Carmilla

de Sheridan le Fanu
Editor: Sistema Solar, novembro de 2022 ‧
13,00€
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Trata-se de páginas de literatura gótica que se mostram com um sensual e vigoroso vampirismo, onde Sheridan Le Fanu saberá contar uma inusitada história que se passa entre duas mulheres...

«Em 1872, um ano antes da sua morte, publica aquele que será o seu livro que melhor resistirá ao tempo, o mais célebre: In a Glass Darkly, um conjunto de novelas onde Carmilla está incluí¬da, embora já tivesse surgido com forma de folhetim na revista The Dark Blue. Antes de mais, notem-se estas palavras que a respeito desse texto vampírico escreve Gaïd Girard: «Carmilla é um texto singular. Ao mesmo tempo típico, à maneira de Le Fanu, e único na sua produção. Enigmático e inesperado. De facto, pode ler-se com facilidade esta histó¬ria como a narrativa dos amores sáficos de Carmilla, a morena volup¬tuosa, e de Laura, a loira assustada. A dimensão erótica da figura do vampiro, habitualmente oculta, é nela evidente. […] Colocar em cena um vampiro feminino a atacar uma jovem é instalar uma sobredeter¬minação erótica no texto; é acrescentar a proibição da homossexualida¬de feminina à transgressão carnal das fronteiras entre a morte, o amor e a vida, específicas do mito vampírico. Nenhum dos textos precedentes de Le Fanu leva a um semelhante ponto de incandescência a mistura do erótico e do monstruoso. Nas suas narrativas góticas, Le Fanu está mais do lado de Ann Radcliffe do que do lado de M.G. Lewis e do seu The Monk lúbrico. […] O que este texto tem de ardente é o excesso de uma indizível sexualidade com a sua origem na relação desvairada de um corpo de mulher noutro corpo de mulher. Não esquecer que Carmilla e Laura pertencem à mesma família do lado das suas mães, o que põe uma sombra incestuosa a pairar sobre os seus amores.»
Poderá dizer-se que isto é ponto assente nesta novela de Sheridan Le Fanu, onde a sensível qualidade literária que ele compõe com uma batuta na mão também tem algo a dizer. É evidente que as bem cons¬cientes e trabalhadas marcas de estilo identificam um escritor, portanto é de notar que a prosa de Carmilla se faz ouvir como uma delicada melodia de sublime estilo, que se verifica constantemente preocupada com os pormenores que a constituem. Falar-se-ia de perfeição, mas não se ousa tal coisa. As suas palavras encontram-se numa condição de las¬cívia a sustentar uma completa harmonia que conduz a um enormís¬simo prazer literário.
Diogo Ferreira

