam? Gostei daqui, quero ficar.
- Certamente que sim.
Ao se afastar da médium, esse desencarnado procurou pelo amigo e o viu na fila dos que iam para a colônia, como socorridos. Olhou para ele e não falou nada. Saiu do Centro Espírita e foi cumprir a tarefa que lhe foi imposta por Natan.
Como era previsto, Natan não gostou da resposta. No dia seguinte, preparou os seus servidores direito, armou-os e ordenou que fossem ao Centro Espírita e o invadissem. Deu ordem para expulsarem todos que lá se encontravam e quebrar tudo. Ele não foi junto, ficou no Túnel Negro.
Artur, prevendo o ataque, organizou a defesa do posto e do Centro Espírita e aguardaram tranqüilos. Tentaram realmente invadir, mas, quando estavam perto, Artur e os companheiros saíram e foram se encontrar com eles, dominando-os pela força mental, imobilizando-os. Foram levados para o pátio, desarmados e depois foram todos encaminhados para dentro do posto, numa sala própria. Voltaram ao normal, Artur conversou com eles. Prosearam durante horas. Puderam perguntar sobre tudo, Artur os esclarecia. Viram a colônia, pela tela, e lhes foram oferecidos socorro médico e abrigo. Depois, Artur abriu a porta da sala e disse:
- Saiam os que quiserem, só que irão sem as armas. Os que quiserem ficar conosco serão bem-vindos.
Muitos estavam indecisos. Se voltassem, seria como fracassados, não tendo cumprido a tarefa que lhes fora imposta. Temiam o chefe, mas gostavam da vida que levavam e não queriam mudar. Foram poucos os que gostaram do que lhes foi oferecido por Artur, em nome de todos os trabalhadores do Centro. Muitos dos desencarnados que vagam pelo Umbral não têm idéia de outra forma de vida desencarnada e, ao conhecer, aceitam, querem essa mudança. Outros, indiferentes, querem mesmo é continuar como estão. Alguns ficaram na sala, a maioria saiu. Muitos destes foram para o Umbral, iriam vagar sem rumo, não tinham coragem de voltar ao Túnel Negro, temiam Natan. Outros, mais corajosos, voltaram para lá, e ficamos sabendo depois que não foram castigados. Os que permaneceram querendo socorro foram encaminhados para a colônia, para a Escola de Regeneração. Suas armas, feitas do mesmo material que constitui nosso perispírito, foram destruídas.
Natan mandou dois de seus servidores, de sua confiança, para ficarem perto de meu pai e estes trouxeram outros dois desencarnados viciados, que foram induzidos a pensar que meu pai iria lhes dar drogas. Desencarnados viciados têm fluidos pesados e angustiantes. Artur levou os dois viciados para o posto do Centro, onde receberam os primeiros socorros, sendo orientados na reunião seguinte, da mesma forma que Walter, e com o mesmo êxito. Artur fez um pequeno esquema especial de proteção aos médiuns e freqüentadores do Centro, para que não fossem atingidos pelas vibrações dos seguidores de Natan, como também para as pessoas que cercam meu pai e os meus familiares. Os outros dois, meu genitor convidou-os para ficarem com ele. Seguiram-no de perto, por dias.
Natan, vendo seus dois melhores seguidores em perigo, chamou-os de volta. O perigo era de que se convertessem. Meu pai ora, medita, lê e faz com que os desencarnados que estão junto dele escutem. Trata-os com bondade, porém com firmeza, e não aceita suas interferências. Apesar disso cansá-lo muito, tem de estar vigilante 24 horas por dia. E essa pressão o tem feito crescer, porque esse "orai e vigiai" o faz estar em vibração maior, que atinge os desencarnados de forma diferente, levando-os a refletir e a pensar em Deus.
Natan veio encontrar-se com meu pai. Esperou-o à noite, perto do Centro Espírita, e deu recado a um dos guardas que queria falar com ele. Meu pai foi ao seu encontro.
- Você é um feiticeiro terrível! - Disse Natan. - Não quero que nenhum dos meus companheiros seja influenciado por você. Quero uma reparação sua e tudo ficará por isso mesmo. Vá ao Túnel Negro e me peça desculpas. Abro mão do resto.
