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Fado Alexandrino

de António Lobo Antunes
Editor: Dom Quixote, outubro de 2021 ‧
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É o grande romance sobre o 25 de Abril: de repente, pumba, o povo no Carmo, tanques na Baixa, soldados de metralhadora nas esquinas, a Pide engaiolada, o Governo de pantanas, títulos gigantescos nos jornais.

Narra o regresso e o reencontro de quatro ex-combatentes da guerra colonial, o modo como a vida se lhes transtornou e se destruiu.

«Um autor com uma facilidade prodigiosa para enlaçar obras primas»
El País

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António Lobo Antunes

Falar de António Lobo Antunes é tentar descrever alguém que escapa a explicações simples. Na literatura portuguesa contemporânea, poucas vozes são tão únicas, tão imediatamente reconhecíveis como a sua. Não escrevia por mero gosto, mas por uma “estranha força interior” que o impelia, quase como uma urgência vital.
Cresceu num ambiente familiar e intelectual que estimulou desde cedo a sua sensibilidade literária. Ainda assim, seguiu o caminho da família e ingressou em Medicina na Universidade de Lisboa, especializando se mais tarde em Psiquiatria, uma escolha que acabaria por marcar profundamente o escritor que viria a ser. No contacto diário com as fragilidades humanas, com aqueles que muitas vezes são ostracizados e apelidados de "malucos", encontrou histórias que o espantaram, o emocionaram e lhe deram, dizia ele, a melhor lição de teoria da literatura que poderia ter recebido. Em plena Guerra Colonial, António Lobo Antunes foi mobilizado como médico militar para Angola. A violência, a morte e o sofrimento que testemunhou deixaram marcas profundas e tornaram se um dos alicerces da sua escrita. A guerra, nas suas obras, aparece como uma ferida portuguesa ainda por sarar, um trauma que atravessa gerações: o regresso difícil, a reintegração falhada e a perda de rumo. São temas que se repetem, não por insistência, mas porque continuam a doer.

A sua estreia literária, em 1979, com Memória de Elefante, já revelava a recusa firme das narrativas tradicionais. No mesmo ano, Os Cus de Judas afirmou o como uma das vozes mais marcantes da literatura portuguesa, expondo a experiência da guerra num discurso contínuo, visceral, por vezes quase alucinado. Com Conhecimento do Inferno, encerra um primeiro ciclo profundamente autobiográfico, mas já apontado para algo mais vasto: a exploração radical da condição humana.
Nos seus livros, o leitor é acolhido num fluxo de consciência onde passado e presente se confundem, onde as histórias surgem devagar, conduzidas por memórias, associações e imagens que nos atingem de forma íntima. A sua escrita exige atenção, entrega, e convida-nos a participar na construção do sentido. Não é uma leitura fácil, mas é uma travessia que recompensa profundamente quem se permite entrar nela. Em Fado Alexandrino, um grupo de antigos combatentes reencontra-se muitos anos após a guerra, confrontando memórias que tentaram esquecer. Já em O Manual dos Inquisidores, Lobo Antunes desmonta, com lucidez dolorosa, as estruturas de poder e a hipocrisia social que marcaram a transição política portuguesa. São livros que procuram compreender as fraturas históricas que moldaram o país que somos hoje.
Em Portugal, foi distinguido com vários prémios, entre os quais se destaca o Prémio Camões, em 2007. A nível internacional, recebeu o Prémio Ovidio (2003) e o Prémio Europeu de Literatura (2001), sendo recorrentemente apontado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura.
A sua obra atravessou fronteiras: foi traduzido, estudado e reconhecido internacionalmente. No entanto, para ele, escrever nunca foi um destino glorioso, mas um trabalho duro, rigoroso, de permanente construção e reconstrução. Na sua última entrevista, disse com a franqueza que o caracterizava: «Escrever é uma coisa muito difícil e fico sempre espantado por haver tanta gente a fazer livros.»
Numa voz mais próxima e despojada do que aquela que encontramos nos seus romances, António Lobo Antunes abre-nos a porta para um universo vasto de temas nas suas crónicas que o tornaram um nome constante na imprensa ao longo de muitos anos e o aproximaram de leitores que, talvez, se sentiam demasiado intimidados pela restante obra. As memórias de infância, a família que o moldou, as mulheres que passaram pela sua vida, os amigos, os amores e os desamores, a vida que pulsa e a morte que inquieta. Entrelaça tudo isto com encontros fortuitos com desconhecidos, pequenas histórias de viagem, descobertas em restaurantes de bairro e, como seria inevitável, reflexões sobre a escrita e os livros; sem dúvida oferecem um retrato mais amplo e humano da versatilidade e do talento de Lobo Antunes.