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Palavras Rebeldes

A literatura é uma construção feita de convenções, repetições e fórmulas. Muitas vezes, um género cristaliza-se ao ponto de se tornar previsível, uma espécie de partitura que o leitor reconhece logo nas primeiras páginas. Mas há livros que recusam essa previsibilidade, rompem o molde, subvertem as regras e reinventam a tradição que herdaram. São textos que mudam não apenas a forma como pensamos um género literário, mas também a maneira como nos aproximamos da leitura. Carmilla, de Sheridan le Fanu Um exemplo precoce desta rebeldia face ao cânone é Carmilla, de Sheridan Le Fanu. Publicado em 1872, vinte e cinco anos antes de Drácula, o romance apresenta a figura do vampiro (neste caso, uma vampira chamada Carmilla), como algo mais complexo do que o simples monstro insaciável que ataca de noite. Carmilla seduz, fascina e perturba, e a relação que estabelece com Laura, a narradora, é atravessada por um desejo insinuado que escapa às normas morais da época e que, ao mesmo tempo, serve de motor ao terror presente na obra. O romance gótico, até então dominado por castelos sombrios e ameaças externas, ganha uma dimensão interior. O medo instala-se no corpo, na intimidade e no desejo proibido. Ao introduzir essa ambiguidade, Le Fanu transforma a narrativa de vampiros num território fértil para pensar o interdito. A sexualidade feminina, a homoafetividade e a diluição das fronteiras entre vítima e predador são alguns dos temas abordados neste romance que não se limita a assustar, mas antes convida o leitor a espreitar o lado obscuro do desejo, aquilo que se queria ocultar e que, de repente, ganha forma na figura da vampira. Carmilla é, nesse sentido, uma narrativa entre o medo e a fascinação, entre a pureza e a transgressão, inaugurando o imaginário moderno do vampiro como criatura simultaneamente erótica e ameaçadora. COMPRO NA WOOK! » Gargântua & Pantagruel - Volume I, de Rabelais François Rabelais já explorava as fronteiras da ficção séculos antes de Le Fanu ter nascido. Gargântua & Pantagruel, publicado entre 1532 e 1564, resiste a qualquer categorização literária convencional. É, ao mesmo tempo, sátira, crónica e fábula grotesca, unindo crítica social e reflexão numa prosa expansiva e inventiva. Os gigantes que dão nome à obra vivem aventuras que oscilam entre a leveza cómica e a erudição rigorosa, mantendo o leitor em permanente surpresa através da escrita polifónica de Rabelais. Quem se aproxima de uma obra do século XVI espera encontrar ordem e disciplina literária, mas em Gargântua & Pantagruel depara-se com liberdade, excesso e multiplicidade de sentidos. Rabelais não se limitou a reinventar um género, pôs em causa a própria noção de enredo, mostrando que a literatura pode ser simultaneamente crítica, ousada e divertida. COMPRO NA WOOK! » A Oeste Nada de Novo, de Erich Maria Remarque Se Rabelais expande e Carmilla insinua, Erich Maria Remarque comprime. Em A Oeste Nada de Novo, publicado em 1929, a guerra deixa de ser palco de heroísmo para se tornar um território de devastação. Até então, o romance de guerra, herdeiro das epopeias antigas, ainda se alimentava de imagens de bravura, de honra e de glória nacional. Remarque desmonta esse imaginário através da voz de Paul Bäumer, um jovem soldado alemão lançado nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. O que o narrador regista não são feitos memoráveis, mas a rotina da lama, da fome e do medo. A morte não tem brilho, é apenas ausência. Ao trocar o tom épico por um tom íntimo, Remarque reconfigura o género bélico. Mostra que a guerra não é grandeza, mas dissolução da juventude e catalisadora de traumas coletivos. Depois dele, nenhum romance de guerra pôde ser escrito, e lido, da mesma forma. A sua escrita abriu espaço ao testemunho e à denúncia, não à celebração.
Em 2022, o livro deu origem a uma série de TV, cujo trailer pode ver aqui abaixo. COMPRO NA WOOK! » O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie Agatha Christie não seguiu o exemplo de Remarque ao matar a ideia de heroísmo. Em vez disso, matou a confiança que o leitor de literatura policial trazia consigo ao iniciar a leitura, sendo O Assassinato de Roger Ackroyd, escrito em 1926, um marco de viragem no género. Até então, os policiais viviam da promessa de clareza, ou seja, o crime era um enigma que o detetive, com lógica impecável, desvendaria no final. O leitor, guiado pela narrativa, tinha a garantia de que, no fim, tudo faria sentido. Mas Christie ousou romper esse pacto tácito com o leitor. Através de um narrador que manipula, omite e engana, a autora de Um Crime no Expresso do Oriente retirou ao leitor a sua segurança fundamental, a de confiar na voz que conta a história. A reviravolta final não é apenas a resolução do crime, é também um choque estrutural, um golpe no género. Depois de Christie, a literatura policial não pôde ser lida com a mesma inocência. Reinventar o género, aqui, significou questionar a relação de confiança entre o leitor e a narrativa. COMPRO NA WOOK! » Se Numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino Décadas mais tarde, Italo Calvino levou ainda mais longe a desconfiança do leitor em relação ao próprio texto. Se numa noite de inverno um viajante, de 1979, não é apenas um romance pós-moderno, é uma meditação sobre o ato de ler. O livro começa quando um leitor se prepara para ler um romance de Calvino, mas esse romance é interrompido. O leitor, dentro do livro, procura continuar e, a cada tentativa, encontra apenas começos de histórias, nunca a sua conclusão. O resultado é um labirinto de inícios, um jogo que transforma a leitura em experiência fragmentada. O género literário, neste caso, não é subvertido, é dissolvido e desfeito em partes. O policial, o romance de espionagem, a narrativa histórica, entre outros estilos presentes no decorrer da trama, surgem apenas como ecos e fragmentos de algo que não tem conclusão. Calvino não oferece apenas um livro, mas uma reflexão sobre todos os livros, a de que ler é sempre começar, nunca terminar. COMPRO NA WOOK! » Se colocarmos estas obras lado a lado, percebemos que reinventar um género não é um gesto único, mas uma multiplicidade de movimentos. Rabelais expande até ao grotesco, Le Fanu insinua o proibido, Remarque desmonta o heroísmo, Christie mina a confiança e Calvino transforma a própria leitura em enigma. Cada um, à sua maneira, recusa o caminho já feito e obriga-nos a reaprender a ler.

Carmilla

de Sheridan le Fanu

Propriedade Descrição
ISBN: 9789895680429
Editor: Sistema Solar
Data de Lançamento: novembro de 2022
Idioma: Português
Dimensões: 149 x 207 x 9 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 128
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789895680429

SOBRE O AUTOR

Sheridan le Fanu

Joseph Thomas Sheridan Le Fanu nasceu a 28 de agosto de 1814 em Dublin, na Irlanda. Le Fanu pertencia a uma antiga família Huguenot de Dublin. Educado no Trinity College, Dublin, tornou-se advogado em 1839, mas logo abandonou a lei pelo jornalismo. Começou a publicar contos na Dublin University Magazine e jornais em 1840, incluindo o Warden e o Dublin Evening Mail. Casou-se com Susanna Benett em 1844, e tiveram quatro filhos. O casamento conheceu dificuldades financeiras, e a sua esposa morreu em 1858, vítima de causas desconhecidas. Le Fanu responsabilizou-se pela morte da sua esposa e evitou a vida pública durante muito tempo após o incidente. Não publicou nada entre 1853 e 1861. Em 1861, Le Fanu assumiu o cargo de proprietário e editor da revista da Universidade de Dublin, onde publicou as suas histórias em série. Estas histórias foram posteriormente compiladas em livros. Foi um dos primeiros escritores de terror do século XIX, e foi essencial para o desenvolvimento do género na era vitoriana, tendo influenciado muitos autores posteriores, incluindo o também irlandês Bram Stoker, autor de Drácula.

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