A palavra "feiticeiro" é dada para aquele que tem força mental e que tanto faz o bem como pode fazer o mal. E em tom de desprezo, querendo ofender, desencarnados que temporariamente estão seguindo o mal gostam de chamar meu pai assim, como também de indiano, porque ele, em muitas encarnações, teve a Índia como berço.
- Você tem me observado - respondeu meu pai -, deve saber que, sempre que erro, peço perdão de coração. Não é por orgulho que não lhe peço, pois não sou orgulhoso. Levo muito a sério o ato de me desculpar. Quando o faço, é porque entendo que errei e procuro não me desculpar pela segunda vez pelo mesmo ato. Isso porque, reconhecendo meu erro, me esforço para não errar mais. Não me arrependi por ter ido ao Túnel Negro e libertado não só o desencarnado, que foi o motivo do socorro, mas todos os que quiseram nosso auxílio. Faria de novo, por isso, em respeito a você, não posso me desculpar.
Para nos reconciliarmos com alguém, mesmo não sendo culpado, não nos custa pedir desculpas. Meu pai, com essa atitude, estava querendo ajudar Natan. Tentava fazer com que esse espírito se voltasse para Deus.
- Atormentarei você! - Exclamou ele.
- É um direito seu - respondeu meu pai. - Convido-o a ficar comigo. Só que eu também tenho direitos. Você tentará me atormentar, me atingir, eu me esforçarei para não receber sua influência negativa, como também tentarei transmitir-lhe as minhas sugestões. Terá que me escutar! Será só entre nós dois. O mais forte irá influenciar o outro. E o mais forte será aquele que tiver sua vida, seus pensamentos e suas atitudes baseados na verdade. Que essa verdade não seja produto de nossos desejos, esperança ou ambição, mas, sim, independente do tempo e do espaço.
- Não sou de fugir de desafio. Vou agora ao Túnel Negro tomar umas providências e voltarei. Aguarde-me!
- Não o estou desafiando. Será um prazer conviver com você! Vamos aprender muito um com o outro.
Natan afastou-se, já havia perdido muitos dos seus seguidores e achou que só ele estaria apto a dar uma lição merecida no encarnado que, em sua opinião, o desafiara. Natan estava com raiva de todos do grupo, mas, com os desencarnados, sabia por antecipação que não podia com eles. Com meu pai era diferente, ele estava na carne, sujeito a muitos condicionamentos e melindres devido às necessidades e funções do corpo físico, sendo assim mais fácil de atingir e prejudicar. Achou que, atingindo o encarnado, atingiria todo o grupo. Organizou tudo para que o Túnel Negro continuasse a funcionar sem ele. No outro dia, foi ao encontro de meu pai e o acompanhou de perto. Meu genitor continuou com sua vida normal de trabalhador nos planos físico e espiritual. Natan não ficou sendo obsessor de meu pai, talvez curioso e com raiva no momento, quis conhecer como era o dia-a-dia de uma pessoa tão diferente das com que convivera.
Natan pressionava meu pai. Forçava-o a pensar em coisas mundanas para que baixasse a vibração. Meu pai pensava em coisas superiores e forçava Natan a pensar as mesmas coisas. Ele sentia no pensamento as sugestões e desejos mundanos. Porém, mostrava mentalmente a Natan a estupidez e a mediocridade daqueles que usam as necessidades e funções do mundo físico como fins de suas existências. À noite, meu pai, desligado do corpo físico, ia para seu trabalho e Natan ia junto. Encaminhava-se ao posto do Centro, cuidava dos doentes, conversava com os socorridos, e ele ao seu lado. E foi assim por muito tempo, até que Natan começou a se interessar pelo trabalho realizado no posto e começou a falar de si. Atenciosamente meu pai o escutou.
