À Espera da Subida das Águas
SINOPSE
Quando, a meio de uma noite de temporal, é chamado para assistir um parto, Babakar não sabe que a sua vida está prestes a mudar por causa dessa criança que vai nascer; a mãe, Reinette, uma refugiada haitiana, morre ao dar à luz - e a pequena Anaïs fica a seu cargo.
O desejo de Reinette era que a filha fosse criada no Haiti, e Babakar muda-se para a ilha, à procura de quem pudesse ensinar a Anaïs de onde ela vem. Através da história dessa dupla improvável, Babakar e Anaïs, dos amigos Movar e Fouad, que os acompanham, e dos que foram encontrando naquela ilha martirizada por violência, governos corruptos e gangues rebeldes, mas tão bela e fascinante, irá reconstruir-se um novo mapa ligado pelos danos do colonialismo, bem como as raízes do amor, da amizade, da comunhão com os outros - e o lugar de cada um no Mundo.
CRÍTICAS
«Maryse Condé é um tesouro da literatura mundial, escrevendo do centro da diáspora africana com uma profunda compreensão de toda a humanidade.»
Russell Banks
CRÍTICAS DE IMPRENSA
«Condé expõe os segredos e as histórias de um elenco fascinante, falando das feridas que surgem e perduram quando as pessoas perdem o que tem mais significado para elas – seja a sua família, os amigos ou o país. Este retrato fiel da dor e do deslocamento é difícil de esquecer.»
Publishers Weekly
«Uma carta de amor às Caraíbas.»
The Guardian
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Maryse Condé, a grande dama da literatura francófona
Maryse Condé, a mais importante voz das letras caribenhas, cujo Evangelho do Novo Mundo foi publicado pela Livros do Brasil em fevereiro passado, partiu esta semana para o firmamento dos escritores aos 90 anos, deixando uma obra vasta e notável. Romancista de sucesso, a prolífica autora publicou 70 livros – romances, peças de teatro, ensaios e obras para crianças. Escritora, professora e jornalista, Condé teve uma vida cheia, marcada pelas suas numerosas viagens da Europa à África Ocidental e aos Estados Unidos. A escravatura, o colonialismo, o racismo, a identidade e a maternidade foram temas constantes na sua escrita. Conheceu os líderes dos movimentos independentistas seus coetânos e foi a primeira presidente do Comité Nacional para a Memória e História da Escravatura, em França. Revisite connosco a história da “grande dama” da literatura francófona.
Maryse Condé | MEDEF | © CC BY-SA 2.0 DEED
UMA VIDA ENTRE CONTINENTES
Maryse Boucolon nasceu a 11 de fevereiro de 1934, em Pointe-à-Pitre, uma cidade de Guadalupe, departamento ultramarino de França. Era a mais nova de oito filhos e cresceu no seio do que ela apelidou de uma «burguesia negra embrionária». A sua mãe dirigia uma escola para raparigas e o seu pai, Auguste Boucolon, foi professor, antes de fundar um banco.
Primeiro, Maryse apaixonou-se pela literatura – aos 12 anos, escreveu uma peça de um ato para oferecer à mãe no dia do seu aniversário. Depois, de forma mais gradual, ineressou-se pela política. Tendo passado a sua juventude em Guadalupe, ainda muito colonial, deixou a ilha em busca de respostas sobre a sua identidade e as suas origens. O seu passaporte francês não a impediria de se tornar uma forte ativista pela independência do seu arquipélago natal.
