A Cruciária
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PORTUGAL MAG, setembro de 2021 ‧
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SINOPSE
«A aldeia Mata do Sabor, situada no interior do Interior do Nordeste transmontano, onde acontece a trama deste romance, é ficção pura, mas bem podia ser Matela, a minha terra natal, encravada entre os rios Sabor e Maçãs, tal como a aldeia ficcionada, ou uma das muitas outras aldeias isoladas da serra de Montesinho, da serra da Lousã, da serra do Caldeirão ou um qualquer dos montes dispersos e isolados do Alentejo. Mata do Sabor tem a configuração de Matela - topónimos, habitações, ruas, caminhos, montes, rios, ribeiros, rincões - e Salomé, a heroína cruciária desta trama, viveu esta ficção na casa, ligeiramente alterada por necessidades narrativas, dos avós paternos do autor.
Este romance chama à atenção para a contínua desertificação do interior rural, berço de gente esforçada que nunca pediu nada aos diferentes poderes, em ditadura ou em democracia, e deles pouco recebeu, apostando desde sempre no trabalho e na temperança para sustentar, educar, formar os filhos e ajudá-los a abandonar a aldeia, onde a forma de vida atávica pouco evoluíra desde a Idade Média até à Revolução de Abril: a terra como riqueza ancestral e os animais domésticos como fonte de energia e açougue privilegiado para acesso a proteínas animais.
A estrutura agrária assente no minifúndio manteve-se imutável durante séculos porque o acesso à propriedade agrária como fonte de subsistência, mas não de prosperidade ou bem-estar, foi sempre o único caminho para garantir batatas, couves e azeite para o jantar. Da terra, das hortas, dos montes e da pastorícia provinha a subsistência de pessoas e animais, a energia para atear as lareiras que aqueciam as cozinhas, a pedra com que construíam pardieiros, o linho com que teciam toalhas para enfeitar mesas festivas e lençóis para cobrir enxergões de palha, a lã para tricotar camisolas, coturnos e urdir burel para fazer capotes transmontanos. Esta estrutura agrária, que durante séculos matou a fome às gentes do Nordeste, fornecendo abundância de hidratos de carbono, nunca dispôs nem dispõe de dimensão que atraísse investimentos empresariais dotados de inovação e novas formas de produção que proporcionassem rentabilidade atractiva.
Esta ancestral situação agrária, financeira e económica enxotou os filhos dos rurais para o Brasil, no início do século XX, para o centro da Europa, no terceiro quartil, e para as grandes cidades do litoral português, a partir do último quartil da última centúria. Esta última debandada de migrantes foi constituída por sucessivas súcias de jovens letrados, saídos dos liceus, institutos e universidades, que acederam à sociedade da conhecimento e informação financiados pelos pais, amanhadores de jeiras e criadores de vitelos, que canalizaram todas as poupanças arrancadas da terra para os filhos pagarem os quartos alugados nas cidades e os livros comprados a fiado nas livrarias, ou pelos pais emigrantes que desertaram do país com o objectivo sublime e impagável de ganharem capacidade financeira para educar os filhos e empurrá-los para os empregos no litoral, longe das embelgas da miséria. Sacrifícios de homens valentes e destemidos que porfiaram no trabalho, no conhecimento e nas oportunidades que a democracia abriu para extraírem os filhos da miséria numa geração, quando em ditadura se consumiam três gerações para igual escopo.
O dinheiro, infamemente derramada por Bruxelas no mundo rural através da PAC - Política Agrícola Comum, quer na componente estrutural destinada a incentivar o investimento e a modernização agrícola quer na componente destinada a manter baixos os preços e acessíveis os mercados agrícolas, revelou-se um desperdício de que aproveitaram prosélitos, oportunistas e preguiceiros e que em nada alterou a inovação, métodos de trabalho e muito menos a ancestral estrutura fundiária e o velho modo de vida fisiocrata.
A fuga louvável de deserdados, neste século e no anterior, ditou a desertificação e abandono de muitas aldeias rurais, onde agora sobrevivem escassas dezenas de anciãos apoiados em cajados de freixo, incapazes de abandonar os pardieiros, os móveis e as jeiras de avós para se encarcerarem em exíguos apartamentos suburbanos.
Vive-se a morte lenta de muitas aldeias transmontanas; assiste-se ao abandono dos campos e ao triunfo da indomável vida selvagem, que poder nenhum - religioso, autárquico, central ou comunitário - consegue travar.
Como sempre sucedeu em todas as épocas horrendas da história e em todas as condições cruciantes de vida, há sempre um poeta que desassossega: Há sempre alguém que resiste; Há sempre alguém que diz não.»