Natan foi médico, quando encarnado. Querendo enriquecer, usou a medicina somente como profissão para ganhar dinheiro. O trabalhador faz jus ao seu salário, mas nenhuma profissão deve só visar ao lucro material, mas sim fazer por meio dela todo o bem possível. Médicos lidam com dores e devem ser mais humanitários. Trabalhar, sim, pelo sustento material, mas não esquecer de fazer aos outros o que queria que lhe fizessem. Natan fez muitos abortos, dava receitas de remédios proibidos, desde que lhe pagassem a consulta. Mas a desencarnação chegou e ele se viu diante de muitos inimigos que queriam vingança. A desencarnação o apavorou demais, primeiro porque era ateu, segundo porque aquele bando o atormentava sem poder destruí-lo. Queriam vingar-se por tê-los impedido de reencarnar e outros por não terem sido atendidos porque não podiam remunerá-lo. Estava irado quando foi tirado de seus perseguidores. Uns desencarnados, moradores de uma cidade umbralina, vieram e o levaram. O chefe dessa cidade sabia quem era ele, mas deixou que sofresse por uns tempos para que ficasse lhe devendo obrigação. Natan não é o nome verdadeiro dele, escolheu esse cognome tempos depois, talvez para impor mais respeito a seus inferiores. Levado à cidade umbralina, o chefe conversou com ele e lhe ofereceu abrigo em troca de seu trabalho como médico. Natan não era ocioso, sempre foi trabalhador. Aceitou, aliviado por ficar livre do bando que o perseguia, e aprendeu muitas maldades. O chefe desse local, querendo organizar um lugar especializado em tóxicos, fundou o Túnel Negro e o colocou para administrá-lo. Com o passar dos anos, o chefe se desinteressou pelo lugar e Natan ficou sendo o senhor absoluto.
De fato, o Túnel Negro não força ninguém a ficar lá e nem seus moradores saem à procura de desencarnados para irem lá. São os viciados desencarnados que lá vão em busca das drogas. Só que, depois de serem abrigados, têm de seguir as normas da casa e trabalhar para eles. Existem muitos lugares, abrigos, cidades no Umbral, para onde muitos desencarnados viciados são levados obrigados e permanecem como prisioneiros. Como também há outros lugares, como o Túnel Negro, para onde os desencarnados não são obrigados a ir e nem a permanecer. São lugares de livre acesso. Mas Natan era insatisfeito e isso lhe doía e o atormentava.
Houve troca de fluidos entre eles. Meu pai começou a sentir os de Natan, sentindo doer por dentro. Era um vazio profundo. Um dia meu pai estava meditando e Natan perto, meu genitor disse a ele:
- Natan, é falta de Deus! É a ausência do Pai em você que lhe dói. Você era ateu. Não pode dizer agora que ainda o é. Por que você não se aproxima do Pai?
- Meu chefe Natan não gostou da invasão que fizeram nos seus domínios. Sofremos uma violação e exigimos reparação. Sabemos também que essa invasão foi para atender um pedido de sua filha desencarnada, e que ela estava junto. Não sei por que se interessam por imprestáveis, já que foram lá só para pegá-los.
- Por que chama os toxicômanos de imprestáveis? - Meu pai indagou.
- São outra coisa? - Respondeu ele rindo. - Nem raciocinam mais! Só servem para experiências. Drogados são fracos e inúteis. Não é à toa que, quando se quer vingar de alguns encarnados, incentiva-se-lhes o vício e, se eles tiverem tendência, perdem-se nos tóxicos, tornando-se completamente escravos das drogas e presas fáceis de seus vingadores. Viciados são fantoches, farrapos humanos. Natan não achou ruim terem levado de lá os imprestáveis. Irritou-se por terem entrado lá sem permissão.
- Se eu tivesse pedido permissão, ele deixaria? - Indagou meu pai.
- Entrar lá, não! Mas lhe daria os imprestáveis - respondeu ele, rindo cinicamente.
- Daria mesmo? - Insistiu meu pai, que conversava com ele como orientador encarnado da casa.
- Ora - respondeu ele -, não todos ou nem tantos, talvez lhe desse alguns. É nosso costume atormentar mais ainda os que são do interesse dos bons.
Fez uma pausa.
O que esse desencarnado falou, infelizmente, é o que costuma acontecer; porém, nada é regra geral. Mas é o que ocorre normalmente. Notando que alguém que está em seus domínios é do interesse dos socorristas, querem saber o porquê e o torturam. Às vezes, fazem isso achando que, com esse ato maldoso, vingam-se dos interessados. É sempre feita com cautela a demonstração desse interesse. Logo após a pausa, em que ele observou bem o local, continuou a falar calmamente:
- Deixemos de conversas! Natan exige a devolução de todos e desculpas com pompas. Quer a reparação! Você e seus comparsas devem ir ao Umbral em horário marcado e, na frente dos convidados dele, devem se desculpar.