Em Paris, estudou na Sorbonne e integrou-se nos círculos intelectuais negros desta cidade, onde se viria a casar com o seu primeiro marido, o ator guinnense Mamadou Condé. Apenas um ano depois, separou-se e mudou-se para África para ensinar. Viveu durante longos períodos na Guiné, no Gana e no Senegal, numa região que vibrava com os ventos da independência e da descolonização, e que atraía pensadores e activistas de toda a diáspora negra. Esta vivência deu a Condé a inspiração para escrever, primeiro como dramaturga e, depois, como romancista. Paralelamente, teve uma carreira académica de sucesso. Durante muitos anos, dividiu o seu tempo entre a cidade de Nova Iorque e a sua terra natal, Guadalupe. Foi professora emérita de Francês na Universidade de Columbia, tendo também lecionado na UCLA, na Sorbonne (onde se doutorou em Literatura Comparada) e em Berkeley.
UMA OBRA MARCADA PELO DESEJO DE MUDAR O MUNDO
O primeiro romance de Condé, Hérémakhonon (que significa "À Espera da Felicidade" na língua malinke da África Ocidental), de 1976, surge numa altura crucial, em que a literatura francesa, centrada nas obras clássicas de escritores franceses, começa a dar lugar à multifacetada literatura francófona, proveniente de todas as partes do mundo de língua francesa. Grande parte da sua obra é histórica. Ségou (1984) foi o livro que projetou a escritora para a fama. Conta a história de um conselheiro real no Império Bambara da África Ocidental, que floresceu nos séculos XVIII e XIX, mas que entrou em colapso sob a pressão das forças europeias e islâmicas.
Condé é também exímia a recontar grandes narrativas. Baseando-se em elementos das obras A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne, e The Crucible, de Arthur Miller, contou a história de uma mulher escravizada apanhada nos julgamentos das bruxas de Salém em Tituba, Black Witch of Salem, obra vencedora do Grand Prix Littéraire de la Femme.
No seu último livro, Evangelho do Novo Mundo, Condé escreve uma espécie de testamento, no qual se interroga, com pesar, sobre a forma como o mundo gira. Trata-se de uma reinterpretação da Bíblia, transposta para Guadalupe, escrita em homenagem a José Saramago.
«Há muito tempo, li Caim,, a releitura da Bíblia feita por José Saramago. Queria fazer o que ele fez, mas não me atrevi. Depois dele, J. M. Coetzee e Amélie Nothomb escreveram ficção que reescrevia a vida de Jesus. Senti-me então libertada. Também eu tinha o direito, era livre de exprimir os meus pensamentos», confessa a autora. O herói deste derradeiro livro é Pascal, um recém-nascido mestiço que um casal piedoso encontra deitado numa cama de palha no seu jardim, num domingo de Páscoa. A criança descobre que tem poderes e, magoada com as injustiças do mundo, propõe-se mudá-lo. Com uma abordagem liberta e otimista, este romance é uma magnífica porta de entrada para o mundo da escritora.
O RECONHECIMENTO DE UMA VOZ ÚNICA
Condé construiu uma obra poderosa e popular que acabaria por ganhar mais reconhecimento em países como os Estados Unidos do que em França. O seu nome foi várias vezes mencionado para o Prémio Nobel da Literatura. Morreu sem o ganhar, mas afirmava que distinções e bens materiais não eram algo a que atribuísse importância na sua vida. Mas os seus leitores e o mundo literário quiseram condecorá-la pelo seu legado e, em 2018, um júri popular de 32.000 pessoas de todo o mundo votou para lhe atribuir o Prémio Nobel alternativo, que lhe foi atribuído numa cerimónia em Estocolomo. Maryse, ficou-lhes grata: «Os franceses nunca quiseram ouvir a voz de Guadalupe. Estou contente por esta voz única estar finalmente a ser reconhecida.»
Mas, no final, também os franceses reconheceram a sua obra. Dois anos depois, em 2020, Emmanuel Macron condecorou a escritora com a Ordem de Mérito da República Francesa. No dia em que a escritora morreu, o presidente francês homenageou-a com estas palavras: «Gigante das letras, Maryse Condé soube pintar as dores e as esperanças, de Guadalupe a África, das Caraíbas à Provença. Numa linguagem de luta e esplendor que é única e universal. Livre.» A sua força, essa, nunca se extinguiu: «Moi je reste fidèle à ce désir de changer le monde.»
