A Companhia dos Corvos
SINOPSE
Como hão-de ler, os corvos caíam que nem tordos, primeiro para afinar a pontaria, depois para comer na brasa, com umas pedrinhas de sal por cima e piripiri a gosto.
Para além dos corvos que ainda por lá voarão, peço-lhe que não queira identificar mais ninguém nestas memórias, porque as fui ajeitando ao longo dos anos, outros tantos fizeram o mesmo, o que permite que cada um apresente a sua própria versão de qualquer acontecimento.
Bom exemplo é o de Gustavo que, tendo regressado da guerra sem uma beliscadura, transformou em cruz de guerra a cicatriz que sofreu na coxa, muitos anos depois, em banal acidente de viação. Mas, se lhe prestar atenção, também é capaz de escutar o tiro do canhangulo que lhe fez a ferida e de elogiar a intrepidez com que resistiu.
Estas memórias são para os meus camaradas, principalmente para aqueles que mantêm, no corpo ou na mente, um contencioso com a guerra colonial que ainda têm medo de perder.
Eu há muito que me deixei disso e a minha filha que, na minha guerra, só existia nos aerogramas de amor que eu trocava com a Edite, dir-vos-á que sou, definitivamente, um Homem de Paz.
EXCERTOS
«Reclamava-se mais se o correio não chegasse do que se faltasse a comida, a comida podia inventar-se, podia esquecer-se, as palavras não, dos pais, das noivas, das namoradas, das madrinhas de guerra, dos amigos, da família, as palavras por nada deste mundo podiam ser substituídas ou adiadas, eram elas que nos ligavam aos afectos e ao mundo, as palavras eram o nosso incentivo para sobreviver e para regressar. Por isso, ir buscar e levar o correio, onde quer que fosse, era uma tarefa prioritária pela qual se perdia a noção do risco, chegando a atingir-se um elevado graude insensatez.»
A Companhia dos Corvos é uma memória da guerra colonial que fiz em Moçambique de 1963 a 1966 e os corvos que lhe dão o nome não são a consigna da minha Companhia de Caçadores, são corvos mesmo, crocitando ao redor do Posto Administrativo do Unango, no distrito de Vila Cabral.
Como hão-de ler, os corvos caíam que nem tordos, primeiro para afinar a pontaria, depois para comer na brasa, com umas pedrinhas de sal por cima e piripiri a gosto.
Para além dos corvos que ainda por lá voarão, peço-lhe que não queira identificar mais ninguém nestas memórias, porque as fui ajeitando ao longo dos anos, outros tantos fizeram o mesmo, o que permite que cada um apresente a sua própria versão de qualquer acontecimento.
Bom exemplo é o de Gustavo que, tendo regressado da guerra sem uma beliscadura, transformou em cruz de guerra a cicatriz que sofreu na coxa, muitos anos depois, em banal acidente de viação. Mas, se lhe prestar atenção, também é capaz de escutar o tiro do canhangulo que lhe fez a ferida e de elogiar a intrepidez com que resistiu.
Estas memórias são para os meus camaradas, principalmente para aqueles que mantêm, no corpo ou na mente, um contencioso com a guerra colonial que ainda têm medo de perder.
Eu há muito que me deixei disso e a minha filha que, na minha guerra, só existia nos aerogramas de amor que eu trocava com a Edite, dir-vos-á que sou, definitivamente, um Homem de Paz.
DETALHES
| Propriedade | Descrição |
|---|---|
| ISBN: | 9789897090301 |
| Editor: | Padrões Culturais |
| Data de Lançamento: | maio de 2012 |
| Idioma: | Português |
| Dimensões: | 159 x 231 x 7 mm |
| Páginas: | 160 |
| Tipo de produto: | Livro |
| Coleção: | Memórias |
| Classificação Temática: |
Livros em Português
>
Literatura
>
Memórias e Testemunhos
|
| EAN: | 9789897090301 |
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