Mercado das Madrugadas
SINOPSE
Nesse dia, haverá tempo para pensar, para respirar, para chorar copiosamente por todas as atrocidades cometidas só por excesso de adrenalina, testosterona, estupidez ou maligna estratégia geopolítica. Depois, e só mesmo para quem pode, alguns farão uma sesta. Outra tanta gente tomará um banho. Muitos e muitas serão os e as que limparão o ranho à camisola e ajeitarão a pouca roupa que trazem no corpo. Voltaremos a sair. Daremos o braço a um próximo, a uma vizinha, a um desconhecido, a uma mãe, a uma filha. Sem nenhuma outra razão aparente que não um «estava a ver que nunca mais!», desceremos todas as avenidas e chegaremos a esta praça. A praça que é uma escola, que é uma troca, que é o lugar para todas as classes e para todas as possibilidades. Trocaremos impressões. Trocaremos acepipes. Trocaremos propostas para os próximos cinquenta anos de Abril. Ocuparemos as ruas, que é tudo o que precisamos para as transformar. E, sem nos darmos conta, de longe chegar-nos-á aquele som dos passos arrastados na gravilha, aquele ritmo moreno que toda a gente conhece. O passo faz-se compasso, o cante desfaz-se em manifestação. A manifestação desarruma-se em marcha. A marcha dissolve-se no ar mas não se desvanece. A sua vibração mantém-se no ar e nas ruas e volta a lançar na música o mote! A noite cairá.
Convocamos a vossa presença com o pôr do sol para um primeiro minuto do vosso silêncio, enquanto respiramos esta ideia memorável de uma revolução precedida de uma greve do mundo.
O Amanhã é inevitável e começa hoje.
DETALHES
| Propriedade | Descrição |
|---|---|
| ISBN: | 9789898349842 |
| Editor: | Bicho do Mato |
| Data de Lançamento: | maio de 2025 |
| Idioma: | Português |
| Dimensões: | 128 x 200 x 6 mm |
| Encadernação: | Capa mole |
| Páginas: | 92 |
| Tipo de produto: | Livro |
| Classificação Temática: |
Livros em Português
>
Literatura
>
Teatro (Obra)
|
| EAN: | 9789898349842 |
OPINIÃO DOS LEITORES
A Utopia como Exercício de Liberdade
Pedro Fernandes
Mercado das Madrugadas é um texto que se situa na fronteira entre o teatro, o manifesto político e a literatura. Publicado em 2025, parte de uma premissa simultaneamente utópica e provocadora: imaginar um dia em que toda a humanidade decide parar. O mundo faz greve de si próprio. A partir dessa suspensão do ritmo frenético da vida contemporânea, Patrícia Portela constrói uma reflexão sobre comunidade, democracia, memória e futuro. A maior força do livro reside precisamente na sua capacidade de transformar uma ideia política numa experiência poética. Não estamos perante um romance tradicional, com personagens psicologicamente desenvolvidas ou uma intriga convencional. O texto funciona antes como uma convocatória, quase uma liturgia civil, onde a linguagem procura produzir um efeito performativo: não apenas representar um mundo diferente, mas convidar o leitor a imaginá-lo e, idealmente, a construí-lo. Patrícia Portela escreve com uma musicalidade muito própria. As frases possuem um ritmo oral, frequentemente próximo do discurso teatral, alternando imagens de grande delicadeza com momentos de forte intensidade política. A repetição, a enumeração e a cadência fazem parte da arquitectura do texto, aproximando-o mais de um poema dramático do que de uma narrativa linear. O mercado do título deixa de ser apenas um espaço económico para se tornar um símbolo de encontro. Em vez de mercadorias, trocam-se ideias, afectos, propostas e memórias. O mercado converte-se numa praça pública onde a cidadania recupera o seu significado mais profundo. A madrugada, por sua vez, evoca inevitavelmente o 25 de Abril, funcionando como metáfora permanente da possibilidade de recomeço. O amanhã deixa de ser uma abstracção distante para surgir como uma responsabilidade colectiva. Há igualmente uma crítica evidente ao modelo contemporâneo de produtividade permanente. O livro imagina um momento em que o ser humano recupera o direito ao silêncio, ao descanso e à contemplação. Num tempo dominado pela aceleração, Patrícia Portela propõe a desaceleração como gesto político. Parar deixa de significar passividade; torna-se uma forma de resistência. Contudo, esta opção estética poderá também afastar alguns leitores. Quem procurar uma narrativa tradicional poderá sentir dificuldade em encontrar um enredo contínuo ou personagens com quem estabelecer identificação emocional. O texto privilegia a dimensão alegórica e simbólica em detrimento da construção romanesca clássica. Em certos momentos, o discurso aproxima-se deliberadamente do manifesto, sacrificando alguma ambiguidade literária em favor da clareza da mensagem política. Ainda assim, essa aparente fragilidade faz parte do próprio projecto da autora. Mercado das Madrugadas não pretende contar apenas uma história; pretende criar um espaço de imaginação colectiva. A literatura surge aqui como ensaio para futuros possíveis. No panorama da literatura portuguesa contemporânea, Patrícia Portela continua a afirmar-se como uma das vozes mais experimentais e originais. A sua escrita cruza teatro, filosofia, intervenção cívica e poesia sem se deixar aprisionar por géneros literários rígidos. Mercado das Madrugadas confirma essa singularidade, propondo uma obra onde a estética e a política caminham lado a lado. É um livro breve mas denso, que convida mais à reflexão do que ao entretenimento. Não oferece respostas simples nem soluções prontas; oferece antes uma pergunta essencial: e se parássemos, finalmente, para imaginar em conjunto um mundo diferente? Nesse sentido, o verdadeiro protagonista da obra não é uma personagem, mas a própria comunidade humana e a sua capacidade de reinventar o futuro.
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