Água viva
A água é origem e ameaça, bálsamo e corte. Flui por dentro das casas e das frases, como se o texto fosse um estuário onde desaguam memórias e perdas. Há mares que dão família e mares que a desfazem, há chuvas que abrem clarões na terra, maresias que gravam no corpo a coragem de resistir, correntes que puxam a escrita para um território sem margens. Em cada um destes livros, a água organiza a memória e a experiência: ora é genealogia (o mar como origem e segredo), ora é limite e provação (o mar que raspa o supérfluo e deixa o essencial), ora é política (o regime dos ciclones, dos terramotos, das migrações), ora é pura forma (a prosa que corre, sem margens fixas).
Os filhos do Mar Alto, de Virginia Tangvald
O livro de estreia de Virginia Tangvald, publicado em Portugal em 2025, tem a energia híbrida do romance-investigação, da memória e do relato marítimo. A autora nascida no mar alto, a bordo de um veleiro construído pelo seu pai, o navegador Peter Tangvald , regressa a um passado atravessado por viagens, barcos e mortes em água aberta. O pai, figura lendária e controversa, teve sete casamentos; duas mulheres morreram em circunstâncias trágicas; ele próprio morreria em naufrágio, em 1991, perto de Bonaire.
A autora transforma a biografia fragmentada da família: veleiros, desaparecimentos, mitologias de liberdade e risco, numa investigação íntima sobre herança e desejo de ancoragem.
Tangvald trata o oceano como um depósito de indícios: histórias, cartas, recortes, rumores, em que se tenta reconhecer a própria origem. A busca mapeia, com honestidade, a ambivalência do fascínio marítimo: liberdade e risco, ascese e narcisismo, desprendimento e irresponsabilidade. É por isso que o livro abriga um duplo movimento: ancorar uma identidade (dar nome ao que nos fez) e desancorar-se do mito (dizer não à repetição do dano).
Há uma tensão ética que percorre a narrativa: entre a aventura e o dano, entre a sedução do oceano e a sua economia de perdas. A própria escrita, que convoca um cânone marítimo (de Defoe a Melville e Baricco), recusa o conforto do romance de formação: prefere a prosa que deixa entrar o rumor das fontes e a poeira salina das versões.
Os Filhos do Mar Alto encena aquilo a que Steve Mentz chama “modernidade de naufrágio”: uma perceção histórica e íntima construída no intervalo entre catástrofes e aterragens precárias. O mar, aqui é uma tecnologia de vida e de escrita: um modo de organizar o sentido quando a terra firme escasseia.
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Náufragos, de Sophie Elmhirst
Uma baleia, uma jangada, uma história de amor: diz o subtítulo da edição portuguesa. Elmhirst reconta a verdadeira história de Maurice e Maralyn Bailey, o casal britânico que, depois do seu veleiro Auralyn ter sido abalroado por uma baleia, derivou quase quatro meses no Pacífico até ser resgatado por um pesqueiro sul-coreano. Em vez do épico de bravura, a autora insiste no laboratório íntimo: os rituais miúdos (cozinhar, registar, remediar), a divisão do trabalho, o compasso entre esperança e exaustão, a maneira como duas pessoas inventam um tempo habitável onde só há vastidão.
O livro é menos um épico marítimo do que um retrato de dois corpos na mesma maré: o amor como uma técnica de sobrevivência, o mar como personagem sem rosto que testa cada gesto. Há baleias, silêncio, fome e um calendário inventado; sobretudo, há a prova de que a água despoja até sobrar o essencial.
Náufragos trabalha o intervalo entre documento e leitura, memória e figura, o que foi e o que a narração faz disso.
