SINOPSE
Andrei Platónov (1899-1951), autor inédito em Portugal, foi descoberto pelo Ocidente nas últimas décadas do século xx, fenómeno que se traduziu na reescrita da história da literatura russa.
DETALHES
| Propriedade | Descrição |
|---|---|
| ISBN: | 9789726082187 |
| Editor: | Antígona |
| Data de Lançamento: | outubro de 2011 |
| Idioma: | Português |
| Dimensões: | 129 x 208 x 11 mm |
| Encadernação: | Capa mole |
| Páginas: | 176 |
| Tipo de produto: | Livro |
| Classificação Temática: |
Livros em Português
>
Literatura
>
Romance
|
| EAN: | 9789726082187 |
OPINIÃO DOS LEITORES
Escavação — A luta por uma utopia fracassada
João Matias
Platónov. Um nome a recordar. Confesso que parti para esta obra com enorme curiosidade e expectativa. Foi-me recomendada, há alguns anos, por uma pessoa admiradora da literatura russa para lá dos autores mais consagrados, e o fascínio com que falava desta negra distopia despertou imediatamente a minha atenção. Posso dizer que superou, em larga escala, todas as minhas expectativas. Uma linguagem melancólica, profunda, simbólica e carregada de absurdo, que expõe os limites da forma como o socialismo (entenda-se, o comunismo soviético) desumanizava o Homem através de utopias macabras e impossíveis de concretizar em nome de um ideal. Neste pequeno livro acompanhamos um grupo de trabalhadores encarregados de escavar os alicerces de um enorme edifício proletário que serviria de albergue para as gerações futuras. Um trabalho que nunca chega verdadeiramente a concretizar-se. O fosso cresce, mas o edifício permanece sempre uma promessa. E é aí que Platónov se revela mestre. Numa escrita sem floreados, exprime a desumanização do Homem pelo trabalho, a crítica feroz a um sistema que sacrifica pessoas reais em nome de um futuro abstrato, que coloca a ideia acima da dignidade humana e transforma a esperança numa máquina de propaganda perversa. E as personagens? Voschev, despedido por pensar demais. A imagem de um homem inserido num regime de certezas absolutas que insiste em fazer perguntas. Nástia, a pequena criança, símbolo do futuro comunista, na qual toda a narrativa deposita a sua esperança. E o urso, talvez uma das figuras mais curiosas da obra, uma crítica severa que sugere que os próprios animais são mais autênticos do que os homens: não vivem de abstrações ideológicas, simplesmente existem. Nesse “fosso coletivo”, o trabalho torna-se absurdo, repetitivo, quase a única forma possível de viver. E, no fundo, talvez todos sejamos como Voschev e nos perguntemos continuamente: “Para que existe o homem?” Que obra incrível e poderosa.
Obra essencial
André Lamas Leite
Um livro fabuloso sobre o outro lado da revolução bolchevique e sobre a instauração do que se supunha ser um regime verdadeiramente comunista. As mortes, o sofrimento e a desconfiança geral como modo de governar, a par de uma credulidade tantas vezes infantil.
"Estaline é só uma gotinha menos bom do que Lenine"
He
Belíssimo retrato alegórico da vida quotidiana soviética, com laivos de existencialismo e uma fina capacidade satírica. No processo de escavação das fundações de uma "casa para o proletariado" deparamo-nos com a fome, a pobreza e o atraso intelectual dos operários, que seguem acriticamente as "directivas do Partido", numa vida desprovida de sentido para além do trabalho em prol do sonho socialista. Retórica soviética, propaganda e burocracia do Estado, colectivização e luta de classes são-nos apresentadas sob o olhar crítico e desencantado de Platonov, que narra com prosa escorreita e de grande beleza as agruras e sacrifícios impostos à sociedade russa após a revolução. Para os menos familiarizados com a história da URSS e com os planos quinquenais de Estaline talvez faça falta uma introdução a contextualizar a narrativa. Ainda assim, "A Escavação" é um livro imperdível (de um autor que desconhecia, mas que pretendo revisitar), naquela que me parece uma boa tradução de António Pescada. "O homem constrói uma casa, mas destrói-se a si mesmo. Quem viverá então?" "Trabalhas, trabalhas, e quando acabas de trabalhar até ao fim, quando sabes tudo, cansas-te e morres. Não cresças menina, porque isso é triste" "O cão está aborrecido: vive apenas por ter nascido, como eu." "Cada animal apanhou a porção de comida que podia... No pátio, abriram as bocas, o alimento caiu delas numa pilha central, e então o gado socializado dispôs-se em volta e começou a comer devagar, submetendo-se à disciplina de maneira organizada"
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