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O Vento Assobiando nas Gruas

de Lídia Jorge
Editor: Dom Quixote, setembro de 2019 ‧
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O Vento Assobiando nas Gruas é um livro ancorado sobre dois mundos - um mundo contemporâneo, envolvido com a transformação acelerada da Terra, movido pelo instinto selvagem de futuro, e um outro mais antigo, onde a história de uma velha fábrica se cruza com a sorte de uma família numerosa, recém-chegada de África.

Dois mundos, à primeira vista irreconciliáveis, e no entanto, a aproximá-los, por obra do acaso, caminha desde a primeira página a figura de Milene Leandro, a rapariga singular, para quem tudo nasce pela primeira vez, e que, na simplicidade do seu juízo, acabará por obrigar os outros à revelação de si mesmos.

Figura central, é precisamente através das mãos de Milene que o leitor entra na primeira página, e é ainda com ela que encerra a última, depois de ter conhecido a suas expensas o caso de um amor, de um crime e de um silêncio para sempre selado.

Por isso mesmo, o seu olhar desprevenido sobre a vida, o bem e o mal, assim como a avaliação que faz deste mundo, constituem a verdadeira matéria orgânica que constrói este livro.
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Livros que deram filmes [veja os trailers]

Num verão marcado pelo estrépito doloroso do que se passa no mundo, estas histórias oferecem uma pausa, não por fugirem da complexidade, mas por a abordarem com pormenor, empatia e humanidade. São livros que se escutam mais do que se leem e que, no salto para o ecrã, não perdem essa escuta.
Cada uma destas narrativas, seja na investigação insólita de um grupo de reformados, na intimidade feroz entre dois adolescentes, ou na travessia entre heranças coloniais e afetos improváveis, revela o que tantas vezes permanece oculto: são as hesitações, as ausências e os pequenos gestos subtis que mudam tudo. Histórias assim não servem apenas para entreter: trazem-nos de volta ao essencial e talvez, por isso, sejam a melhor companhia para os dias lentos das férias. O Clube do Crime das Quintas-Feiras, de Richard Osman É raro encontrar um policial que consiga, ao mesmo tempo, entreter, emocionar e surpreender com tanta elegância. O Clube do Crime das Quintas-Feiras dá-nos isso com aquele humor britânico que nunca precisa de se anunciar e personagens que conquistam porque não querem provar nada a ninguém. Já viveram o suficiente para saber que a verdade não está nos grandes gestos, mas nos pormenores que passam despercebidos.
A leitura avança com ritmo e leveza, mas o que realmente seduz é a forma como o autor nos convida a ver o mundo pelos olhos de quem muitos já não escutam. Há crime, sim, e mistério, pistas falsas, surpresas bem colocadas, mas é a humanidade que fica. Cada capítulo é um convite para abrandar e prestar atenção ao que parece banal. Ao silêncio de uma frase, à pontaria de um olhar, ao passado que nunca desaparece por completo.
O sucesso do livro foi tal que chegou ao ecrã, com uma adaptação disponível na Netflix. Um filme que acerta no tom: cómica, inteligente e com o charme britânico no lugar certo. Uma excelente porta de entrada para quem ainda não conhece este grupo de detetives pouco convencionais, mas com um talento surpreendente para ver o que escapa aos olhos dos outros.
Onde ver?: Netflix
Data de estreia: 28 de agosto de 2025 QUERO LER!» Veja aqui o trailer do filme O Vento Assobiando nas Gruas, de Lídia Jorge É num Algarve de luz oblíqua e fábricas devolutas que se escuta, ténue, mas persistente, o vento do passado. O Vento Assobiando nas Gruas não é apenas um título poético: é a vibração que percorre todo o romance, uma história na qual o encontro entre duas famílias, duas realidades e dois modos de existir obriga a escutar o que tantas vezes se deseja ignorar.
Milene Leandro, a jovem que vê o mundo como quem o descobre pela primeira vez, move-se entre o luto e a revelação. Depois da morte da avó, foge para o único lugar onde sente alguma forma de pertença: uma antiga fábrica de conservas, vestígio da prosperidade familiar. Ali encontra os Mata, cabo-verdianos instalados entre paredes frias e promessas por cumprir. Da convivência improvável nasce um laço feito de ternura, diferença e descompasso.
Lídia Jorge escreve com a delicadeza de quem sabe que a linguagem não basta para dizer tudo. O que está em jogo não é apenas a memória, mas o modo como esta nos molda, e como, por vezes, somos levados a pactuar com o que preferíamos ignorar.
A adaptação ao cinema, realizada por Jeanne Waltz, não tenta encaixar o romance numa narrativa explicativa, pelo contrário, respira com ele. Filmado entre Tavira e Vila Real de Santo António, o filme devolve a fisicalidade do espaço, o vazio da fábrica, os gestos contidos das personagens. Com interpretações notáveis de Rita Cabaço e Milton Lopes, e com a música de Dino d’Santiago a pairar como uma oração, a versão cinematográfica amplia a vibração emocional do livro sem lhe roubar a subtileza. Não se trata de um drama convencional: é uma fábula contemporânea sobre pertença, desigualdade e aquilo que acontece quando uma jovem, tida como frágil, se torna a única capaz de ver os outros como eles realmente são, e de os obrigar, ainda que sem querer, a fazer o mesmo.
Onde ver?: Rakuten TV
Data de estreia: 2023 QUERO LER!» Veja aqui o trailer do filme Pessoas Normais, de Sally Rooney Sally Rooney escreve sem artifício nem pressa. Com um estilo contido, clínico, capta o desconforto de crescer e de tentar amar quando não se sabe bem como se habita o próprio corpo. Os diálogos parecem banais, mas expõem feridas; os encontros parecem simples, mas são difíceis de ignorar.
A relação entre Connell e Marianne não segue um guião nem corresponde à expectativa de uma história de amor: é instável, crua, profundamente humana. O que separa estas duas personagens parece óbvio: ele, popular e inseguro, habituado a adaptar-se; ela, solitária e ferozmente lúcida, habituada a proteger-se, mas há entre os dois uma intimidade feita de mal-entendidos, gestos que falham, palavras que não chegam. O romance vive dessa fricção: do que não se consegue dizer e, ainda assim, se sente com violência.
A série, disponível na Prime Video, é uma extensão natural deste universo. Fiel ao tom do livro, acrescenta-lhe corpo. Ver Connell e Marianne ganhar forma no ecrã é uma experiência íntima, quase tanto como a leitura. Para quem já leu, é uma segunda respiração da mesma história; para quem ainda não leu, pode ser o impulso certo para mergulhar. Em qualquer dos sentidos, vale a pena.
Onde ver?: Prime Video
Data de estreia: 2020 QUERO LER!» Veja aqui o trailer da série