- Volte e diga a Natan que não quisemos afrontá-lo. Mas, por circunstâncias particulares e justas, tivemos que ir lá. Não lhe devolveremos nenhum dos que nos pediram abrigo e, infelizmente, não faremos o que ele quer.
Todos nós, presentes, tanto os encarnados freqüentadores quanto os desencarnados, sabíamos que Natan, por meio de uma ligação com o desencarnado que falava, estava vendo e ouvindo o que ocorria na reunião. Mas, como ele mandou recado, recebeu resposta para que o portador a levasse até ele. O desencarnado irritou-se com o que ouviu; porém, controlou-se e respondeu:
- Quero deixar claro que ninguém estava lá obrigado. Se existiam alguns presos foi por não cumprirem obrigações. Vocês estão arrumando confusão. Vou embora e darei o recado.
Saiu de perto da médium. Esse desencarnado falou a verdade. No Túnel Negro ninguém permanecia nos seus domínios obrigado. Os viciados iam lá à procura da droga. Os toxicômanos submetem-se aos piores vexames e situações humilhantes para obter o objeto de seus vícios.
O outro que viera junto, o que observava tudo enquanto ele falava, chegou perto de um dos trabalhadores e pediu:
- Será que vocês não me abrigariam? Gostei daqui, quero ficar.
- Certamente que sim.
Ao se afastar da médium, esse desencarnado procurou pelo amigo e o viu na fila dos que iam para a colônia, como socorridos. Olhou para ele e não falou nada. Saiu do Centro Espírita e foi cumprir a tarefa que lhe foi imposta por Natan.
Como era previsto, Natan não gostou da resposta. No dia seguinte, preparou os seus servidores direito, armou-os e ordenou que fossem ao Centro Espírita e o invadissem. Deu ordem para expulsarem todos que lá se encontravam e quebrar tudo. Ele não foi junto, ficou no Túnel Negro.
Artur, prevendo o ataque, organizou a defesa do posto e do Centro Espírita e aguardaram tranqüilos. Tentaram realmente invadir, mas, quando estavam perto, Artur e os companheiros saíram e foram se encontrar com eles, dominando-os pela força mental, imobilizando-os. Foram levados para o pátio, desarmados e depois foram todos encaminhados para dentro do posto, numa sala própria. Voltaram ao normal, Artur conversou com eles. Prosearam durante horas. Puderam perguntar sobre tudo, Artur os esclarecia. Viram a colônia, pela tela, e lhes foram oferecidos socorro médico e abrigo. Depois, Artur abriu a porta da sala e disse:
- Saiam os que quiserem, só que irão sem as armas. Os que quiserem ficar conosco serão bem-vindos.
Muitos estavam indecisos. Se voltassem, seria como fracassados, não tendo cumprido a tarefa que lhes fora imposta. Temiam o chefe, mas gostavam da vida que levavam e não queriam mudar. Foram poucos os que gostaram do que lhes foi oferecido por Artur, em nome de todos os trabalhadores do Centro. Muitos dos desencarnados que vagam pelo Umbral não têm idéia de outra forma de vida desencarnada e, ao conhecer, aceitam, querem essa mudança. Outros, indiferentes, querem mesmo é continuar como estão. Alguns ficaram na sala, a maioria saiu. Muitos destes foram para o Umbral, iriam vagar sem rumo, não tinham coragem de voltar ao Túnel Negro, temiam Natan. Outros, mais corajosos, voltaram para lá, e ficamos sabendo depois que não foram castigados. Os que permaneceram querendo socorro foram encaminhados para a colônia, para a Escola de Regeneração. Suas armas, feitas do mesmo material que constitui nosso perispírito, foram destruídas.
Natan mandou dois de seus servidores, de sua confiança, para ficarem perto de meu pai e estes trouxeram outros dois desencarnados viciados, que foram induzidos a pensar que meu pai iria lhes dar drogas. Desencarnados viciados têm fluidos pesados e angustiantes. Artur levou os dois viciados para o posto do Centro, onde receberam os primeiros socorros, sendo orientados na reunião seguinte, da mesma forma que Walter, e com o mesmo êxito. Artur fez um pequeno esquema especial de proteção aos médiuns e freqüentadores do Centro, para que não fossem atingidos pelas vibrações dos seguidores de Natan, como também para as pessoas que cercam meu pai e os meus familiares. Os outros dois, meu genitor convidou-os para ficarem com ele. Seguiram-no de perto, por dias.
