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Gargântua & Pantagruel - Volume I

de Rabelais; Ilustração: Gustavo Doré
Editor: E-primatur, maio de 2023 ‧
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RECOMENDADO PELO PLANO NACIONAL DE LEITURA
Gargântua, gigante cujas primeiras referências surgem nos ciclos arturianos, os primeiros romances de cavalaria, recomenda ao seu filho, Pantagruel, que, dados os tempos, se torne num abismo de ciência...

Quando se publicaram os dois primeiros volumes - primeiro Pantagruel e depois, em data incerta, Gargântua - estamos em pleno Renascimento e, contra a Igreja e uma certa moral vigente, os sábios começam a viajar pela Europa para cruzar os mais diversos saberes e a questionar muito daquilo que a doutrina católica dava como inatacável. Recomenda-nos, pois, o texto que não interpretemos estas aventuras no seu sentido literal, mas que percebamos que ela tem múltiplos sentidos. As aventuras dos dois gigantes e dos seus companheiros são um festim de saberes antigos, modernos e fantasiosos.

Pantagruel, na missão de que foi incumbido pelo pai, absorve e partilha conhecimentos, aplicando-os de forma prática e verdadeiramente original numa sátira total à Universidade (Sorbonne), então ainda controlada pela Igreja. Ao mesmo tempo, Pantagruel especializa-se também em comida e bebida - além de todas as outras áreas do saber - o que transforma esta obra numa das mais bem regadas da literatura universal.

O leitor pode ler estas aventuras como um romance de cavalaria, uma narrativa fantástica, um libelo pela liberdade de expressão, uma obra humorística, um receituário diverso, um texto filosófico, um documento histórico, uma crítica (bastante actual) aos extremismos religiosos e morais, bem como às instituições políticas, uma carta de vinhos ou como a base de muito do conhecimento dos nossos tempos. Certo é que não o fará sem um sorriso no rosto e sem que se lhe abra o apetite ou lhe suplique a garganta pelo néctar de Baco.
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Palavras Rebeldes