Hoje, ocupa um lugar incontornável na literatura portuguesa não só pela vastidão da sua obra, mas pela forma como expandiu os limites do romance e da linguagem. Foi um verdadeiro explorador da experiência humana, alguém que transformou a memória num território literário onde identidade, história e emoção se cruzam.
Ler António Lobo Antunes é aceitar entrar num espaço onde tudo é mais exigente, mas também mais verdadeiro. Onde há momentos de humor inesperado e outros em que a dor da vida se sente com toda a força. E não é isso a grande Literatura? Este artigo foi originalmente publicado na revista Wookacontece de abril de 2026.

Fado Alexandrino

de António Lobo Antunes

Propriedade Descrição
ISBN: 9789722073585
Editor: Dom Quixote
Data de Lançamento: outubro de 2021
Idioma: Português
Dimensões: 158 x 238 x 39 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 720
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789722073585

Obra prima do Lobo Antunes

Nuno

O António Lobo Antunes já tinha deixado para trás os aspectos auto-biográficos dos seus três primeiros livros na Explicação dos Pássaros, mas neste Fado ele escreve o seu primeiro grande romance. Apesar do tamanho, do grande número de personagens e da habitual polifonia do ALA a leitura deste livro foi para mim mais fácil que os seus quatro primeiros romances.

O LIVRO do 25 de Abril

Anabela Borges

Cru. Medonho. Verdadeiro. Realista. Emocionante. Apaixonante. Cinco ex-combatentes das colónias ultramarinas juntam-se, em 1982, para um jantar de partilha das suas memórias sobre as suas experiências em África, sobre o retorno à pátria e a vida que se seguiu. Essas memórias, intrincadas na mente das personagens e na complexa arquitectura narrativa, têm grande peso na evolução do enredo, por meio de uma escrita eufórica e disfórica, que vai culminar no declínio do Estado Novo, com a Revolução dos Cravos. Recomendo vivamente! A melhor obra que li de ALA.

Autenticamente António Lobo Antunes

Ana Geração

Não sendo apreciadora do escritor, achei este livro interessante pela forma como é contada uma parte da nossa História (guerra colonial, 25 de abril de 1974, pós- 25 de abril), por intermédio de um grupo de combatentes da guerra, no jantar do 10º aniversário do seu retorno. É necessário estar muito atento à leitura, pois numa mesma frase podem estar a ser falados temas diferentes, com personagens diferentes, e tempos diferentes. O ponto de vista de cada um dos combatentes também é bastante interessante, pois as suas origens são completamente diferentes.

SOBRE O AUTOR

António Lobo Antunes

António Lobo Antunes (Benfica, Lisboa, 1 de setembro de 1942 - 5 de março de 2026) foi um escritor e médico psiquiatra português.
Estudou na Faculdade de Medicina de Lisboa e especializou-se em Psiquiatria. Exerceu, durante vários anos, a profissão de médico psiquiatra. Em 1970 foi mobilizado para o serviço militar. Embarcou para Angola no ano seguinte, tendo regressado em 1973. Em 1979 publicou os seus primeiros livros, Memória de Elefante e Os Cus de Judas, seguindo-se, em 1980, Conhecimento do Inferno. Estes primeiros livros são marcadamente biográficos, e estão muito ligados ao contexto da guerra colonial; imediatamente o transformaram num dos autores contemporâneos mais lidos e discutidos, no âmbito nacional e internacional. Todo o seu trabalho literário tem sido, ao longo dos anos, objeto dos mais diversos estudos, académicos ou não, e dos mais importantes prémios, nacionais e internacionais. A sua obra encontra-se traduzida em inúmeros países.

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