A autora desloca a aventura para a esfera do cuidado e do casal, que testa as fronteiras entre autonomia e interdependência. A coragem não é heroísmo performativo, mas manutenção atenta: costurar remos, racionar água, inventar calendário, cuidar do outro. O oceano, longe de ser apenas antagonista, torna-se parceiro hostil de uma coreografia: cada gota contada, cada gesto repetido.
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À Espera da Subida das Águas, de Maryse Condé
Este romance acompanha Babakar Traoré; médico solitário, maliano, a viver em Guadalupe; na sequência de um parto funesto que lhe deixa uma recém-nascida nos braços. A água (chuva, mar, ciclones) desenha a cartografia do livro: Guadalupe, Haiti, África Ocidental. No Haiti, o enredo cruza o país com o duplo regime do desastre natural: o furacão Hugo (1989) e o terramoto de 2010, e o desastre político, num tecido de violência, corrupção e desamparo.
O gesto de Condé é nítido: em vez de um destino biológico, propõe uma comunidade eletiva: uma família fundada na responsabilidade, não no sangue. O romance fratura a imagem turística das Caraíbas e pensa o arquipélago como forma: ilhas dispersas, travessias, pertenças múltiplas. A prosa, enxuta e incisiva, trabalha o que poderíamos chamar uma antiepopeia da amizade e do cuidado: homens e mulheres que, em vez de pátrias, encontram alianças. Num plano mais histórico, o livro conversa com o pós-colonial: migração, heranças autoritárias, racismo, a inércia das metrópoles.
Ler Condé hoje também é gesto de luto e de reconhecimento. A escritora guadalupense morreu em abril de 2024, aos 90 anos. À Espera da Subida das Águas concentra muito da sua ética: uma literatura que recusa o exotismo e investiga, sem alívio, as políticas do sofrimento e da esperança, num mundo de marés desiguais.
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Água Viva, de Clarice Lispector
Se nos livros anteriores a água é sobretudo exterior – mar, tempestade, enchente –, em Clarice é forma. Água viva desarma a sintaxe do romance: não há capítulos, nem enredo convencional; o texto corre num contínuo, um agora insistente dito por uma narradora-pintora que tenta “pintar com palavras” o instante que foge. A crítica chamou-lhe, com razão, “romance sem romance”. A voz dirige-se a um “tu” indeterminado, que pode ser amante, leitor, Deus, corpo.
Água viva é, desde a génese, um livro sem alicerces fixos.
Em termos poéticos, trata-se de um experimento de perceção. A linguagem avança por unidades respiratórias (parágrafos como pinceladas), por tato, por ouvido: escuta-se a frase. Não há tese, há ritmo. Há um constante diálogo com a intermedialidade (pintura/música) e com uma ontologia aquática do corpo.
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DETALHES
| Propriedade | Descrição |
|---|---|
| ISBN: | 9789897228322 |
| Editor: | Quetzal Editores |
| Data de Lançamento: | maio de 2023 |
| Idioma: | Português |
| Dimensões: | 150 x 238 x 20 mm |
| Encadernação: | Capa mole |
| Páginas: | 296 |
| Tipo de produto: | Livro |
| Classificação Temática: |
Livros em Português
>
Literatura
>
Romance
|
| EAN: | 9789897228322 |
| Idade Mínima Recomendada: | Não aplicável |
OPINIÃO DOS LEITORES
Cor e musicalidade
Joana
Maryse Condé é uma verdadeira contadora de histórias e cria enredos de grande valia, pinta cenários belíssimos mesmo perante os temas mais sombrios, traz muita cor na sua escrita, quase como uma musicalidade. Há personagens peculiares neste livro e temas que por vezes parecem retirados dos sonhos. Gostei muito!
Vale a pena
João S.
Uma história de superação e de esperança, escrita com delicadeza e realismo. Que nos mostra como podemos criar laços na empatia pelo outro. De como num contexto devastador o humanismo nos resgata. Excelente aposta da Quetzal nesta obra de Maryse Condé que merece ser apreciada!
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