Ericeira, 8 de abril de 2020
Ao 31.º dia de confinamento provocado pelo coronavírus
Este romance chama à atenção para a contínua desertificação do interior rural, berço de gente esforçada que nunca pediu nada aos diferentes poderes, em ditadura ou em democracia, e deles pouco recebeu, apostando desde sempre no trabalho e na temperança para sustentar, educar, formar os filhos e ajudá-los a abandonar a aldeia, onde a forma de vida atávica pouco evoluíra desde a Idade Média até à Revolução de Abril: a terra como riqueza ancestral e os animais domésticos como fonte de energia e açougue privilegiado para acesso a proteínas animais.
A estrutura agrária assente no minifúndio manteve-se imutável durante séculos porque o acesso à propriedade agrária como fonte de subsistência, mas não de prosperidade ou bem-estar, foi sempre o único caminho para garantir batatas, couves e azeite para o jantar. Da terra, das hortas, dos montes e da pastorícia provinha a subsistência de pessoas e animais, a energia para atear as lareiras que aqueciam as cozinhas, a pedra com que construíam pardieiros, o linho com que teciam toalhas para enfeitar mesas festivas e lençóis para cobrir enxergões de palha, a lã para tricotar camisolas, coturnos e urdir burel para fazer capotes transmontanos. Esta estrutura agrária, que durante séculos matou a fome às gentes do Nordeste, fornecendo abundância de hidratos de carbono, nunca dispôs nem dispõe de dimensão que atraísse investimentos empresariais dotados de inovação e novas formas de produção que proporcionassem rentabilidade atractiva.
Esta ancestral situação agrária, financeira e económica enxotou os filhos dos rurais para o Brasil, no início do século XX, para o centro da Europa, no terceiro quartil, e para as grandes cidades do litoral português, a partir do último quartil da última centúria. Esta última debandada de migrantes foi constituída por sucessivas súcias de jovens letrados, saídos dos liceus, institutos e universidades, que acederam à sociedade da conhecimento e informação financiados pelos pais, amanhadores de jeiras e criadores de vitelos, que canalizaram todas as poupanças arrancadas da terra para os filhos pagarem os quartos alugados nas cidades e os livros comprados a fiado nas livrarias, ou pelos pais emigrantes que desertaram do país com o objectivo sublime e impagável de ganharem capacidade financeira para educar os filhos e empurrá-los para os empregos no litoral, longe das embelgas da miséria. Sacrifícios de homens valentes e destemidos que porfiaram no trabalho, no conhecimento e nas oportunidades que a democracia abriu para extraírem os filhos da miséria numa geração, quando em ditadura se consumiam três gerações para igual escopo.
O dinheiro, infamemente derramada por Bruxelas no mundo rural através da PAC - Política Agrícola Comum, quer na componente estrutural destinada a incentivar o investimento e a modernização agrícola quer na componente destinada a manter baixos os preços e acessíveis os mercados agrícolas, revelou-se um desperdício de que aproveitaram prosélitos, oportunistas e preguiceiros e que em nada alterou a inovação, métodos de trabalho e muito menos a ancestral estrutura fundiária e o velho modo de vida fisiocrata.
A fuga louvável de deserdados, neste século e no anterior, ditou a desertificação e abandono de muitas aldeias rurais, onde agora sobrevivem escassas dezenas de anciãos apoiados em cajados de freixo, incapazes de abandonar os pardieiros, os móveis e as jeiras de avós para se encarcerarem em exíguos apartamentos suburbanos.
Vive-se a morte lenta de muitas aldeias transmontanas; assiste-se ao abandono dos campos e ao triunfo da indomável vida selvagem, que poder nenhum - religioso, autárquico, central ou comunitário - consegue travar.
Como sempre sucedeu em todas as épocas horrendas da história e em todas as condições cruciantes de vida, há sempre um poeta que desassossega: Há sempre alguém que resiste; Há sempre alguém que diz não.»
Ericeira, 8 de abril de 2020
Ao 31.º dia de confinamento provocado pelo coronavírus
DETALHES
| Propriedade | Descrição |
|---|---|
| ISBN: | 9791097370145 |
| Editor: | PORTUGAL MAG |
| Data de Lançamento: | setembro de 2021 |
| Idioma: | Português |
| Dimensões: | 149 x 211 x 14 mm |
| Encadernação: | Capa mole |
| Páginas: | 254 |
| Tipo de produto: | Livro |
| Classificação Temática: |
Livros em Português
>
Literatura
>
Romance
|
| EAN: | 9791097370145 |
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