Natan, vendo seus dois melhores seguidores em perigo, chamou-os de volta. O perigo era de que se convertessem. Meu pai ora, medita, lê e faz com que os desencarnados que estão junto dele escutem. Trata-os com bondade, porém com firmeza, e não aceita suas interferências. Apesar disso cansá-lo muito, tem de estar vigilante 24 horas por dia. E essa pressão o tem feito crescer, porque esse "orai e vigiai" o faz estar em vibração maior, que atinge os desencarnados de forma diferente, levando-os a refletir e a pensar em Deus.
Natan veio encontrar-se com meu pai. Esperou-o à noite, perto do Centro Espírita, e deu recado a um dos guardas que queria falar com ele. Meu pai foi ao seu encontro.
- Você é um feiticeiro terrível! - Disse Natan. - Não quero que nenhum dos meus companheiros seja influenciado por você. Quero uma reparação sua e tudo ficará por isso mesmo. Vá ao Túnel Negro e me peça desculpas. Abro mão do resto.
A palavra "feiticeiro" é dada para aquele que tem força mental e que tanto faz o bem como pode fazer o mal. E em tom de desprezo, querendo ofender, desencarnados que temporariamente estão seguindo o mal gostam de chamar meu pai assim, como também de indiano, porque ele, em muitas encarnações, teve a Índia como berço.
- Você tem me observado - respondeu meu pai -, deve saber que, sempre que erro, peço perdão de coração. Não é por orgulho que não lhe peço, pois não sou orgulhoso. Levo muito a sério o ato de me desculpar. Quando o faço, é porque entendo que errei e procuro não me desculpar pela segunda vez pelo mesmo ato. Isso porque, reconhecendo meu erro, me esforço para não errar mais. Não me arrependi por ter ido ao Túnel Negro e libertado não só o desencarnado, que foi o motivo do socorro, mas todos os que quiseram nosso auxílio. Faria de novo, por isso, em respeito a você, não posso me desculpar.
Para nos reconciliarmos com alguém, mesmo não sendo culpado, não nos custa pedir desculpas. Meu pai, com essa atitude, estava querendo ajudar Natan. Tentava fazer com que esse espírito se voltasse para Deus.
- Atormentarei você! - Exclamou ele.
- É um direito seu - respondeu meu pai. - Convido-o a ficar comigo. Só que eu também tenho direitos. Você tentará me atormentar, me atingir, eu me esforçarei para não receber sua influência negativa, como também tentarei transmitir-lhe as minhas sugestões. Terá que me escutar! Será só entre nós dois. O mais forte irá influenciar o outro. E o mais forte será aquele que tiver sua vida, seus pensamentos e suas atitudes baseados na verdade. Que essa verdade não seja produto de nossos desejos, esperança ou ambição, mas, sim, independente do tempo e do espaço.
- Não sou de fugir de desafio. Vou agora ao Túnel Negro tomar umas providências e voltarei. Aguarde-me!
- Não o estou desafiando. Será um prazer conviver com você! Vamos aprender muito um com o outro.
Natan afastou-se, já havia perdido muitos dos seus seguidores e achou que só ele estaria apto a dar uma lição merecida no encarnado que, em sua opinião, o desafiara. Natan estava com raiva de todos do grupo, mas, com os desencarnados, sabia por antecipação que não podia com eles. Com meu pai era diferente, ele estava na carne, sujeito a muitos condicionamentos e melindres devido às necessidades e funções do corpo físico, sendo assim mais fácil de atingir e prejudicar. Achou que, atingindo o encarnado, atingiria todo o grupo. Organizou tudo para que o Túnel Negro continuasse a funcionar sem ele. No outro dia, foi ao encontro de meu pai e o acompanhou de perto. Meu genitor continuou com sua vida normal de trabalhador nos planos físico e espiritual. Natan não ficou sendo obsessor de meu pai, talvez curioso e com raiva no momento, quis conhecer como era o dia-a-dia de uma pessoa tão diferente das com que convivera.
