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A Lotaria e Outras Histórias

de Shirley Jackson
Editor: Cavalo de Ferro, maio de 2019 ‧
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Numa pequena comunidade do Sul dos Estados Unidos, os habitantes reúnem-se periodicamente na praça central da povoação para a extração da Lotaria. Todos estão obrigados a participar. Um burburinho nervoso levanta-se entre a multidão à medida que os representantes de cada família retiram o pequeno papel dobrado da caixa de madeira preta. Na hora de o abrir, sabem que o seu destino estará selado…

Considerado hoje um dos contos mais famosos da história da literatura norte-americana, A Lotaria motivou uma surpreendente reação do público aquando da sua primeira publicação na New Yorker, em 1949, com muitos leitores a tomarem a história por verdadeira e a cancelarem a sua assinatura da revista ou a escreverem cartas de indignação dirigidas à autora.

Mais tarde inserido no único volume de contos publicado por Shirley Jackson ainda em vida, este constitui um dos maiores exemplos do génio versátil da autora, considerada igualmente uma mestre neste género.

«Tudo o que escreveu tem a dignidade e a verosimilhança dos mitos.»
The New York Times Book Review

«Sem dúvida alguma, uma autora que está entre os grandes mestres da Literatura.»
Daily Telegraph

«Estas histórias fazem-nos lembrar os terrores mais profundos da juventude.»
Herald tribune

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Primeiro estranha-se

Há livros que começam com uma ideia estranha, sem sentido, e ainda assim tudo se constrói a partir daí. Primeiro há resistência, depois habituação. O que era insólito deixa de ser visto como um erro e passa a fazer parte da estrutura. Não serve para fugir ao real, mas para expor o que a realidade tende a esconder. A Espuma dos Dias, O Tambor de Lata, A Lotaria e Outras Histórias, Ruído Branco e Crash partem desse desvio inicial e levam-no até às últimas consequências, sem tentar corrigir ou explicar o que está fora do lugar. Nestes livros, o absurdo deixa de ser um problema e passa a ser a forma mais fácil de interpretar o mundo. A Espuma dos Dias, de Boris Vian Colin, o protagonista de A Espuma dos Dias, é um jovem rico que vive sem pressas nem obrigações. Passa os dias a ouvir música, no meio de pequenos luxos e de invenções como o pianocktail, um instrumento que transforma notas musicais em bebidas. É nesse contexto que conhece Chloé. Apaixonam-se e casam-se rapidamente. Pouco depois, Chloé adoece. Um nenúfar começa a crescer no seu pulmão, sem qualquer explicação. A vida do casal passa a girar em torno da doença. O tratamento é caro e exige cuidados constantes, obrigando Colin a trabalhar pela primeira vez. O dinheiro começa a faltar e a própria realidade à sua volta altera-se. A casa onde vivem torna-se cada vez menor e mais escura, como se acompanhasse o estado de Chloé. No romance, o insólito é aceite desde o início e levado até ao fim. A própria linguagem e os objetos participam nessa lógica, deformando-se à medida que a história avança. É essa coerência que sustenta a narrativa e conduz a transformação de tudo o que parecia estável. A obra foi adaptada ao cinema em 2013 por Michel Gondry. COMPRO NA WOOK! » O Tambor de Lata, de Günter Grass Em O Tambor de Lata, Oskar Matzerath narra a sua história recuando ao momento em que, com apenas três anos, recebe um tambor de lata. Nesse mesmo dia, ao perceber o que o espera no futuro, em particular o destino de herdar o negócio do pai e integrar-se numa ordem que não escolheu, o menino decide que não quer ser adulto e deixa de crescer. O seu corpo mantém-se infantil, mas a consciência continua a desenvolver-se de forma lúcida, embora instável. Num período conturbado da História alemã, marcado pela ascensão do nazismo e pela Segunda Guerra Mundial, a decisão de não crescer define a posição de Oskar face aos acontecimentos que o rodeiam. Vive-os de perto, mas recusa pertencer-lhes. O tambor passa a ser o meio através do qual se impõe e intervém na realidade à sua volta, quase como uma extensão do seu corpo. No livro, Günter Grass usa premissas absurdas, próximas do realismo mágico, para deformar a realidade e torná-la mais legível. O insólito expõe comportamentos e revela mecanismos sociais que, num registo mais direto, poderiam passar despercebidos, mostrando como a adesão, a passividade e a violência se instalam sem resistência evidente. COMPRO NA WOOK! » A Lotaria e Outras Histórias, de Shirley Jackson No livro de contos A Lotaria e Outras Histórias, o absurdo instala-se de forma discreta, sem sinais evidentes de rutura. O conto que dá o nome ao livro centra-se na tradição de uma pequena aldeia norte-americana, com os habitantes reunidos na praça em torno de uma caixa de madeira que guarda os papéis de um sorteio anual. Tudo decorre com normalidade, segundo regras e uma ordem conhecida, repetida todos os anos. Cada família participa sem resistência, como se cumprisse um gesto rotineiro e necessário à comunidade. À medida que o processo avança, torna-se claro que aquele encontro não se trata de uma celebração. O nome escolhido não recebe um prémio, recebe uma condenação. Ainda assim, não há revolta nem questionamento e a cerimónia cumpre-se até ao fim. Nos restantes contos, Shirley Jackson trabalha essa mesma lógica, introduzindo pequenos desvios que alteram a conclusão das histórias. O que é estranho não se destaca do quotidiano, mistura-se com ele, o que o torna mais próximo e perturbador. COMPRO NA WOOK! » Ruído Branco, de Don DeLillo Em Ruído Branco, Jack Gladney, um professor universitário, vive com a mulher e os filhos numa realidade muito próxima da nossa, marcada pelo consumo, pela influência da televisão e por conversas fragmentadas, onde a linguagem parece muitas vezes repetida, como se não lhes pertencesse totalmente. A sensação de normalidade forma-se a partir desses hábitos e da acumulação constante de informação, mais absorvida do que compreendida. Esse equilíbrio aparente é interrompido por um acidente químico que liberta uma nuvem tóxica e obriga à evacuação da população. Mesmo perante este caso extremo e tão próximo, a experiência nunca é vivida de forma direta. Tudo chega através de relatórios, notícias e termos técnicos que procuram dar forma ao que está a acontecer. As personagens lidam com o medo por via dessas interpretações, sem contacto pleno com o acontecimento. Ao longo do livro, a realidade surge sempre filtrada, mediada pelos meios de comunicação e substituída por descrições e explicações que tornam difícil uma relação direta com o espaço em que vivem. COMPRO NA WOOK! » Crash, de J. G. Ballard Crash, de J. G. Ballard, atribui contornos sórdidos à ideia de absurdo. A história acompanha um homem que, após sobreviver a um acidente de viação e assistir à morte de outro condutor, entra em contacto com um grupo de pessoas que desenvolve uma atração sexual por colisões automóveis. Vaughan, figura central desse grupo, estuda acidentes e recria colisões. A determinada altura, os acidentes deixam de ser acontecimentos ocasionais e passam a ser procurados, analisados e encenados. O carro deixa de ser apenas um meio de transporte e passa a integrar o corpo e a experiência das personagens, influenciando a forma como se relacionam. J. G. Ballard não tenta explicar esta atração nem oferecer uma leitura moral, limita-se a seguir essa lógica até às últimas consequências, mantendo um registo frio e descritivo. Mais uma vez, o absurdo não distancia, intensifica. Ao levar esta ideia até ao limite, o livro expõe a fusão entre tecnologia, desejo e violência, revelando uma relação com o mundo em que o estímulo intenso substitui a experiência e o corpo se torna inseparável da máquina. COMPRO NA WOOK! »

