O Dom

de Jorge Reis-Sá
Editor: Editorial Magnólia, outubro de 2007 ‧

[...] Porque foi assim: naquele ar frio de Inverno, com as nuvens a voarem baixo e com o vento a alta velocidade, eles desapareceram. Ou transformaram-se. Isso, sim, ou se transformaram em algo de impossível e incompreensível. Eles foram contas no chão, negras de tanta luz no seu início, baças de tão negras no final.

Os corpos a decomporem-se para dentro, portanto. A definharem. A morte, o desaparecimento, chamem-lhe apenas agonia e dor última de quem está a ser comido vivo pelo próprio universo. Os corpos foram inseridos dentro do seu ponto mais pequeno e brilhante e, por uma última e única vez, explosivos na perfeição de uma conta. Uma conta, sim. Daquelas que se colocam nos colares e nas pulseiras. Sim, uma esfera negra e baça, pequena e única, com um pequeno buraco no seu centro, pronta para que algo a trespassasse e unisse.

Ninguém saiu, diga-se. E eles todos desapareceram na sua conta. Ficou apenas, que eu tenha conseguido ver por estarem suficientemente perto da minha visão, a mãe, a filha, os recém-casados separados por uns trinta centímetros e o rapaz, mais perto, como se estendesse a mão que já não tinha a quem queria salvar.

A mais pura verdade aquela a que eu assisti deste segundo andar e que me fez pasmar, vomitar, maravilhar, imaginar o horror mais vezes e mais vezes e mais vezes. E por fim aceitar, perceber, sorrir, querer entender. As pessoas que estavam lá fora, pelo menos as do meu ângulo de visão - que se estendia desde o centro comercial, adro e avenida abaixo, até ao rio - desapareceram em contas. E eu cá fiquei protegido não sabia ainda porquê, com os gritos histéricos daqueles que tiveram a sorte de, no preciso momento em que o vento trouxe com mais força as nuvens baixas, se encontrarem às compras ou em descanso dentro do centro comercial.

Mas mais ainda. Porque éramos pasmo e mais pasmo quando vimos, todos e com os olhos que um dia também serão outra coisa, um homem. Vinha caminhando avenida acima. E, silente e mais pasmado do que nós, coleccionando cada conta que encontrava na mão, acariciando-a como se se tratasse do mais precioso tesouro, incompreensivelmente calmo, incompreensivelmente sem compreender.

Pegou nas contas dos recém-casados, eu vi. Pegou depois nos corpos feitos esfera da mãe e da filha. Traria já uma mão cheia de contas quando levantou a cabeça, me fitou olhos nos olhos para dentro do centro comercial. Deu mais dois passos, ajoelhou uma perna, pegou na conta do rapaz, colocou todo o conjunto em concha nas duas mãos e disse bem alto para que ouvíssemos:

Posso entrar?

Esse homem tinha o dom.

O Dom

de Jorge Reis-Sá

Propriedade Descrição
ISBN: 9789898117038
Editor: Editorial Magnólia
Data de Lançamento: outubro de 2007
Idioma: Português
Dimensões: 158 x 234 x 14 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 168
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789898117038

SOBRE O AUTOR

Jorge Reis-Sá

Jorge Reis-Sá nasceu em Vila Nova de Famalicão em 1977. Licenciado em Biologia, fundou em 1999 as Quasi Edições, que editou até 2009. É consultor editorial de várias instituições e editoras. Estreou-se em 1999 com um livro de poemas. Publicou poesia, contos, crónicas, romances e textos para os mais novos. Destaque-se os romances Todos os Dias e A Definição do Amor, a crónica biográfica Campo dos Bargos – O futebol ou a recuperação semanal da infância, publicada na coleção Retratos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, e os livros de contos A Hipótese de Gaia, com o qual venceu o Grande Prémio do Conto da Associação Portuguesa de Escritores e de poemas Prado do Repouso, vencedor do Prémio da Fundação Inês de Castro, ambos editados n’A Casa dos Ceifeiros. Os seus últimos livros reúnem as entrevistas que fez para a RTP3, sob os títulos Mil Vezes Camões e Mil Vezes Camilo. Vive em Lisboa.

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