Natan pressionava meu pai. Forçava-o a pensar em coisas mundanas para que baixasse a vibração. Meu pai pensava em coisas superiores e forçava Natan a pensar as mesmas coisas. Ele sentia no pensamento as sugestões e desejos mundanos. Porém, mostrava mentalmente a Natan a estupidez e a mediocridade daqueles que usam as necessidades e funções do mundo físico como fins de suas existências. À noite, meu pai, desligado do corpo físico, ia para seu trabalho e Natan ia junto. Encaminhava-se ao posto do Centro, cuidava dos doentes, conversava com os socorridos, e ele ao seu lado. E foi assim por muito tempo, até que Natan começou a se interessar pelo trabalho realizado no posto e começou a falar de si. Atenciosamente meu pai o escutou.
Natan foi médico, quando encarnado. Querendo enriquecer, usou a medicina somente como profissão para ganhar dinheiro. O trabalhador faz jus ao seu salário, mas nenhuma profissão deve só visar ao lucro material, mas sim fazer por meio dela todo o bem possível. Médicos lidam com dores e devem ser mais humanitários. Trabalhar, sim, pelo sustento material, mas não esquecer de fazer aos outros o que queria que lhe fizessem. Natan fez muitos abortos, dava receitas de remédios proibidos, desde que lhe pagassem a consulta. Mas a desencarnação chegou e ele se viu diante de muitos inimigos que queriam vingança. A desencarnação o apavorou demais, primeiro porque era ateu, segundo porque aquele bando o atormentava sem poder destruí-lo. Queriam vingar-se por tê-los impedido de reencarnar e outros por não terem sido atendidos porque não podiam remunerá-lo. Estava irado quando foi tirado de seus perseguidores. Uns desencarnados, moradores de uma cidade umbralina, vieram e o levaram. O chefe dessa cidade sabia quem era ele, mas deixou que sofresse por uns tempos para que ficasse lhe devendo obrigação. Natan não é o nome verdadeiro dele, escolheu esse cognome tempos depois, talvez para impor mais respeito a seus inferiores. Levado à cidade umbralina, o chefe conversou com ele e lhe ofereceu abrigo em troca de seu trabalho como médico. Natan não era ocioso, sempre foi trabalhador. Aceitou, aliviado por ficar livre do bando que o perseguia, e aprendeu muitas maldades. O chefe desse local, querendo organizar um lugar especializado em tóxicos, fundou o Túnel Negro e o colocou para administrá-lo. Com o passar dos anos, o chefe se desinteressou pelo lugar e Natan ficou sendo o senhor absoluto.
De fato, o Túnel Negro não força ninguém a ficar lá e nem seus moradores saem à procura de desencarnados para irem lá. São os viciados desencarnados que lá vão em busca das drogas. Só que, depois de serem abrigados, têm de seguir as normas da casa e trabalhar para eles. Existem muitos lugares, abrigos, cidades no Umbral, para onde muitos desencarnados viciados são levados obrigados e permanecem como prisioneiros. Como também há outros lugares, como o Túnel Negro, para onde os desencarnados não são obrigados a ir e nem a permanecer. São lugares de livre acesso. Mas Natan era insatisfeito e isso lhe doía e o atormentava.
Houve troca de fluidos entre eles. Meu pai começou a sentir os de Natan, sentindo doer por dentro. Era um vazio profundo. Um dia meu pai estava meditando e Natan perto, meu genitor disse a ele:
- Natan, é falta de Deus! É a ausência do Pai em você que lhe dói. Você era ateu. Não pode dizer agora que ainda o é. Por que você não se aproxima do Pai?
DETALHES
| Propriedade | Descrição |
|---|---|
| ISBN: | 9788572530323 |
| Editor: | PETIT |
| Data de Lançamento: | Janeiro de 1996 |
| Idioma: | Português, Português do Brasil |
| Dimensões: | 150 x 230 x 20 mm |
| Encadernação: | Capa mole |
| Páginas: | 217 |
| Tipo de produto: | Livro |
| Classificação Temática: |
Livros em Português
>
Desenvolvimento Pessoal e Espiritual
>
Autoajuda
|
| EAN: | 9788572530323 |
| Idade Mínima Recomendada: | Não aplicável |
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