A literatura é uma construção feita de convenções, repetições e fórmulas. Muitas vezes, um género cristaliza-se ao ponto de se tornar previsível, uma espécie de partitura que o leitor reconhece logo nas primeiras páginas. Mas há livros que recusam essa previsibilidade, rompem o molde, subvertem as regras e reinventam a tradição que herdaram. São textos que mudam não apenas a forma como pensamos um género literário, mas também a maneira como nos aproximamos da leitura. Carmilla, de Sheridan le Fanu Um exemplo precoce desta rebeldia face ao cânone é Carmilla, de Sheridan Le Fanu. Publicado em 1872, vinte e cinco anos antes de Drácula, o romance apresenta a figura do vampiro (neste caso, uma vampira chamada Carmilla), como algo mais complexo do que o simples monstro insaciável que ataca de noite. Carmilla seduz, fascina e perturba, e a relação que estabelece com Laura, a narradora, é atravessada por um desejo insinuado que escapa às normas morais da época e que, ao mesmo tempo, serve de motor ao terror presente na obra. O romance gótico, até então dominado por castelos sombrios e ameaças externas, ganha uma dimensão interior. O medo instala-se no corpo, na intimidade e no desejo proibido. Ao introduzir essa ambiguidade, Le Fanu transforma a narrativa de vampiros num território fértil para pensar o interdito. A sexualidade feminina, a homoafetividade e a diluição das fronteiras entre vítima e predador são alguns dos temas abordados neste romance que não se limita a assustar, mas antes convida o leitor a espreitar o lado obscuro do desejo, aquilo que se queria ocultar e que, de repente, ganha forma na figura da vampira. Carmilla é, nesse sentido, uma narrativa entre o medo e a fascinação, entre a pureza e a transgressão, inaugurando o imaginário moderno do vampiro como criatura simultaneamente erótica e ameaçadora. COMPRO NA WOOK! » Gargântua & Pantagruel - Volume I, de Rabelais François Rabelais já explorava as fronteiras da ficção séculos antes de Le Fanu ter nascido. Gargântua & Pantagruel, publicado entre 1532 e 1564, resiste a qualquer categorização literária convencional. É, ao mesmo tempo, sátira, crónica e fábula grotesca, unindo crítica social e reflexão numa prosa expansiva e inventiva. Os gigantes que dão nome à obra vivem aventuras que oscilam entre a leveza cómica e a erudição rigorosa, mantendo o leitor em permanente surpresa através da escrita polifónica de Rabelais. Quem se aproxima de uma obra do século XVI espera encontrar ordem e disciplina literária, mas em Gargântua & Pantagruel depara-se com liberdade, excesso e multiplicidade de sentidos. Rabelais não se limitou a reinventar um género, pôs em causa a própria noção de enredo, mostrando que a literatura pode ser simultaneamente crítica, ousada e divertida. COMPRO NA WOOK! » A Oeste Nada de Novo, de Erich Maria Remarque Se Rabelais expande e Carmilla insinua, Erich Maria Remarque comprime. Em A Oeste Nada de Novo, publicado em 1929, a guerra deixa de ser palco de heroísmo para se tornar um território de devastação. Até então, o romance de guerra, herdeiro das epopeias antigas, ainda se alimentava de imagens de bravura, de honra e de glória nacional. Remarque desmonta esse imaginário através da voz de Paul Bäumer, um jovem soldado alemão lançado nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. O que o narrador regista não são feitos memoráveis, mas a rotina da lama, da fome e do medo. A morte não tem brilho, é apenas ausência. Ao trocar o tom épico por um tom íntimo, Remarque reconfigura o género bélico. Mostra que a guerra não é grandeza, mas dissolução da juventude e catalisadora de traumas coletivos. Depois dele, nenhum romance de guerra pôde ser escrito, e lido, da mesma forma. A sua escrita abriu espaço ao testemunho e à denúncia, não à celebração.
Em 2022, o livro deu origem a uma série de TV, cujo trailer pode ver aqui abaixo. COMPRO NA WOOK! » O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie Agatha Christie não seguiu o exemplo de Remarque ao matar a ideia de heroísmo. Em vez disso, matou a confiança que o leitor de literatura policial trazia consigo ao iniciar a leitura, sendo O Assassinato de Roger Ackroyd, escrito em 1926, um marco de viragem no género. Até então, os policiais viviam da promessa de clareza, ou seja, o crime era um enigma que o detetive, com lógica impecável, desvendaria no final. O leitor, guiado pela narrativa, tinha a garantia de que, no fim, tudo faria sentido. Mas Christie ousou romper esse pacto tácito com o leitor. Através de um narrador que manipula, omite e engana, a autora de Um Crime no Expresso do Oriente retirou ao leitor a sua segurança fundamental, a de confiar na voz que conta a história. A reviravolta final não é apenas a resolução do crime, é também um choque estrutural, um golpe no género. Depois de Christie, a literatura policial não pôde ser lida com a mesma inocência. Reinventar o género, aqui, significou questionar a relação de confiança entre o leitor e a narrativa. COMPRO NA WOOK! » Se Numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino Décadas mais tarde, Italo Calvino levou ainda mais longe a desconfiança do leitor em relação ao próprio texto. Se numa noite de inverno um viajante, de 1979, não é apenas um romance pós-moderno, é uma meditação sobre o ato de ler. O livro começa quando um leitor se prepara para ler um romance de Calvino, mas esse romance é interrompido. O leitor, dentro do livro, procura continuar e, a cada tentativa, encontra apenas começos de histórias, nunca a sua conclusão. O resultado é um labirinto de inícios, um jogo que transforma a leitura em experiência fragmentada. O género literário, neste caso, não é subvertido, é dissolvido e desfeito em partes. O policial, o romance de espionagem, a narrativa histórica, entre outros estilos presentes no decorrer da trama, surgem apenas como ecos e fragmentos de algo que não tem conclusão. Calvino não oferece apenas um livro, mas uma reflexão sobre todos os livros, a de que ler é sempre começar, nunca terminar. COMPRO NA WOOK! » Se colocarmos estas obras lado a lado, percebemos que reinventar um género não é um gesto único, mas uma multiplicidade de movimentos. Rabelais expande até ao grotesco, Le Fanu insinua o proibido, Remarque desmonta o heroísmo, Christie mina a confiança e Calvino transforma a própria leitura em enigma. Cada um, à sua maneira, recusa o caminho já feito e obriga-nos a reaprender a ler.

