Editor: Assírio & Alvim, maio de 2010 ‧
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« Julgo que não é inexacto afirmarmos que a poesia portuguesa tem dado a conhecer regularmente autores mais jovens que prolongam sem dificuldade o nível de qualidade a que anteriores gerações nos haviam habituado. Um deles é simultaneamente um ensaísta e crítico, um tradutor e um poeta notável: José Tolentino Mendonça. » Eduardo Prado Coelho escrevia estas linhas no jornal "Público" (19.09.98) aquando da publicação de "A Que Distância Deixaste o Coração", anterior livro de poesia de J.T. Mendonça, cujos poemas estão incluídos nesta edição de "Baldios", embora sem as fotografias de Vicente Moreira Rato que os acompanhavam. "Baldios" vem confirmar estas palavras e revelou-se como um dos grandes livros de poesia publicados em 1999. Uma poesia feita de alegrias e tristezas, comunhão e abandono, segredos, viagens, errâncias, atenta ao que a rodeia, tensa e de simplicidade extrema, ao mesmo tempo íntima e exterior.

Fica-lhe aqui o poema "Duas cidades, S. Paulo", cortesia do editor.

« Perdoem a invocação de um realizador de cinema tão aparentemente tão alheio à poesia de José Tolentino de Mendonça, mas poderíamos começar com um título de um filme de Nicholas Ray: "We Can't Go Home Again". De baldios ("Baldios" é o título do livro mais recente de José Tolentino Mendonça) sempre falou também Nicholas Ray, dessa terra inculta e rugosa que protege o que é

Duas cidades, S. Paulo

É da casa que quero falar
porque nunca a vi
somente em cores de sombra quase íntima
a descreveste noutra cidade

no centro de todos os relatos há uma casa
em que não pensamos
nela as portas entreabrem-se
sem que ninguém ainda passe
ou batem já numa despedida
quando nenhum de nós sabe sequer
que vai partir

o que mais nos distancia
é o desejo profano de compreensão
a nenhum vocábulo a beleza
confia a sua verdade perfeita
e as casas sabem-no melhor

por isso se entregam ao silêncio
as nossas casas
enquanto buscamos nas longas conversas

a sensação mais nítida
as casas percebem antes de nós
que nos tornamos felizes

Duas cidades, S. Paulo

É da casa que quero falar
porque nunca a vi
somente em cores de sombra quase íntima
a descreveste noutra cidade

no centro de todos os relatos há uma casa
em que não pensamos
nela as portas entreabrem-se
sem que ninguém ainda passe
ou batem já numa despedida
quando nenhum de nós sabe sequer
que vai partir

o que mais nos distancia
é o desejo profano de compreensão
a nenhum vocábulo a beleza
confia a sua verdade perfeita
e as casas sabem-no melhor

por isso se entregam ao silêncio
as nossas casas
enquanto buscamos nas longas conversas

a sensação mais nítida
as casas percebem antes de nós
que nos tornamos felizes

Baldios

de José Tolentino Mendonça

Propriedade Descrição
ISBN: 978-972-37-0542-3
Editor: Assírio & Alvim
Data de Lançamento: maio de 2010
Idioma: Português
Dimensões: 145 x 205 x 6 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 80
Tipo de produto: Livro
Coleção: Poesia Inédita Portuguesa
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Poesia
EAN: 9789723705423
Idade Mínima Recomendada: Não aplicável

Um dos maiores poetas portugueses

JT

Tolentino Mendonça é, hoje, um dos maiores poetas portugueses. Os seus poemas surpreendem pela beleza profunda. O amor, a amizade são lugares seguros deste poeta.

SOBRE O AUTOR

José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça é poeta, sacerdote e professor. Nasceu na ilha da Madeira. Estudou Ciências Bíblicas em Roma e vive no Vaticano desde 2018, onde foi responsável pela Biblioteca Apostólica e pelo Arquivo Secreto do Vaticano e é atualmente Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação. Em 2019, foi elevado a Cardeal pelo Papa Francisco. Para José Tolentino Mendonça, «a poesia é a arte de resistir ao seu tempo». Os seus livros têm sido distinguidos com vários prémios, entre eles o Prémio Cidade de Lisboa de Poesia (1998), o Prémio PEN Clube de Ensaio (2005), o italiano Res Magnae, para obras ensaísticas (2015), o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes APE (2015), o Grande Prémio APE de Crónica (2016), prestigiado Prémio Capri-San Michele (2017), o Prémio D. Diniz (2022), Francisco de Sá de Miranda (2022), Prémio Pessoa (2023) e o Prémio Eduardo Lourenço (2025).

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