A Lotaria e Outras Histórias

de Shirley Jackson

Propriedade Descrição
ISBN: 9789896232801
Editor: Cavalo de Ferro
Data de Lançamento: maio de 2019
Idioma: Português
Dimensões: 155 x 227 x 20 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 288
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Contos
EAN: 9789896232801

A Lotaria entre outros contos

David Laranjeira

Tinha lido comentários de varios leitores acerca de algum desapontamento quanto ao conteúdo e qualidade desta edição de short stories. Regra geral, consideram a Lotaria como sendo a única história de terror que a edição contém. Não concordo. Há, de facto, varios contos de terror contidos neste livro, mas não o tipico conto. A obra de Jackson passa muito pelo terror subtil das pequenas coisas mundanas. A ansiedade da maternidade, o medo de multidões, a inveja do sucesso dos demais e os nossos próprios falhanços. Além de Jackson demonstrálos com a sua subtileza, contorna alguns com humor negro, o que os enriquece.

Inesperadas e estranhas narrativas, mas envolventes.

Maria Paula

Uma narrativa fluida, simples e misteriosa.

E se um conto contivesse a a vida?

Ramiro Matos

escrever de forma a que cada um dos leitores se reconheça naquelas personagens, eis o que S. Jackson faz nesta mão cheia de pequenas pérolas da escrita.!

SOBRE O AUTOR

Shirley Jackson

Shirley Jackson (1916–1965) é considerada uma das mais influentes escritoras norte-americanas. Herdeira da grande tradição do gótico americano, iniciada com Edgar Allan Poe, teve uma vida curta, deixando, porém, uma obra que a consolidou como uma das grandes personalidades literárias do século XX. Obteve imediato êxito e fama com a publicação, em 1948, do conto A Lotaria, que, à época, dividiu opiniões e suscitou acesas polémicas. Ao todo, escreveu cinquenta e cinco contos; e, da sua obra, destacam-se ainda as crónicas familiares Life Among the Savages e Raising Demons, bem como os romances The Sundial, A Maldição de Hill House, adaptado várias vezes para cinema e televisão, e Sempre Vivemos no Castelo, último livro da autora, publicado em 1962.

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