O Vento Assobiando nas Gruas

de Lídia Jorge

Propriedade Descrição
ISBN: 9789722068284
Editor: Dom Quixote
Data de Lançamento: setembro de 2019
Idioma: Português
Dimensões: 155 x 235 x 29 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 464
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789722068284

Soberba a autora e a obra

AC

Li este livro a primeira vez quando era ainda estudante, requisitado à biblioteca, e já na altura, inexperiente, o achei soberbo. Marcou-me tanto... Agora, já na idade madura e após tantas mais leituras, esta história densa e tão bem tecida volta a impressionar-me. Os temas são intemporais, até de particular atualidade, e as personagens revelam como a autora conhece profundamente o género humano. Surpreende-me que Lídia Jorge continue num pedestal relativamente discreto do panorama cultural nacional quando é um dos autores maiores da literatura portuguesa. A sua escrita é irrepreensível, a sua sensibilidade tocante, os seus enredos de um engenho simultaneamente distinto e realista. Uma Senhora, ela. Um monumento, o livro.

SOBRE O AUTOR

Lídia Jorge

Romancista e contista portuguesa. Nasceu em 1946, no Algarve. Viveu os anos mais conturbados da Guerra Colonial em África. Foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social. É professora do ensino secundário e publica regularmente artigos na imprensa. O tema da mulher e da sua solidão é uma preocupação central da obra de Lídia Jorge, como, por exemplo, em Notícia da Cidade Silvestre (1984) e A Costa dos Murmúrios (1988). O Dia dos Prodigíos (1979), outro romance de relevo, encerra uma grande capacidade inventiva, retratando o marasmo e a desadaptação de uma pequena aldeia algarvia. O Vento Assobiando nas Gruas (2002) é mais um romance da autora e aborda a relação entre uma mulher branca com um homem africano e o seu comportamento perante uma sociedade de contrastes. Este seu livro venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores em 2003.
Venceu o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas 2020.
Venceu o Prémio Pessoa de 2025.

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