Gargântua & Pantagruel - Volume I

de Rabelais; Ilustração: Gustavo Doré

Propriedade Descrição
ISBN: 9789899130104
Editor: E-primatur
Data de Lançamento: maio de 2023
Idioma: Português
Dimensões: 155 x 235 x 46 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 780
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789899130104

O Excesso como Forma de Liberdade

JM

Neste primeiro volume de Gargântua & Pantagruel, François Rabelais constrói uma obra desmedida em todos os sentidos: linguagem, humor, imaginação e crítica. Através das figuras gigantescas de Gargântua e Pantagruel, mistura o grotesco com o erudito, o escatológico com o filosófico, numa celebração caótica da vida e do conhecimento. O livro pode parecer, à primeira vista, um desfile de excessos e episódios absurdos, mas por baixo dessa camada está uma sátira afiada à educação, à religião e às convenções sociais da época. Nada é sagrado — tudo é alvo de riso, distorção e exagero. Exigente e muitas vezes desconcertante, não é leitura imediata. Mas para quem entra no seu ritmo, revela-se uma obra surpreendentemente moderna na forma como desmonta a autoridade e valoriza a liberdade de pensamento.

SOBRE O AUTOR

Rabelais

François Rabelais (1483 ou 1494 - 1553) foi um dos fundadores da moderna literatura francesa. Pouco se sabe sobre a sua infância e a juventude, mas provavelmente seria filho de um senescal e advogado. Terá estudado de acordo com as bases da boa educação do final da Idade Média e ter-se-á feito monge franciscano. Vê serem-lhe apreendidos livros de grego, na altura uma língua considerada perigosa pela Sorbonne (então dominada pela Igreja), pois permitia livres interpretações do Novo Testamento. Consegue um indulto papal que lhe permite continuar os estudos, juntando-se à Ordem Beneditina, menos fechada à cultura profana. Dentro da ordem trabalha como secretário de homens de letras e cultura que o protegem. Sem autorização, abandona o hábito e vive durante uma temporada em Paris, onde inicia estudos de Medicina e se envolve numa relação com uma viúva com a qual tem dois filhos, legitimados em 1540. Consegue evoluir nos estudos de Medicina na Universidade de Montpellier, apesar de as suas preferências pelos textos gregos e as traduções feitas dos tratados de medicina árabes por oposição à Vulgata causarem polémicas. Trabalha como médico e ganha uma enorme reputação em Lyon, na época o centro cultural de França. Publica diversos livros sobre medicina, geralmente traduções dos livros gregos, muitos dos quais visados pela censura da Sorbonne. Em 1532, sai do prelo Pantagruel, sob a autoria de Alcofibras Nasier, anagrama do nome do Autor que sempre separou este tipo de obras daquelas que publicava com o seu nome verdadeiro reservado para os trabalhos mais sérios. Surgem em sequência Gargântua e o Livro Terceiro, sobre os quais cai a censura da Sorbonne. Rabelais consegue uma autorização régia que o isenta da censura, mas a Sorbonne pressiona o editor do seu Quarto Livro. A edição acaba por sair sem censura depois de um processo litigioso cujas repercussões chegaram a Roma. Depois da sua morte é publicado o Livro Quinto, muito provavelmente apócrifo, mas que poderá ter partido de esboços do Autor deixados inacabados. A influência de Rabelais no Renascimento europeu é um exemplo notável de luta contra a censura religiosa e científica. Em termos literários, Rabelais foi considerado pelos surrealistas como um dos seus antepassados mais remotos e muitos escritores oriundos dos movimentos e escolas mais diversos prestam-lhe habitualmente vassalagem.

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